É
possível enfrentar o mal de Alzheimer com uma fímbria de esperança?
O americano John Zeisel, sociólogo com doutorado em arquitetura e design,
criou até uma empresa para isso. Por meio dela, fornece métodos
de atendimento e projetos de prédios para idosos com Alzheimer onde
uma área comum reproduz pracinhas do interior como elas eram antigamente.
Ele assessorou um centro do gênero que será inaugurado em São
Paulo e falou à editora Lizia Bydlowski.
O QUE PASSA PELA MENTE DE UMA PESSOA COM ALZHEIMER?
Basicamente, ela quer que o mundo faça sentido. Busca entender o que está
acontecendo e lidar com isso. Quanto mais o tempo passa, mais difícil vai
ficando. É nossa função tornar o mundo mais compreensível,
para facilitar sua vida.
AGITAÇÃO
E ANSIEDADE, COMUNS EM PESSOAS COM ALZHEIMER, SÃO SINTOMAS DA DOENÇA
OU RESULTADO DESSAS TRANSFORMAÇÕES? Geralmente, são
resultado. Pelo menos um terço dos comportamentos que identificamos como
agitação, agressão ou ansiedade é, na verdade, conseqüência
da incapacidade de se lembrar, de achar o caminho, de ter certeza de que se tem
de fazer uma coisa mas não se sabe o que é. Como também é
conseqüência o outro extremo do comportamento de quem tem Alzheimer:
a apatia. Quando a parte do cérebro que marca o tempo, que permite que
a gente saiba em que parte do dia está sem olhar para o relógio,
é danificada, não há mais senso de passado nem de futuro,
só de presente. As pessoas com Alzheimer vivem no presente. Por causa disso,
tornam-se apáticas. Ficam sentadas, olhando para o vazio.
COMO
O SENHOR RECOMENDA QUE SE AJA COM PESSOAS QUE TEM ALZHEIMER? Há
métodos para cada dificuldade. No caso do seqüenciamento, função
executiva do cérebro que é afetada pela doença, o truque
é não exigir que a pessoa dê todos os passos, é ajudá-la
a executar a seqüência. Para uma tarefa como escovar os dentes, por
exemplo, é recomendável pegar a escova, pôr a pasta e dizer:
"Agora vamos escovar os dentes". Ou, em vez de dizer para ela se vestir, abrir
o armário, oferecer três ou quatro opções e perguntar:
"O que a senhora quer usar hoje?". É uma escolha limitada, na qual não
é preciso fazer opções demais. Você cria a seqüência
e deixa que a pessoa faça o que pode. No caso da memória, crie um
ambiente em que ela tenha seus próprios objetos, retratos dos filhos, coisas
que lembrem o passado. Música e arte são fundamentais, porque estão
entranhadas profundamente no espírito e na mente.
DEVE-SE
CONTAR A UMA PESSOA QUE ELA TEM ALZHEIMER? Cada caso é um caso.
De modo geral, acredito em sinceridade, o que não quer dizer que você
deve contar exatamente da maneira como enxerga o problema. Para o doente, é
muito importante ter esperança. Mas tem gente que sabe que alguma coisa
está errada e se sente muito aliviada quando lhe contam que tem Alzheimer.
Enfim entende que está doente, e não que está ficando maluca.
De modo geral, acho importante que a pessoa no estágio inicial da doença
fique sabendo, para que possa planejar a vida, a morte, os cuidados enquanto ainda
tem condições. É melhor ser sincero e contar de uma maneira
que a pessoa entenda do que não falar nada.
COMO
O SENHOR REAGIRIA SE FOSSE DIAGNOSTICADO COM ALZHEIMER? Realmente não
sei. Acho que ficaria abalado, como todo mundo que ficasse sabendo que tem uma
doença terminal. Mas não mais abalado do que se fosse câncer
ou qualquer outra coisa. E menos agora que sei que posso continuar a ter uma vida,
e a apreciá-la, por muitos anos. Penso nisso, até por estar tão
perto da doença. Mas não tenho o que chamo de "Alzheimer por antecipação",
do tipo que perde a chave e já acha que é um sintoma. Quando comecei
a trabalhar com isso, há mais de dez anos, vivia com muito mais medo de
acontecer comigo. Dizia que essa era uma doença que eu não queria
ter. Agora digo que não quero ter doença nenhuma. E concordo com
o princípio budista de que pensamentos do tipo "e se..." não levam
a nada.