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Montagem sobre fotos de Pedro Rubens e Claudio Rossi
Ricardo Valladares No final da década passada, o apresentador Gugu Liberato, do SBT, estabeleceu dois objetivos: impor uma derrota espetacular à Rede Globo nas tardes dominicais e tornar-se dono de uma emissora, à semelhança de seu ídolo e patrão, Silvio Santos. A primeira meta foi atingida. Gugu é hoje rei absoluto de uma das faixas mais nobres do fim de semana, aquela que vai das 16 às 20 horas de domingo. Nesse horário, em São Paulo, cidade responsável por 80% do faturamento publicitário da TV brasileira, ele costuma nocautear três combatentes de peso: Xuxa, Tom Cavalcante e Fausto Silva. Nos lances iniciais da guerra de audiência, Gugu assestou suas baterias contra Faustão, campeão incontestável de ibope na maior parte dos anos 90. Foi minando a liderança do adversário, até deixá-lo batido na lona. Para se ter uma idéia, desde que a disputa entre o Domingão do Faustão e o Domingo Legal se acirrou, há 58 semanas, Gugu venceu a parada em 45 delas. Não raro, as vitórias são expressivas, com quase o dobro de pontos. De acordo com rumores que circulam por trás das câmaras, Faustão sente-se tão pressionado que estaria examinando a hipótese de rescindir seu contrato com a Globo. Assegurada a vantagem no Ibope sobre o principal adversário, o loiro do SBT passou a perseguir os dois outros alvos. Mais uma vez se deu bem. Há dois meses, sua audiência, na média paulista, bate rotineiramente a do Planeta Xuxa e a do Megatom, programas que antecedem o Domingão do Faustão. A partir deste domingo, 22, o Domingo Legal se estenderá até as 21 horas. Com isso, Silvio Santos quer golpear o Fantástico, da Globo. A outra novidade é que o Sabadão, de Gugu, será veiculado no horário nobre, para incomodar os adversários. A contrapartida financeira desse triunfo no vídeo é espetacular: entre merchandising e salário, Gugu chega a embolsar 3,5 milhões de reais por mês. Três anos atrás, essa cifra não ultrapassava 1 milhão. O lado empresarial vai de vento em popa. Seus cinco negócios faturaram em 2000 quase 88 milhões de reais. O patrimônio atual de Gugu está estimado em 100 milhões de reais, segundo dados fornecidos por seu irmão, Amandio Liberato, e pelo advogado do apresentador, André Murad. Dona de uma imagem que vale ouro, a estrela do SBT prepara-se para concretizar sua segunda ambição. O nome da futura emissora já está inclusive registrado: TV Paulista.
Em novembro do ano passado, num almoço sigiloso em São Paulo que reuniu um enviado da Rede Globo e representantes de Gugu, uma sondagem foi feita a respeito da possibilidade de o apresentador deixar o SBT e transferir-se para a emissora carioca. Nessa transação, além de preservar os mesmos rendimentos que tem hoje em dia, Gugu ganharia o direito de explorar uma das retransmissoras do sinal da Globo no interior paulista. Oficialmente, ninguém se pronuncia sobre essa história. O contrato de Gugu com Silvio Santos vai até maio de 2002. Ele tem ainda uma dívida de gratidão para com o homem que o emprega desde que ele era um garoto de 15 anos e que lhe dedica um tratamento especial o dono do SBT sempre atende às ligações de seu funcionário preferido e às vezes o visita em seu camarim. "Gosto de Gugu porque seu ego não é gigantesco. Ele trabalha sem reclamar de nada", volta e meia diz Silvio, um patrão econômico em elogios. Por essas razões, e também porque gosta de sua posição de estrela do SBT, inferior em brilho apenas a Silvio Santos, Gugu é um muro de negativas quando alguém o interpela sobre uma mudança de emissora. "Só saio do SBT no dia em que Silvio sair", afirma.
Para obter um canal de TV pelas vias normais, Gugu tem de se inscrever nos processos de licitação do Ministério das Comunicações. Ele já fez isso duas vezes. Em Curitiba e em Santos chegou a preencher todos os requisitos técnicos até a fase final da proposta financeira, mas perdeu para grupos mais fortes. Gugu está no páreo em outras três concorrências: em São José dos Campos, Campinas e Jundiaí, todas cidades do interior de São Paulo. Existe a chance de que, caso Boni saia da Rede Globo, da qual é consultor, ele venda a sua concessão em Taubaté para Gugu (se continuar no cargo, não poderá fazê-lo por imposição contratual). Como não basta ter dinheiro para se dar bem numa licitação desse tipo é preciso ainda contar com a bênção de poderosos , o loiro do SBT investe na política. Embora se tenha deixado fotografar na rampa do Palácio da Alvorada em 1992 ao lado do presidente Fernando Collor de Mello, ele afirma que seu coração é tucano. "Eu sempre fui eleitor de Fernando Henrique e de Mário Covas", diz ele. "Veja a Hebe, foi apostar no Maluf e só se deu mal." Há duas semanas, Gugu gravou o programa de propaganda do PSDB. Sempre que pode, estende o tapete vermelho no Domingo Legal a caciques do partido. O ministro da Saúde, José Serra, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, usaram esse palanque eletrônico recentemente. Outra providência "política", segundo Gugu, foi reduzir o número de baixarias em seu programa. "Há gente em Brasília que me acha muito popularesco", afirma ele. "Ainda sou conhecido como o homem da banheira e das crianças que dançam na boquinha da garrafa."
É bom lembrar que o quadro da banheira, no qual homens e mulheres seminus se esfregavam numa Jacuzzi, saiu do ar há seis meses não pela vontade de Gugu, mas por causa de uma ordem judicial. O apresentador, contudo, desistiu de tentar ressuscitá-lo. "Ao assistir ao Luciano Huck fazendo o mesmo na Globo, vejo que esse tipo de coisa não faz falta", alfineta ele. "Nunca mostrei banheira. Eram piscinas instaladas numa praia. Jamais foi uma coisa gratuita, como no programa do Gugu", devolve Huck, irritado. Vai longe também o tempo em que se contentava em engabelar o público com aquele quadro fajuto do "táxi do Gugu", protagonizado por atores que fingiam ser passageiros comuns de um motorista maluco. Isso não quer dizer que o Domingo Legal se tenha tornado uma atração digna de figurar na BBC inglesa, famosa pela sua excelência. Gugu abre espaço, por exemplo, para médicos que realizam pequenas cirurgias ao vivo, com direito a closes escabrosos durante cada operação. Há de se admitir, no entanto, que a exploração contumaz de lixo televisivo não é mais parte tão fundamental de sua filosofia quanto no caso de um Sérgio Mallandro, que apresenta o Festa do Mallandro na TV Gazeta, ou de um João Kl&eacude;o digna de figurar na BBC inglesa, famosa pela sua excelência. Gugu abre espaço, por exemplo, para médicos que realizam pequenas cirurgias ao vivo, com direito a closes escabrosos durante cada operação. Há de se admitir, no entanto, que a exploração contumaz de lixo televisivo não é mais parte tão fundamental de sua filosofia quanto no caso de um Sérgio Mallandro, que apresenta o Festa do Mallandro na TV Gazeta, ou de um João Kléber, que comanda o Te Vi na TV na Rede TV!. Nos últimos tempos, Gugu cristalizou duas convicções básicas: a de que sempre é preciso estar pronto para improvisar na televisão e a de que uma atração de auditório, além de contar com brincadeiras infantilóides ou números musicais com cantores de massa, deve valorizar notícias quentes. Foi com base nesses dois princípios que deixou em estado de coma o Domingão do Faustão.
No jargão televisivo, um programa como o dominical de Gugu é chamado de "ônibus" ou "contêiner". Tem esse nome porque nele cabe de tudo: entrevistas, musicais, competições e reportagens. Atrações assim são moldáveis enquanto estão no ar. Seu formato permite mudanças rápidas, ao sabor dos índices de audiência monitorados pelo apresentador minuto a minuto. Se a entrevista com determinado cantor causa uma debandada de espectadores, ela é encurtada, para que seja substituída por algo mais palatável. Da mesma forma, se uma reportagem está segurando o ibope, ela é prolongada até que o público perca o interesse. Essa é uma das principais diferenças entre os programas de auditório modernos e os das décadas passadas. Calcadas no rádio, as atrações antigas exibiam quadros fixos, que se sucediam numa ordem rígida e tinham um tempo certo de duração. Com isso, procurava-se contemplar todo tipo de gosto, já que não se sabia o que estava agradando mais ao público em casa. O aparecimento da medição de audiência instantânea, na década de 90, fez com que os apresentadores se livrassem dessa camisa-de-força formal e passassem a submeter-se ao julgamento imediato da maior parte dos espectadores. Ganhou-se em agilidade, perdeu-se em qualidade. Segundo alguns estudiosos, essa "ditadura da maioria" resultou na exploração do sensacionalismo.
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