O papa e o holocausto,
no teatro e na vida

O documento do Vaticano divulgado na semana
passada remete a uma peça de quatro décadas atrás

O papa (com voz apaixonada): "...um diplomata tem de ver muita coisa... e calar. Hitler já não é tão perigoso. A Casa Branca e Londres devem se dispor a um compromisso. É preciso negociar, não se deve apostar a Europa inteira num tudo ou nada e fazer de Stálin o herdeiro de Hitler".

O trecho acima é de uma obra-prima do teatro, a peça O Vigário, do alemão Rolf Hochhuth, escrita em 1959, já lá vão quase quarenta anos, e ambientada na II Guerra Mundial. O papa em questão é Pio XII, que pontificou entre 1939 e 1958, tão magro, tão ascético por trás de seus oculinhos sem aro, tão virtuoso com suas visões noturnas da Virgem Maria. Hochhuth pinta-o como um calculista, que, em nome de interesses que imaginava superiores, ignora o holocausto dos judeus durante o nazismo. Outros trechos, em transcrição livre, pulando e resumindo frases (tradução de João Alves dos Santos):

O papa (sublinhando cada palavra com uma palmada no braço do trono): "...a razão de Estado proíbe denunciar Hitler como um bandido, pois ele deve continuar a ser um interlocutor digno... Não haverá paz na Europa sem o Reich como núcleo do continente, estabelecendo uma distância suficiente entre o Leste e o Oeste".

O papa (com impaciência): "É certo que o terror contra os judeus é nauseabundo, mas não deve amargurar-nos ao ponto de fazer-nos olvidar o dever que em futuro muito breve será imposto aos alemães, como protetores de Roma".

Na semana passada, uma iniciativa do Vaticano deu nova atualidade a O Vigário. Foi divulgado um documento, "Nós nos recordamos: uma reflexão sobre o shoah" (veja à pág. 45), em que a Igreja aborda a responsabilidade dos cristãos no holocausto ("shoah", em hebraico). O documento, redigido com a característica prudência, é tão escorregadio que não caracteriza nem mea-culpa nem declaração de inocência. O simples fato de sua existência, no entanto — obra desse especialista em mexer nas feridas da História que é o papa João Paulo II —, agita de novo o vespeiro que foi a atuação do Vaticano diante do regime de Hitler.

O Vigário é teatro, obra de ficção portanto, mas calcada numa pesquisa histórica ampla, apresentada como complemento no mesmo livro. Hochhuth talvez não tenha sido o primeiro a levantar a questão da responsabilidade do papa Pio XII no holocausto, mas foi quem a escancarou. Seu livro, por isso, causou escândalo. As falas, como as aqui transcritas, são inventadas, mas plausíveis diante da omissão, quando não do acomodamento, de que se revestiu objetivamente a atuação do papa.

Pio XII manteve o silêncio mesmo quando os nazistas começaram a atuar na própria Roma ocupada, em 1943. A deportação de judeus ocorria então, conforme nota do embaixador alemão na Santa Sé — citada por Hochhuth —, "sob as próprias janelas do papa". Qual é o ponto de Hochhuth? É que, se Pio XII tivesse, com sua autoridade moral, condenado a matança dos judeus, teria provocado seu fim. O papa mandou acolher judeus nos conventos ou facilitou-lhes a fuga, mas nunca fez declaração de protesto. Dava-lhes proteção no varejo, mas recusava-se a colocar-se a seu lado no atacado. Em um dos vários grandes momentos da peça, dá-se o seguinte diálogo:

— Meu Deus, és capaz de crer que o papa fique impassível diante da fome e do sofrimento de uma só pessoa? O coração dele está com as vítimas.

— E a voz? Onde está a voz dele? O coração não tem o menor interesse. Também Himmler, o chefe de polícia nazi, não pode suportar ver suas vítimas. Tudo é feito através dos canais competentes: o papa não vê as vítimas, e Hitler também não.

Tantos anos depois de O Vigário, o que representa o documento do Vaticano? Uma decepção, se tomado ao pé da letra. O documento admite que o ancestral antijudaísmo dos cristãos possa ter alimentado o anti-semitismo de Hitler. Condena os cristãos que viam os vizinhos judeus desaparecer e não eram "fortes o suficiente para levantar as vozes em protesto". Mas exime de culpa a Igreja, como instituição, e, quanto a Pio XII, diz que ele, "pessoalmente ou por meio de representantes, salvou dezenas de milhares de vidas". O texto chega a ser iníquo, ao condenar os cristãos mas não a Igreja, os governos que "fecharam as fronteiras para a imigração de judeus" — inclusive "das Américas do Norte e do Sul" — mas não o papa.

O documento adquire outro significado, porém, no contexto mais amplo da obra de João Paulo II. Este foi o papa que, logo depois da coroação, visitou Auschwitz. Que percorreu sinagogas. O papa que, em 1982, canonizou o padre Maximiliano Kolbe, um polonês que morreu em Auschwitz. A mera iniciativa do documento seria mais um item no esforço de revisão de um passado sinistro. Se o outro foi o papa da omissão, este é o da ação. O papa que se lançou na primeira linha de combate aos regimes totalitários de seu tempo de reinado, os do Leste Europeu.

O padre Kolbe, canonizado por João Paulo II, é, por coincidência, o inspirador do principal personagem de O Vigário. Lá no fundo, a peça de Hochhuth ressoa no drama do pontificado do papa polonês.




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