Atrás do biombo

Um bom romance sobre a vida secreta das gueixas

Se resolvesse escalar o Monte Fuji sem equipamento, durante uma nevasca, o acadêmico americano Arthur Golden estaria se metendo numa aventura menos complicada que a de escrever Memórias de uma Gueixa (Imago; tradução de Lya Luft; 461 páginas; 28 reais), seu romance de estréia. Mostrando o Japão dos anos 30 e 40, o livro conta como Chiyo, filha de pescador, se transforma em Sayuri, celebrada gueixa de Kioto. Não bastassem as dificuldades de pesquisa histórica dessa empreitada, Golden, homem e ocidental, resolveu narrar em primeira pessoa. Para surpresa de todos, não caiu durante a escalada. Alcançou o sexto lugar na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Compôs uma obra delicada e mais do que convincente.

Com seu quimono de luxo e maquiagem de brancura quase sobrenatural, a gueixa é um símbolo da cultura japonesa. Ela é também ícone de uma certa noção de feminilidade: mistura de deusa e escrava, alimenta intensas fantasias eróticas masculinas — e não se está falando, aqui, de grosserias como o sushi erótico do Faustão. Para completar, gueixas são obras de arte ambulantes: treinadas em dança e canto, passam por intenso aprendizado e seus gestos são guiados por rígidas regras estéticas. Diante dessas figuras, até os escritores japoneses hesitam; representá-las é arriscar-se a tropeçar em clichês. Golden, no entanto, mobilizou seu arsenal erudito e ainda contou com uma ajuda preciosa: raras entrevistas de uma gueixa à moda antiga, que consentiu em conversar com ele. Com isso, o autor trouxe à luz um Japão secreto e fez ecoar nas páginas de seu texto a esplêndida (e bastante feminina) tradição literária japonesa. Golden dedicou dez anos à escrita do livro. Pode-se dizer que não desperdiçou seu tempo, nem tampouco o do leitor.




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