Lição de estilo

Manhas e manias que fazem o charme de Frank Sinatra

Em pelo menos seis décadas de show business e boemia, Frank Sinatra foi um mestre da elegância. Esbanjou energia, dinheiro e savoir-faire. Hoje, aos 82 anos, adoentado e com freqüentes internações em UTI, na certa deixou alguns, senão todos os prazeres que desbragadamente cultivou enquanto estava no auge. Mas nem por isso deixou de ser sinônimo de estilo. Quem quiser saber como o "Velhos Olhos Azuis" escolhia e lidava com suas roupas e bebidas, bares e restaurantes, mulheres e amigos dispõe agora de um bom guia, assinado pelo jornalista Bill Zehme: Frank Sinatra — A Arte de Viver (Ediouro; tradução de Ricardo Silveira; 256 páginas; 39 reais — com direito a um CD).

Os biógrafos de Sinatra não resistem à tentação de batizar seus livros com palavras das canções imortalizadas por ele. Kitty Kelley, sua mais polêmica e fofoqueira biógrafa, apelou para My Way. Will Friedwald, autor de seu mais alentado perfil musical, escolheu The Song Is You. Zehme, o último a entrar em cena, optou, no original em inglês, por The Way You Wear Your Hat — "como você usa o chapéu". Sem dúvida, trata-se de um título adequado ao seu projeto, ainda que o livro não se limite a contar como Sinatra preferia usar seus Cavanaugh. Redigindo mais um perfil do que um relato de vida, o articulista da revista Esquire preocupou-se em celebrar a maneira como Sinatra fez o que fez. A bem dizer, biografou a sensibilidade do cantor. E da melhor maneira: com informações de coxia sobre quase tudo que os fãs gostariam de saber a respeito de seus hábitos.

A que horas costumava ir para a cama? Com o sol raiando. Bebida favorita? O bourbon número um da América, Jack Daniel's. A marca do seu cigarro? Já foi Lucky Strike, Chesterfield e Camel, sempre sem filtro, nunca tragados e só acesos depois que a noite cai. Quando variava de álcool, submetia a vodca Stolichnaya ao mesmo ritual do Jack Daniel's: três ou quatro cubos de gelo, dois dedos do precioso líquido e outro tanto de água. Nas refeições, os vinhos tintos, sempre franceses ou italianos (Petrus, Mouton Rothschild e Gaja), eram os mais pedidos. Na hora do brinde, nada de "saúde!" ou clichê similar. Erguendo a taça, dizia sempre, em italiano, "cent'anni!", que era até quando gostaria que os presentes vivessem.

Fiel como um cão aos amigos, romântico e atencioso à moda antiga com as mulheres, generoso até com desconhecidos, indócil, explosivo, destemido (o medo, segundo ele, "é o inimigo da lógica"), avesso a drogas (brigou com seu cupincha Sammy Davis Jr. quando este se entregou à cocaína), racistas, delatores, avarentos, jornalistas bisbilhoteiros, moedas e fragrâncias intensas (colônia Aramis, nem pensar), Sinatra detesta ficar sozinho e é quase tão obcecado com limpeza e arrumação quanto o personagem de Jack Nicholson no filme Melhor É Impossível. Ele próprio admite: "Sou um homem fanaticamente simétrico".

Seus closets estão sempre nos trinques, com ternos impecavelmente guardados (tinha 150 em 1960) e duas gavetas só para abotoaduras. Sua patológica repulsa à sujeira o obriga a tomar no mínimo dois banhos por dia, trocar de cuecas até quatro vezes e trazer no bolso apenas cédulas novinhas. Apesar de suas esquisitices, conquistou mais mulheres do que Casanova. Tantas foram que seu parceiro Dean Martin sugeriu a doação do zíper do cantor ao museu Smithsonian, uma das mais prestigiadas instituições americanas.

Sérgio Augusto




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