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| Foto: Liane Neves |
| Zamel: viagens ao redor do mundo à procura de comunidades isoladas |
Está nas mãos de um brasileiro a esperança de milhões de pessoas que sofrem de asma no mundo inteiro. O gaúcho Noé Zamel, diretor dos laboratórios de fisiologia pulmonar da Universidade de Toronto, no Canadá, é um Indiana Jones da medicina. Nos últimos anos, ele tem viajado aos lugares mais distantes do mundo com um só objetivo: coletar sangue de pessoas que possam ajudá-lo a isolar os genes causadores da doença. Em 1994, Zamel desembarcou no vilarejo de Nan Qiang, no sudeste da China, depois de pegar dois aviões, dois trens e um ferryboat, em busca de uma família de 150 pessoas um terço das quais sofre de asma. Em 1996 foi à Ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico, para estudar uma comunidade rapa nui, a tribo local 25% dos nativos sofrem da doença. Foi achar o que queria em Tristão da Cunha, ilhota no meio do Oceano Atlântico, pertencente ao império britânico, onde encontrou a população com o maior índice de asma do mundo, 50%. No sangue coletado entre os 320 habitantes da ilha, Zamel conseguiu identificar um gene responsável por 10% dos casos de asma, batizado por ele de ASTH1, as quatro letras iniciais da palavra asma em inglês ("asthma").
Inspiração em Proust A partir da descoberta, os laboratórios patrocinadores da pesquisa vão produzir o primeiro remédio que vai combater as causas, e não as conseqüências da asma. Desde o século passado sabe-se que a doença é genética, desencadeada por fatores externos como poeira, frio ou situações estressantes. Faltava a prova científica: isolar algum gene que, respondendo a esses fatores, provoca a contração dos bronquíolos os canais condutores de oxigênio pelos pulmões e o conseqüente sufocamento dos asmáticos. O remédio contra a asma, cujo princípio ativo deverá ser a produção de uma antiproteína que anule a substância encontrada no ASTH1, só deverá ser vendido daqui a cinco anos, depois de desenvolvimento e testes. Mas o achado de Zamel já lhe valeu aplausos da comunidade científica mundial. "A localização do gene da asma é a descoberta mais importante do século sobre a etiologia da doença", disse à revista Science Richard O'Connor, chefe da divisão de asma, alergia e imunologia clínica da Universidade da Califórnia.
Aos 63 anos, Zamel tem nas mãos o maior orçamento destinado à pesquisa para a cura genética de uma única doença no mundo: 70 milhões de dólares, fornecidos pelo laboratório Boehringer Ingelheim, pela companhia Sequana Therapeutics e pela Universidade de Toronto. Tornou-se leitor de Marcel Proust depois de descobrir que o escritor francês morreu em Paris fulminado por um ataque de asma. Sua descoberta é fruto da obstinação. Tristão da Cunha só pode ser atingida em uma viagem de sete dias por barco lá não existe aeroporto. Em sua primeira expedição ao lugar, em 1993, Zamel quase naufragou com o South Africa Agulhas, que adernou em meio a uma tempestade. "Tive medo de morrer ali e colocar a pique, literalmente, toda a pesquisa", conta o cientista. Ao chegar ao Canadá, descobriu que o sangue coletado não era suficiente para isolar o vírus. Retornou a Tristão da Cunha com 3 toneladas de equipamento para congelar as células de sangue em hidrogênio líquido e transportá-las para os laboratórios do Canadá. Seu objetivo é encontrar o restante dos genes da asma, para chegar a um remédio definitivo contra a doença. Para isso, o cientista continua em sua busca de pequenas comunidades, onde o índice de casamento entre familiares é grande e a disseminação da asma, ampla. Seu próximo grupo de estudo reúne 1.200 judeus oriundos da Índia que vivem em três kibutzim próximos a Jerusalém.
Alexandre Oltramari
Copyright © 1998, Abril
S.A. |