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Visão do futuro
Exposição
universal reforma Lisboa e celebra
inclusão de Portugal na economia européia
A União Européia
injetou dinheiro, sacudiu o marasmo secular e colocou
Portugal no mapa da Europa moderna. O país vive uma era
de prosperidade como não via desde o tempo das naus e
caravelas. Como também se estão completando 500 anos da
descoberta do caminho para as Índias por Vasco da Gama,
os portugueses juntaram os dois motivos de comemoração
num único megaevento, a Expo-98. É aquele tipo de
exposição universal que um país só arrisca sediar
quando se sente à vontade para exibir prosperidade. Sob
o tema Os Oceanos, um Patrimônio para o Futuro, entre
22 de maio e 30 de setembro será a penúltima feira do
gênero neste século e a centésima da História. Ao
contrário do que aconteceu na Expo-92, em Sevilha, que
comemorou a Descoberta da América, em que os
organizadores não tinham uma idéia concreta do que
fazer com as benfeitorias depois que a exposição
terminasse, tudo está sendo planejado para que Lisboa
saia da mostra com a infra-estrutura de uma capital
européia de verdade.
A exposição, cujo
orçamento beira os 2 bilhões de dólares, espalha-se
por 60 hectares de um trecho de 5 quilômetros ao longo
do estuário do Rio Tejo. À sua volta, está sendo
construído o bairro Expo Urbe, que vai ocupar 340
hectares. Os pavilhões estão substituindo uma das
áreas mais degradadas da cidade. Ali se instalavam
companhias petrolíferas, um matadouro industrial, um
ferro-velho, um aterro sanitário e a estação de
tratamento de esgotos da cidade. Quando terminar, o
Pavilhão dos Oceanos, projetado pelo arquiteto americano
Peter Chermayeff o mesmo dos aquários de Osaka
(Japão) e Baltimore (Estados Unidos) , será
transformado no Oceanário de Lisboa, uma atração que
deverá receber mais de 1 milhão de visitantes por ano.
Parcialmente submerso, irá abrigar um aquário com
10.000 metros cúbicos de água e 15.000 exemplares de
cerca de 200 espécies marinhas de todos os oceanos.
A Área
Internacional Norte, os 100.000 metros quadrados
destinados à instalação de estandes dos 151 países
participantes um número recorde , dará lugar ao
centro de exposições da Associação Industrial
Portuguesa. O Pavilhão da Utopia, um ginásio coberto
com capacidade para 16.000 pessoas, será palco de
espetáculos culturais e esportivos. Isso tudo estará
servido por um sistema de transporte incrementado pela
Estação do Oriente, um projeto do arquiteto e
engenheiro espanhol Santiago Calatrava, que ligará novas
linhas rodoviárias ao sistema ferroviário de longo
curso e ao metrô; e pela construção de uma nova ponte
de 18 quilômetros sobre o Tejo, ligando o norte ao sul
do país, batizada Vasco da Gama.
Dinheiro
grosso Antes mesmo que o primeiro dos 8
milhões de visitantes previstos ponha os pés em seus
pavilhões, a Expo-98 já começa a gerar dinheiro. Até
o final do ano passado, 105 milhões de dólares haviam
sido levantados só com os patrocínios, a
comercialização da marca do evento e a venda antecipada
de ingressos. O dinheiro grosso, no entanto, virá da
comercialização de prédios de escritórios e
residências que formarão o Expo Urbe. Até maio, 5.000
pessoas já estarão morando no novo bairro, que irá
alojar cerca de 7.400 apartamentos. A venda de terrenos,
que se prolongará até 2009, vai atingir os 210 milhões
de dólares no fim deste ano. A ocupação ordenada da
área também deverá gerar, dentro de uma década,
18.000 novos empregos. Só em impostos na Expo-98,
Portugal conta arrecadar 80 milhões de dólares. O mais
importante, contudo, é a oportunidade de exibir otimismo
e modernidade num país que ainda é um dos mais
subdesenvolvidos da Europa Ocidental. No ano passado,
graças em parte à ajuda que a União Européia presta a
seus membros mais pobres, Portugal espichou seu PIB em
3,2%. Com inflação em baixa, uma taxa de desemprego
invejável 7%, contra 20% da vizinha Espanha e leis
trabalhistas flexíveis, o país está se transformando
num pólo de atração para investimentos estrangeiros.
A primeira
exposição universal foi realizada em Londres, em 1851,
como consagração da Revolução Industrial e da
expansão do império britânico. As quatro últimas
Bruxelas-58, Montreal-67, Osaka-70 e Sevilha-92 foram
visitadas por mais de 150 milhões de pessoas. No século
passado, as exposições funcionavam exclusivamente como
grandes balcões de compra e venda, embora suas
construções já trouxessem dividendos ao
experimentalismo arquitetônico. Até a redação de uma
convenção internacional, em 1928, não havia nenhuma
regra comum que as regesse. Em 1888, por exemplo, cinco
exposições simultâneas roubaram importância uma das
outras. Atualmente, o Bureau International des
Expositions, BIE, com sede em Paris, estabelece a
periodicidade desses eventos que depende de suas
características e localização e os direitos e
deveres de convidados e organizadores. A próxima, na
virada do milênio, será em Hannover, na Alemanha.
Os
longos braços de Castela
A festa é
portuguesa, com certeza, mas os espanhóis
comportam-se como se fossem os donos da casa.
Ocupam um grande pavilhão da Expo-98 e também
alugaram alguns dos endereços mais tradicionais
de Lisboa, como a Torre do Tombo, onde estão os
arquivos das colônias, a Biblioteca Nacional, o
Centro Cultural de Belém, o Coliseu dos Recreios
e o Teatro Nacional. É uma visão que reacende
temores ancestrais em muitos portugueses. Durante
toda sua história, Portugal receou ser invadido
pelo vizinho grandão. Exceto pelo curto período
entre 1580 e 1640, quando a coroa espanhola se
aproveitou de uma crise dinástica para ocupar o
trono português, os dois países optaram por se
ignorar mutuamente. Toda indiferença veio abaixo
com a União Européia, que colocou os 10
milhões de portugueses no mesmo barco com os 40
milhões de espanhóis. A temida invasão
finalmente ocorreu mas em forma de
investimentos e de enorme intercâmbio cultural.
Desde 1989,
cerca de 3000 empresas espanholas instalaram-se
no lado lusitano da fronteira. Só entre 1992 e
1995, a Espanha investiu 3 bilhões de dólares
no país vizinho. Em contrapartida, apenas 400
empresas portuguesas percorreram o caminho
inverso. Três meses atrás, as celebrações da
restauração da independência foram marcadas
por protestos de grupos nacionalistas que
empunhavam cartazes do tipo "Antes morto que
espanhol". "Vemos os políticos muito
preocupados com a independência do Timor, mas
não vemos nenhum deles preocupado com a
preservação da independência de Portugal face
ao imperialismo espanhol", disse a VEJA o
coronel Caçorino Dias, presidente do Movimento
10 de Junho, um desses grupos nacionalistas.
Enquanto isso, lamenta o militar, "as nossas
raparigas estão a aprender sevilhanas".
Num artigo
premonitório, José António Saraiva, o diretor
do respeitado semanário português Expresso, vê
como inevitável a transformação do país na
"sexta região" da Espanha e espera que
se salve, pelo menos, a língua portuguesa.
"Nossa língua não corre risco",
pondera Francisco Lucas Pires, ex-ministro da
Cultura de Portugal. "Ao contrário do que
ocorre na Espanha, dividida em povos e idiomas
diferentes, é justamente nossa língua que nos
une, por ser a única do país."
O
jornalista Saraiva nota que, horror dos horrores,
"todo futebolista português quer jogar não
no Benfica, mas no Barcelona". Duas semanas
atrás, quando o português Luis Figo, capitão
do Barça, levantou a taça da Supercopa
Européia, Portugal realmente festejou junto. Os
nacionalistas portugueses estão igualmente
furibundos com alguns incidentes irritantes. O
modelo do euro, a moeda européia, por exemplo,
que esqueceu de pôr Portugal no mapa (veja
abaixo). A corrida ciclística chamada de
Volta da Espanha neste ano partiu do Mosteiro dos
Jerônimos, em Lisboa. Parece mesmo provocação.
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O
euro, a moeda comum
européia, representava
com precisão cada
país-membro, exceto
Portugal. Indignados com
o mapa em que pareciam
ter sido anexados pela
Espanha, os portugueses
exigiram que o modelo
fosse redesenhado |
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