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Edição 2105

25 de março de 2009
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Rede de bobagens

Num ensaio provocador, Andrew Keen, ex-empresário da área de tecnologia, acusa a internet de promover a ditadura da ignorância


Jerônimo Teixeira

Ilustração Rob


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Exclusivo on-line
Trecho do livro

No conto A Biblioteca de Babel, de 1941, o escritor argentino Jorge Luis Borges descreve uma biblioteca infinita, que guarda todos os livros que a combinação das letras do alfabeto permitiria compor. Já foi dito que essa coleção inesgotável de textos seria uma prefiguração da internet. Só que a biblioteca de Borges não é o repositório amigável do conhecimento que a rede pretende ser. Trata-se, ao contrário, de uma versão do inferno, com inumeráveis salas repletas de livros ininteligíveis. O britânico Andrew Keen, ex-empresário pontocom convertido em crítico cultural, repisa a analogia entre a biblioteca imaginária de Borges e a rede planetária em O Culto do Amador (tradução de Maria Luiza X. de A. Borges; Jorge Zahar; 208 páginas; 39 reais), que acaba de chegar às livrarias brasileiras. Keen sugere que a internet também pode ser um pesadelo cultural – um acúmulo inabarcável de tolices criadas por uma multidão de narcisistas ansiosos para se expressar on-line. A argumentação de Keen é muitas vezes alarmista – mas seu livro traz provocações incômodas, que merecem ser consideradas seriamente.

Nos anos 90, Keen lançou o site Audiocafe, dedicado a distribuir música em formato digital. Sua desilusão com a internet aflorou mais tarde, em uma conferência de empreendedores do Vale do Silício, promovida pelo guru da tecnologia Tim O’Reilly, em 2004. O’Reilly popularizou a expressão Web 2.0 para designar uma nova e mais dinâmica fase da internet com banda larga. Keen começou a se sentir desconfortável com a retórica utópica de O’Reilly e seus apóstolos: no mundo revolucionário anunciado por essa turma, qualquer pessoa que dispusesse de um computador poderia se tornar músico, escritor, crítico, jornalista. A autoridade dos especialistas seria esvaziada, e os palpiteiros ditariam os rumos da cultura do alto de seus blogs. "Público e autor estavam se tornando uma coisa só, e estávamos transformando cultura em cacofonia", escreve Keen. A Wikipedia seria o epítome dessa cultura do amadorismo. Idealizada pelo empresário Jimmy Wales, pretende ser uma enciclopédia democrática, cujo conteúdo é produzido pelos usuários (embora um grupo de editores voluntários detenha o poder de determinar a forma final dos verbetes). Keen acusa Wales de ser um agente do contrailuminismo: seu empreendimento coletivo mina a autoridade de enciclopédias tradicionais como a Britannica (parcial na escolha de dados, Keen não discute o estudo comparativo dos verbetes científicos das duas enciclopédias realizado em 2005 pela conceituada revista Nature, no qual se constatou que a Britannica quase se iguala à Wikipedia no número de erros e imprecisões).

A Web 2.0, argumenta Keen, realiza o velho adágio segundo o qual um grupo de macacos que batucasse infinitamente sobre máquinas de escrever um dia acabaria compondo uma obra coerente. O Culto do Amador responsabiliza a rede pela queda na circulação dos grandes jornais americanos e pelos prejuízos da indústria fonográfica, vítima da pirataria digital. Seu ataque à internet, porém, não se centra na economia, mas na moral. Na visão de Keen, a rede é um faroeste virtual dominado por pistoleiros anônimos. Isenta de qualquer controle ou fiscalização, seria território livre para o plágio, a calúnia, a boataria irresponsável e a propaganda sub-reptícia. As mais abiloladas teorias conspiratórias ganham repercussão indevida: Loose Change, documentário amador que acusa o governo Bush de ter montado os atentados de 11 de setembro, já foi visto mais de 2 milhões de vezes no YouTube.

Rick Friedman/Corbis/Latinstock

INIMIGO DO ILUMINISMO?
Jimmy Wales, o criador da Wikipedia: quase tão acurada quanto a enciclopédia Britannica

A internet de fato comporta todos os crimes de que é acusada por Keen (veja o quadro abaixo) – mas nada disso significa que a morte da cultura delineada em O Culto do Amador seja um risco iminente. Esse tipo de crítica conservadora e catastrofista é recorrente sempre que uma nova tecnologia de comunicação emerge – cada um em seu turno, a imprensa, o cinema, a televisão já foram considerados o veículo dos bárbaros para pôr fim à civilização. Falta à análise de Keen uma certa perspectiva histórica, que permita dimensionar os tais estragos da internet. A música digital ameaça a indústria fonográfica? Talvez – mas, se Bach, Mozart e Beethoven compuseram o melhor do repertório ocidental antes da existência dessa indústria, não há razão para imaginar que a eventual falência das gravadoras silenciaria a música. A calúnia anônima tampouco precisa de computadores para vigorar – na imprensa do século XIX, artigos injuriosos assinados por pseudônimos eram comuns. Há considerações pertinentes – e preocupantes – em O Culto do Amador. Mas Keen também padece da superficialidade que ele atribui ao objeto de sua crítica.

Terra arrasada

A internet está destruindo a cultura, diz Andrew Keen, autor de O Culto do Amador – livro que acusa a rede de pecados graves

Ilustrações Rob
Anonimato
É fácil assumir identidades falsas na rede. Pedófilos, fraudadores de cartão de crédito e propagandistas políticos podem esconder suas verdadeiras (e más) intenções

Ignorância
Em um meio em que todos podem escrever – e até contribuir com verbetes para enciclopédias como a Wikipedia –, o conhecimento dos especialistas tem menos valor que os equívocos da massa

Pirataria
A noção de direito autoral foi posta em xeque pelo download de músicas, filmes e livros na rede, causando prejuízos a empresas e artistas

Impunidade
Na imprensa tradicional, os jornalistas podem responder judicialmente pelo que escrevem. A internet, ao contrário, é anônima e irresponsável – um território livre para caluniadores

 

Alexandria 2.0

Ben Margot/AP

BIBLIOTECA DIGITAL
Brewster Kahle: concorrente do Google Book Search

Um ermitão que lesse O Culto do Amador, de Andrew Keen, sem nunca ter tido contato efetivo com a internet imaginaria um deserto intelectual em que a pornografia e vídeos amadores seriam as únicas formas de cultura. Mas a rede tem, de fato, o potencial para ser uma espécie de biblioteca universal, um catálogo compreensivo do conhecimento humano. Há bons projetos para compilar bibliotecas digitais. O mais conhecido é o do Google, que está patrocinando o escaneamento de milhões de livros em bibliotecas universitárias. No fim do ano passado, o Google Book Search, que permite pesquisar essas obras, chegou a um acordo judicial com associações de editores e autores americanos que o acusavam de violar direitos autorais. O acordo deverá permitir que mais livros sejam disponibilizados on-line. Um concorrente do Google Book Search é o Openlibrary.org, que recrutou 135 livrarias no mundo todo para escanear mais de 1 000 livros por dia. Trata-se de uma iniciativa do empresário americano Brewster Kahle, que ficou milionário criando empresas e programas que depois foram vendidos para gigantes da internet como o AOL e a Amazon. Kahle não é modesto nas suas ambições. "Quero construir a Alexandria 2.0", disse à revista The Economist, aludindo à legendária biblioteca da Antiguidade.



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