Autorretrato
Wendy
Kopp
| Jean-Christian Bourcart
 |
"Recruto professores
com a mesma agressividade dos bancos de Wall Street" |
Quando decidiu recrutar estudantes formados
nas melhores universidades dos Estados Unidos para dar aulas, por dois anos, nas
piores escolas públicas do país, a americana Wendy Kopp, 41 anos,
foi tachada de louca. Hoje, o seu Teach for America se transformou em um dos programas
mais bem-sucedidos na educação. De Nova York, ela falou à
repórter Camila Pereira.
De
onde surgiu a ideia de fazer um programa como o Teach for America?
Nem
tinha me formado ainda em relações internacionais por Princeton
e executivos de bancos de investimentos e das mais importantes consultorias do
país já batiam à minha porta para tentar me convencer a trabalhar
no mercado financeiro. Com os meus colegas, a situação era igual.
Foi aí que comecei a pensar como seria fora de série conseguir atrair
esses jovens de áreas tão diferentes para dar aulas nas escolas
públicas americanas. Era preciso, no entanto, recrutá-los com a
mesma agressividade dos bancos de Wall Street.
Como
sua ideia foi recebida inicialmente?
Fui tachada de louca. Logo depois
de me formar, passei meses expondo meu projeto a dezenas de pessoas, atrás
de financiamento. Tarefa duríssima. Elas olhavam para a lista de universidades
das quais eu pretendia recrutar professores e, diante de nomes como Harvard e
Yale, gargalhavam. Ninguém acreditava ser possível atrair os mais
brilhantes para ensinar numa escola pública.
E
como, afinal, a senhora conseguiu fazer isso?
Primeiro, oferecendo a esses
alunos o que muitos deles procuravam ao sair da faculdade: a chance de realizar
um trabalho de grande impacto. Com processos seletivos rigorosíssimos,
aos quais só sobrevivem as melhores cabeças, além de propaganda
contínua dos nossos resultados, conseguimos conferir ao programa uma aura
de prestígio e relevância que fascina esses jovens. Mas não
é só o idealismo, evidentemente, que os faz optar pela sala de aula.
Há incentivos bastante objetivos decisivos para atrair os candidatos
e ainda convencer seus pais de que não estão cometendo uma insanidade.
A
senhora pode dar exemplos desses incentivos?
O Teach for America mantém
parcerias com algumas das principais escolas de pós-graduação
do país. Elas reservam vagas e oferecem bolsas exclusivas para quem saiu
do programa. Temos arranjos semelhantes com grandes empresas, como Google e McKinsey,
que admitem no ato esses jovens e também lhes dão privilégios,
como o patrocínio de bons cursos e cargos mais altos. Tais empresas já
sabem que ali encontrarão os melhores do mercado.
É
difícil conseguir financiamento?
Já foi mais. Atualmente,
somos até procurados por gente interessada em nos dar dinheiro. São
pessoas movidas pelo pragmatismo. Sabem que, com o treinamento intensivo que os
jovens recebem para se tornar professores, os resultados em sala de aula são
ótimos. E os empresários estão sempre interessados em associar
sua marca a algo que funciona. Hoje, um programa desse tipo precisa ser capaz
de provar sua eficácia, com dados objetivos, para conseguir patrocínio.
Por que só os recém-formados
estão na mira do programa?
Uma de nossas metas é justamente
influenciá-los de modo que conservem, no futuro, um radar para a educação,
não importa a área em que atuem. A boa notícia é que,
pela primeira vez, eles começam a considerar a sala de aula. Não
por acaso. O Teach for America foi considerado um dos quinze melhores lugares
nos Estados Unidos para um jovem iniciar sua carreira, à frente de várias
grandes empresas. Ótimo para os estudantes e, não há dúvida,
para o país.