Alma lusitana

Manoel de Oliveira faz um filme nostálgico e tocante

Filmes autobiográficos viraram quase uma obrigação entre os cineastas europeus de idade provecta. Como em geral eles tentam mostrar-se mais interessantes na tela do que realmente o são por trás das câmaras, o resultado são produções que primam pelo artificialismo. Não é o caso, porém, do diretor português Manoel de Oliveira. Do alto de seus 89 anos de idade, ele conseguiu realizar um filme tocante a partir de sua experiência de vida. Viagem ao Princípio do Mundo (Portugal, 1997), em cartaz em São Paulo, a um só tempo empreende uma nostálgica jornada aos confins de Portugal e às memórias juvenis do cineasta. O filme acabou se tornando uma espécie de réquiem para o ator italiano Marcello Mastroianni, aqui no seu último papel. Já alquebrado pelo câncer que acabou por matá-lo, em 1996, Mastroianni interpreta o diretor, durante um passeio de carro às montanhas do norte de Portugal.

Viagem ao Princípio do Mundo tem um tom nostálgico, como era de esperar de um filme português. Seu objetivo é questionar o empalidecimento da alma lusitana nestes novos tempos de desenvolvimento e competição dentro da União Européia. Metidos num carro novo, numa estrada asfaltada e sem buracos um padrão de transporte que ainda é novidade no interior do país , Manoel e seus três amigos partem rumo à fronteira com a Espanha. À medida que as curvas se sucedem, a alma portuguesa ressurge. O filme é lento, às vezes arrastado, mas recompensa quem se dispõe a empreender a viagem proposta pelo cineasta.

A.P.




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