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Prova de obstáculos
Empresas
brasileiras aprendem a competir ao
superar hábitos e exigências diferentes no Mercosul
Ricardo
Villela, de Buenos Aires
Que o Mercosul é
um sucesso, todo mundo sabe. Entre 1991 e 1997, o
comércio entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai
quadruplicou. Só no ano passado, o Brasil negociou no
Mercosul mais de 19 bilhões de dólares, uma dinheirama
maior que todo o comércio na região nos últimos cinco
anos da década de 80. Analisados a distância, esses
números grandiosos dão a impressão de que a
integração do Mercosul foi simples, quase automática.
Nada mais enganoso. Por trás dos contratos que
permitiram à Argentina exportar mais para o Brasil do
que para a Europa no ano passado está um longo
aprendizado, que envolveu pesquisas, adaptações
culturais, modificações de produtos e jogo de cintura.
"Quem apenas olha os resultados do comércio
exterior acha que o Mercosul é um ovo de Colombo, que
foi só chegar e faturar", diz Dickson Tangerino,
presidente do Grupo Brasil, a associação que congrega
as empresas brasileiras instaladas na Argentina.
"Foi muito difícil cruzar a fronteira e encarar
mercados de países que até outro dia estavam com as
costas voltadas uns para os outros."
Argentinos e
brasileiros, dois gigantes que representam mais de 80% de
tudo que é negociado no Mercosul, têm gostos, hábitos
e interesses distintos. O sucesso de um produto num país
não garante o mesmo resultado no outro. A empresa de
alimentos Arisco sentiu no bolso essas diferenças ao
lançar no país vizinho a sua linha de temperos prontos,
um de seus sucessos no Brasil. Na Argentina, o
lançamento fracassou. Acostumadas a amassar seu alho na
cozinha, as donas de casa argentinas ignoraram o produto.
O insucesso foi compensado pela linha de molhos de
tomate, que já tem 10% do mercado argentino usando a
mesma receita brasileira. "O tempo nos ensinou a
respeitar a vontade do consumidor", diz Pablo
Jaratz, diretor da Arisco na Argentina. Na maioria das
vezes, entender o consumidor do país vizinho custa tempo
e dinheiro. A experiência dos últimos anos mostrou,
entre várias outras coisas curiosas, que os brasileiros
gostam de doce com mais açúcar do que os argentinos,
que por sua vez preferem frutas menos ácidas. A Canale,
braço de alimentos do Grupo Macri, um dos maiores
conglomerados empresariais argentinos, gastou 250.000
reais em pesquisas para descobrir que os brasileiros
preferem panetones mais úmidos. Resultado: vendeu 1
milhão de panetones no Brasil no último Natal. Agora, a
empresa prepara a alteração das suas fórmulas de
biscoitos e geléias.
Diferença
de estilo Se nem o panetone é o mesmo
quando cruza a fronteira, a situação é bem mais
complexa quando se tenta acomodar pessoas. "Tem
muito executivo brasileiro que chega a Buenos Aires
achando que vai aprender espanhol e dominar o terreno em
uma semana", diz Dickson Tangerino. "Mas é só
encontrar um argentino da velha-guarda, que vai ao cinema
de terno e gravata e não cumprimenta os funcionários
quando chega ao escritório, para perceber que as coisas
não são assim." As diferenças no estilo de
trabalho entre brasileiros e argentinos transparecem no
dia-a-dia. Horários, para começar. O argentino é
boêmio. Acorda tarde e vai para a cama às altas horas
da noite. Logo que o Grupo Brasil foi fundado, em 1994,
as reuniões de café da manhã para discutir negócios
eram marcadas para as 8 horas da manhã. Só apareciam os
brasileiros. A situação mudou quando os encontros foram
atrasados em uma hora.
Os argentinos também são mais formais nas suas
relações de trabalho. A Brahma é a única grande
empresa na Argentina em que nenhum executivo trabalha de
terno e gravata. "Os brasileiros são mais
agressivos, informais e rápidos nas decisões",
compara o advogado argentino Rossi Camilion, que tem
dezesseis empresas brasileiras entre seus clientes.
"Já os argentinos são mais experientes e planejam
antes de tomar uma decisão." Outra diferença
notável é o rigor dos funcionários argentinos.
Recentemente um funcionário do braço argentino do Banco
Real rejeitou uma ordem de remessa de dinheiro de um
cliente brasileiro para o Paraguai porque o nome do país
estava digitado errado em uma das três vias do pedido.
Ou seja, "jeitinho argentino" não existe. Em
geral, as empresas no Mercosul têm dois ou três
executivos de seu país de origem na filial estrangeira.
A barreira da língua sempre é desprezada na hora das
contratações, mas cria dificuldades com o tempo. Numa
atitude ainda rara, os funcionários argentinos da
empresa de saúde Amil decidiram em 1996 que precisavam
aprender português. Levaram a reivindicação à
direção da empresa, que contratou uma professora para
dar aulas depois do expediente. Hoje, um quarto dos
funcionários da Amil estuda português.
História
de rivalidade Acostumados a uma disputa
secular pela liderança política, econômica e militar
do continente e também à rivalidade no futebol,
brasileiros e argentinos estão se esforçando para se
entender como nunca fizeram antes na sua História. Até
1991, quando se deu partida ao mercado comum, a Argentina
era apenas o décimo parceiro comercial do Brasil. Hoje
ela tem mais negócios com o Estado de São Paulo sozinho
do que com os Estados Unidos. Existem pelo menos 500
empresas brasileiras estabelecidas na Argentina, que,
juntas, faturam mais de 2 bilhões de dólares por ano,
empregam 10.000 argentinos e devem investir mais 1,5
bilhão de dólares na economia do país até 1999.
A contrapartida
também impressiona. As 200 empresas argentinas no Brasil
empregam 3000 pessoas e devem investir 1,3 bilhão de
dólares no país nos próximos dois anos. Gigantes como
a Petrobrás planejam desembolsar 600 milhões de
dólares para abrir 500 postos de combustíveis no país
vizinho. Os postos até terão caldeira de água quente
para atender à mania local de tomar chimarrão. A Brahma
gastou 150 milhões de dólares para abrir uma fábrica
na região de Buenos Aires com um propósito prosaico:
fazer garrafas de 1 litro e não de 600 mililitros como
no Brasil. A diferença é explicada pelo hábito
argentino de beber cerveja em casa e não em bares. Como
têm de carregar a bebida para casa, preferem levar mais
em uma única embalagem. Ao lançar sua linha de
refrigerantes no ano passado, a Brahma também se adaptou
ao mercado local. Manteve seu tradicional guaraná, mas
criou um refrigerante à base de pomelo, fruta prima da
laranja e adorada no país.
Menos visível nas
prateleiras e lojas, a presença argentina no Brasil
ainda se concentra em investimentos no setor de energia e
petróleo. A tendência é de mudança. Desde 1994, já
é possível achar nas gôndolas dos supermercados
brasileiros o leite La Serenissima. Um dos exemplos do
estilo portenho de conquistar o consumidor brasileiro é
o caso da griffe Nasa, que preferiu abrir sua primeira
loja em Porto Alegre, uma cidade-laboratório para os
argentinos. "O povo e o gosto das duas cidades,
Buenos Aires e Porto Alegre, são mais parecidos",
diz o argentino Marcelo Muriado, criador e dono da
griffe. "Viemos para cá por causa do sucesso que a
marca fazia com os gaúchos que visitavam nossas lojas em
Buenos Aires e Punta del Este." Se a experiência
der certo no Sul, o grupo tentará conquistar outras
cidades brasileiras.
Em nenhum outro
setor a integração entre brasileiros e argentinos é
tão efetiva quanto no automotivo. Para as grandes
montadoras, os dois países funcionam como um único
bloco de tarifas alfandegárias, distribuição e
fabricação. O resultado é que a própria produção de
automóveis já está quase totalmente integrada. A
General Motors transferiu sua operação de importação
e exportação para o porto gaúcho de Rio Grande, colado
no Uruguai e bastante próximo da Argentina. A Fiat foi
mais longe. Desde que inaugurou sua moderníssima
fábrica de Córdoba, dividiu a produção de sua linha
Palio entre os dois países. De Córdoba, na Argentina,
saem os motores. De Betim, em Minas Gerais, saem peças
estampadas e conjuntos. Toda semana um navio parte da
Argentina transportando 6.000 automóveis para o Porto do
Rio de Janeiro. Na volta, leva cerca de 1.000 carros de
modelos diferentes. O comércio de automóveis entre
Brasil e Argentina é tão grande que pelo pátio da
Cotia Trading, a empresa brasileira dona de um porto
exclusivo para veículos na Grande Buenos Aires, já
passaram mais de 300.000 carros nos últimos dois anos.
Burocracia
Tão complicado quanto acertar a convivência
entre povos diferentes é conviver com a burocracia que
parou no tempo. Uma das piores experiências das empresas
que se dispõem a investir no Mercosul são os vistos de
trabalho que seguem o mesmo ritmo de quando o Mercosul
não existia. Pela lei, um empresário argentino que
precise ir ao Rio de Janeiro assinar um contrato de
importação de bananas deve entrar na fila do consulado
brasileiro e pagar 60 reais por um visto de negócios.
"As mercadorias cruzam facilmente a fronteira, as
pessoas ainda encontram problemas", diz o cônsul
brasileiro em Buenos Aires, Nuno Álvaro de Oliveira.
"Novos acordos estão sendo negociados para eliminar
esses obstáculos." Mais grave é a relação das
leis de propriedade de patentes e marcas, que funciona
quase como um incentivo aos golpes.
No ano passado, 300
empresas brasileiras foram vítimas de pirataria no
Mercosul, um problema que os países envolvidos na
operação ainda relutam muito a combater. O caso mais
gritante é o da indústria de eletrodomésticos gaúcha
Enxuta. Em 1993, quando estava prestes a embarcar o
primeiro lote das máquinas de lavar roupas para Buenos
Aires, a empresa descobriu que sua marca já tinha dono
no país. "Fomos vítimas de um grupo
experiente", acusa Paulo Thume, diretor
superintendente da Enxuta. "Eles registram marcas
emergentes ao redor do mundo e, quando a empresa aparece
na Argentina, tentam achacá-la." Por causa disso,
os produtos Enxuta são vendidos na Argentina com os
selos Peabody e Philco.
O saldo para os
consumidores dos dois países, no entanto, é
extremamente positivo. O contato com as exigências e os
concorrentes de outros mercados é o melhor remédio para
oxigenar as empresas. Do Brasil, a Amil levou para a
Argentina o atendimento ao cliente feito por telefone,
serviço que os planos de saúde de lá não ofereciam.
Em contrapartida, trouxe os descontos em remédios para
os associados, prática comum entre os planos argentinos
que permanecia inédita por aqui. Quando o Itaú entrou
na Argentina, o sistema bancário do país era um dos
mais atrasados do mundo. Nos bancos tradicionais, filas
na porta e reclamações contra o mau atendimento eram
constantes. Dezoito meses de pesquisa definiram que o
Itaú deveria investir em bom atendimento. Usando o
slogan "O banco que nos atende bem", o Itaú
levou caixas automáticos e em dois anos conquistou
34.000 clientes.
Outra empresa
brasileira que está fazendo sucesso na Argentina com
produtos novos é o Playcenter. Presente em Buenos Aires
desde o final dos anos 80, em pequenos parques de
shopping centers, o Playcenter fez um investimento de 15
milhões de dólares no ano passado para se tornar uma
das lojas âncoras do Showcenter Haedo, um shopping
exclusivo de lazer. Para se adaptar aos hábitos
notívagos dos argentinos, o Playcenter decidiu manter o
parque aberto por toda a madrugada e tem batido os
recordes de movimento sempre depois da meia-noite. Com o
empreendimento, a Argentina já é responsável por um
faturamento de 25 milhões de dólares, 15% do total do
grupo. Em dois anos, com a inauguração de um parque
temático na Grande Buenos Aires, o Playcenter espera
faturar quatro vezes mais.
A adaptação é
uma novidade para a maior parte das empresas brasileiras
e argentinas, mas um processo bem conhecido pelas
multinacionais americanas, alemãs ou japonesas. O ritmo
da integração mundial é cada vez mais veloz e já era
hora de as empresas brasileiras despertarem para novos
caminhos, além de suas fronteiras. O Mercosul é apenas
a porta de entrada, um campo de provas para nossas
multinacionais. A Comunidade Econômica Européia já
negocia acordos de livre comércio com o Mercosul. Até
2005, as bases para o lançamento da Alca, bloco que vai
reunir as duas Américas sem fronteiras comerciais,
estarão consolidadas. Em breve, a concorrência de
produtos estrangeiros no Brasil será ainda maior. Vai
sobreviver quem aprender a competir também fora do
país.

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