O fim do feudo masculino

As mulheres estão ocupando as vagas de
trabalho que antes eram só para homens


Eliana Simonetti


O sexo frágil não tem medo de nada. Dá sentenças com a toga do juiz, comanda empresas gigantes, maneja o bisturi. A cada dia avança sobre feudos masculinos tradicionais. Já aparece em tropas de choque da Polícia Militar, comanda Boeing, constrói prédios. A mulher encontra-se na ponta de um processo que está transformando a sociedade brasileira. A mudança ainda não foi mensurada nem estudada adequadamente pelos sociólogos, mas é bastante visível em números isolados. Em São Paulo, maior centro empregador do país, metade do contingente de trabalhadores é formado por mulheres. Elas competem ombro a ombro com o homem na captura de novas vagas. Dos 228.000 postos de trabalho gerados no país para candidatos com pelo menos o 2º grau completo entre outubro de 1996 e setembro de 1997, mais da metade foram conquistados por trabalhadoras. O estudo é do Ministério do Trabalho e mostra que as mulheres derrotaram os homens nas vagas para dentista, veterinário e médico. Dos contratados, 83% eram mulheres. Foi uma lavada de 8 a 2.


A engenheira Maria Isabel Gonzalez, 42 anos, dirige mais de 600 homens no pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia

 

Foto: Fernando Vivas

Aos poucos, elas se instalam no rentabilíssimo meio dos que administram fortunas. Há mais de 130 mulheres dirigindo operações de renda fixa e renda variável nos grandes bancos de investimento. De cada grupo de dez médicos, três são mulheres. Metade do corpo de advogados do país é formada por doutoras. Elas abraçaram com força a profissão de juiz. Já são 25% dos quadros. Começam a quebrar o preconceito na casta mais renhidamente masculina, a do pessoal fardado. Dos estudantes que alcançaram o título máximo de aluno-coronel em 1997, nos doze colégios militares do país, 80% são garotas. Para onde quer que se olhe, as mulheres ganham terreno. Não ocorre uma guerra entre homens e mulheres. O que há é apenas um movimento de modernização social. Mas, se fosse uma guerra, as mulheres estariam no ataque.

A gaúcha Cláudia Pagini, de 25 anos, é uma das 876 policiais militares do Rio Grande do Sul

Foto: Liane Neves  




O Brasil é estigmatizado como país machista que afoga a mulher, impedindo seu acesso a posições sociais importantes e pagando-lhe menos no mercado de trabalho. É uma visão antiga, enraizada no pensamento das pessoas como uma dessas verdades que não mudam. Engano. O país está longe de ser um paraíso de igualdade, mas o fato é que caminha velozmente para equilibrar os pratos. Uma das evidências é a importância crescente da mulher no mercado de trabalho. "A ampliação do contingente de trabalhadoras foi uma das mais importantes transformações ocorridas no país nas últimas décadas", diz Cristina Bruschini, socióloga, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, de São Paulo. Outra evidência é o aumento gradual de seu prestígio. "Elas são muito procuradas para os altos cargos das empresas. Nesse nível a discriminação já acabou há algum tempo", revela Luiz Carlos Queirós Cabrera, sócio da PMC, escritório paulista especializado em contratação de executivos de alto gabarito.

A casamata da dominação masculina foi demolida. Uma das maiores empresas do país, a Companhia Siderúrgica Nacional, CSN, é tocada pela executiva Maria Sílvia Bastos Marques, 40 anos, doutora em economia, casada, mãe de gêmeos. Sob seu comando trabalham 12.500 empregados – homens em sua maioria esmagadora. O salário de Maria Sílvia, calculado por executivos do mesmo nível, é de cerca de 800.000 reais por ano, e o seu currículo, um dos melhores à disposição. Maria Sílvia já foi diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, BNDES, negociadora da dívida externa e secretária de Finanças do Estado do Rio de Janeiro. "Fui muito bem recebida na CSN e não tenho nenhuma dificuldade em controlá-la. Ao contrário. As pessoas fazem rapidamente o que eu peço, acho que porque sou mulher", diz.

A gaúcha Carla Roemmler, de 35 anos, é uma das oito mulheres que pilotam Boeing no Brasil. Comanda um 737 da Vasp



A secretária Adriana Munhoz da Rocha Martins, 40 anos, de Curitiba, foi contratada aos quatro meses de gravidez. Voltou ao batente dois meses e meio depois do parto

  Foto: Jader da Rocha

No passado, as moças chegavam ao escritório para ocupar o posto de secretária, telefonista ou tradutora. A carreira parava aí. Agora, os rapazes de terno azul-marinho precisam cuidar-se, pois as damas estão chegando para os cargos de mando. Não há um número exato sobre o avanço das mulheres aos melhores postos, mas é possível encontrar indícios significativos. A paulistana Marilis Moschini, 27 anos, solteira, engenheira de sistemas, foi contratada pela Cisco, multinacional da área de informática, assim que terminou a escola. Em três anos já era diretora, responsável pelas vendas da Cisco em toda a América Latina. Saiu da casa dos pais para tornar-se uma passageira constante dos aviões. "Eu não imaginava que fosse tão fácil vencer num trabalho tipicamente masculino. E tenho várias colegas que estão em postos como o meu, mandando e negociando com homens sem nenhuma dificuldade, a não ser as normais para qualquer sexo", diz.

A discriminação cedeu mais fácil em empresas grandes e modernas porque elas estão em contato próximo com economias – e sociedades – que se modernizaram há mais tempo. Em outros campos, a pedra do preconceito continua no caminho. A diferença, em relação a alguns anos, é que a barreira começa também a se desmanchar em ritmo veloz. De maneira geral, o salário da mulher brasileira é mais baixo que o do homem. Mas nos escalões mais altos a remuneração se equilibra – e muitas vezes a mulher é mais bem paga. Entre 1985 e 1995, dobrou o número das mulheres que ganham entre dois e três salários mínimos. Nessa faixa, o número de trabalhadores homens cresceu apenas 50%. No mesmo período, também aumentou em 100% o grupo feminino com ganhos entre cinco e dez salários mínimos. O contingente masculino cresceu bem menos, cerca de 40%. Em 1985, havia menos de 100.000 mulheres ganhando mais do que vinte salários mínimos. Em 1995, segundo levantamento do IBGE, já eram 422.000. Os homens não conseguiram sequer dobrar seu contingente nessa faixa.

Há, portanto, uma transformação indiscutível em andamento. Ela não foi provocada por lutas políticas, ou por concessão dos patrões, ou porque a sociedade tenha tomado a defesa das oprimidas. As razões são mais amplas. Houve uma intensa urbanização do país nos últimos 25 anos, o que mudou comportamentos, gerou necessidades e também oportunidades. A cidade requer mais dinheiro para a sobrevivência, fator que tirou a mulher de suas atividades da casa e a levou para a fábrica ou o escritório. A classe média ficou com orçamento mais curto. As moças tiveram de aproveitar o que aprenderam na escola para reforçar as contas da casa. Num país que amadureceu, as mulheres aboliram os freios que as mantinham para dentro da cerca do jardim. Além disso, a economia se tornou mais exigente e o fator sexo passou a perder o seu peso relativo. "Hoje, a tendência é premiar a qualificação, não importa se é homem ou mulher", diz José Pastore, professor da Universidade de São Paulo e um dos maiores especialistas brasileiros em trabalho e emprego.

Nada disso quer dizer que a vida é fácil para dona Flor. A diferença é que a luta agora dá resultado – e o clube machista vai abrindo as suas portas. Mulher ainda não pilota avião militar no Brasil (comanda até bombardeiro nuclear nos Estados Unidos), mas já faz carreira na aviação civil. Há oito mulheres pilotando Boeing – duas na Varig, duas na Transbrasil e quatro na Vasp. A gaúcha Carla Roemmler, 35 anos, comanda há dois anos um 737 da Vasp. Até chegar ao manche do jatão, brigou contra uma parede que parecia invencível. Fez três provas de seleção na Varig. Foi reprovada. Nessa empresa um diretor lhe deu uma demonstração explícita de burrice. "Ele me disse que enquanto fosse diretor da empresa mulher não entrava em cabine de avião", lembra. Na Vasp, mais acolhedora, conseguiu emprego de co-piloto em 1988. Carla chegou lá, e os passageiros não notam a menor diferença. Só alguns que, visitando a cabine, sugerem que ela pendure uma samambaia entre os instrumentos.

O Brasil trata a sua porção feminina com ambigüidade. De um lado, a mulher recebe superproteção. O macho à antiga quer vê-la em casa, cuidando da prole e do fogão. Em troca, oferece mesada e segurança à rainha do lar. A mulher é mimada, inclusive pela legislação, e muitas se viciam nessa bondade torta. Se bem que, de um tempo para cá, as profissionais têm recusado favores que julgam excessivos. Em Curitiba, a secretária Adriana Munhoz da Rocha Martins foi contratada aos quatro meses de gravidez para trabalhar no escritório da empresa de consultoria Arthur Andersen. Quando a criança nasceu, Adriana abriu mão de uma parte da licença-maternidade. Depois de dois meses e meio voltou ao batente. "Não quis prejudicar meu trabalho, nem a criança precisa de tanta atenção", diz.

A paulistana Marilis Moschini, de 27 anos, é diretora de vendas da Cisco, uma multinacional da área de informática, para a América Latina

Foto: Antonio Milena  



Há o outro lado – aquele em que ainda vigora um sistema desigual que a lei não conserta. A mulher é maltratada, seu trabalho recebe remuneração menor do que a do homem, a promoção é mais difícil e há a exigência extra de pegar no batente de novo quando chega em casa, cansada do trabalho na fábrica. Nessa hora, ela muitas vezes faz a famosa jornada dupla, encostando a barriga no tanque e no fogão. Ninguém duvida da existência desses pesos que a mulher arrasta como bolas de sentenciado. Aliás, muitos garantem que nada mudou nos últimos 100 anos. "Estatísticas não dizem nada. As mulheres continuam sendo discriminadas e afastadas das áreas que realmente importam para o desenvolvimento do país, como a astronomia e a física", diz a socióloga Fanny Tabak, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Pode ser verdade em astronomia e física. A força feminina, em compensação, está arrombando os portões da arquitetura, administração de empresas, engenharia, economia, medicina, agronomia. Equilibra-se muito bem na área de pesquisa. Quase a metade dos pesquisadores com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, é de mulheres. A sua presença e influência em política e economia é crescente. Entre os colunistas de economia dos quatro grandes jornais brasileiros há duas mulheres cuja coluna é lida com atenção pelos empresários: Sonia Racy, de O Estado de S. Paulo e Míriam Leitão de O Globo. As colunas políticas são assinadas por seis jornalistas: Dora Kramer, do Jornal do Brasil, Tereza Cruvinel e Helena Chagas, de O Globo, Cristiana Lôbo e Suely Caldas, de O Estado de S. Paulo, e Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo. A chefona da TV Globo é Marluce Dias, sucessora de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. O jornal carioca O Dia é comandado por uma mulher, Ruth Aquino.

Valentina Caran, de 43 anos, é corretora de imóveis em São Paulo. Sua imobiliária fatura 200 000 reais por mês

  Foto: Frederic Jean

As mulheres surgiram em áreas cruciais da indústria, e não apenas na gigantesca siderúrgica comandada pela economista Maria Sílvia, a chefe da CSN. Na Bahia, a engenheira Maria Isabel Gonzalez, 42 anos, casada, mãe de dois filhos, dirige a área de planejamento e produção da Polibrasil, uma empresa que produz resina de plástico no pólo petroquímico de Camaçari, antigo gueto masculino. Nenhuma unidade da companhia – na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro – acende um forno sem sua permissão.

Existem mudanças curiosas na trajetória das mulheres desde que elas começaram a se apresentar para a briga com o pelotão masculino. No começo, para galgar um posto no alto escalão da empresa, elas vestiam blazers, armavam-se com as tenebrosas pastas 007 e usavam maquiagem de enfermeira em dia de cirurgia. "Todas nós sentíamos a necessidade de nos camuflar, chamar a menor atenção possível para o fato de sermos mulheres", lembra Andrea Huggard-Caine Reti, diretora da Hewitt Associates, consultoria de recursos humanos de São Paulo. Ultimamente, mais numerosas, trabalham sem perder a ternura.

Em julho do ano passado, policiais militares foram às ruas em várias capitais do país para pedir aumento de salário. No Rio Grande do Sul, os policiais ameaçaram invadir o Palácio do Governo e um batalhão de choque foi mobilizado para garantir a segurança do governador. Na turma dos defensores, com capacete, colete contra balas, escudo, cassetete na mão e 38 na cintura, estava um soldado de batom. A moça de 25 anos, 1,68 metro de altura, 54 quilos, chama-se Cláudia Pagini. Ex-balconista de loja de tecidos, é uma das dez mulheres que, entre mais de 500 homens, integram o Batalhão da Polícia de Choque de Porto Alegre. Está nessa vida há dois anos e não volta para trás do balcão por nada neste mundo. "É um trabalho que não tem rotina", diz.

Cláudia, na sua carreira de soldado, não sentiu preconceito dos colegas homens. Esta é a outra nota interessante. Os homens, segundo o depoimento de muitas das que ocuparam lugar nas fortalezas masculinas, aceitam bem a companhia e até o mando feminino. Não é um relacionamento de desconfiança ou menosprezo. "Eu não sou uma pessoa de convivência fácil, sou competitiva e agressiva, e nunca tive problemas com os meus colegas homens", conta Valentina Caran, corretora de imóveis em São Paulo, 43 anos, seis filhas. Antigo clube do Bolinha, a corretagem de imóveis foi avassalada pelas mulheres. Valentina é a rainha, dona de uma empresa que fatura 200.000 reais por mês e só lida com negócios de alto valor.

Os machões que prestem atenção na marcha feminina. É só o começo. Neste terreno o Brasil ainda está muito distante do que ocorre em outros países. Na Europa e nos Estados Unidos, elas ganharam a guerra há mais tempo. No final da década de 30, de cada 100 pessoas empregadas, 94 eram homens e apenas seis mulheres. Naquele tempo, as pesquisas nem se preocupavam em medir o trabalho feminino, que era raríssimo. Trinta anos atrás, no tempo da Guerra do Vietnã, do amor livre e do movimento feminista de Betty Friedan, as mulheres já representavam 14% da população trabalhadora mundial. Hoje, 35% dos trabalhadores no mundo são mulheres e 65% do sexo masculino.

A jornalista Sonia Racy, 41 anos, está entre as oito principais colunistas políticas e econômicas dos maiores jornais brasileiros

Foto: Roberto Lofel  
Elas chegaram a postos mais elevados. Nos Estados Unidos ocorreu nos últimos anos uma revolução silenciosa. Um levantamento feito pelo grupo Catalyst, que pesquisa questões relacionadas a interesses femininos, em Nova York, descobriu que em 1996 aumentou 10% o número de cargos de diretoria ocupados por mulheres nas 500 maiores empresas americanas. A metade dos funcionários da administração pública americana é de mulheres. Mais de 50% dos gerentes financeiros, dos contadores e dos auditores, quase 70% dos corretores de seguros e quase 80% dos administradores dos setores da saúde são do sexo feminino.

Hoje, as mulheres recebem mais da metade dos diplomas de faculdade e de mestrado nas universidades americanas. As grandes multinacionais americanas têm estudos segundo os quais se calcula que as mulheres respondam, atualmente, por 80% das vendas de varejo no mundo. É um dado tão espantoso que grandes empresas como a fabricante de telefones celulares e pagers Motorola, a indústria química Hoechst e a fabricante de produtos de higiene e limpeza Colgate-Palmolive estão se dedicando a formar e promover mulheres para postos-chave de sua administração. As mulheres são donas de 32% das empresas da Austrália, 35% das do Canadá, 31% das do Japão, 42% das de Portugal. Nos Estados Unidos, de acordo com pesquisa feita pela National Foundation for Women Business Owners, há 8 milhões de empresas de propriedade de mulheres, gerando 2,3 trilhões de dólares por ano.

A questão da mulher na sociedade brasileira e sua função como trabalhadora tem sido tratada de maneira incompleta. Não é novidade: outras questões também são manejadas sem base em estudos mais acurados. Entre esses temas clássicos estão os sem-terra, os negros, os índios, o trabalho do menor, a economia informal. As mulheres, assim, enfrentam dois tipos de preconceito. Por um deles, ainda são vistas como uma figura secundária, um fator de auxílio do homem. Pelo outro, são tidas como o centro de toda a opressão, um ser frágil que precisa ser protegido pela lei, caso contrário não consegue emprego nem importância social.

Quando se olha para alguns números, ainda que não componham um quadro estatístico amplo, nota-se que a mulher ganhou importância maior do que lhe normalmente é atribuída. Enquanto a discussão continua em ambientes acadêmicos ou reuniões de feministas, a mulher está destruindo silenciosamente o mito da desigualdade, sem que ninguém precise puxá-la pelo braço. Ela já sabe andar sozinha.

Com sucursais

 




Copyright © 1997, Abril S.A.

Abril On-Line