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Economia Vítimas da
crise, brasileiros que trabalham no Japão
Por oito anos o ex-projetista de ferramentas metalúrgicas paulistano Sérgio Shida, 42 anos, e sua mulher, Gisele, deram duro como operários em fábricas japonesas. O objetivo era ficar no Japão por dez anos, poupar o máximo e voltar para o Brasil com dinheiro suficiente para abrir um negócio próprio. A crise econômica interrompeu os planos do casal. No último dia 11, acompanhados dos dois filhos, Shida e Gisele desembarcaram em São Paulo com metade da soma que sonhavam trazer e a perspectiva de ter de usar parte dela para sustentar a família enquanto procuram emprego aqui. Não que tivessem opção. "Se continuássemos no Japão, ficaríamos sem recursos até para pagar as passagens de volta", diz Shida. Os dekasseguis, ou trabalhadores temporários, foram as primeiras vítimas dos efeitos da recessão no Japão. Dos 317 000 brasileiros lá instalados, estima-se que entre 38 000 e 51 000 terão de retornar ao Brasil até o fim do mês que vem. A premência da volta não é resultado apenas da perda do emprego, que deve atingir pelo menos 30 000 brasileiros até março, quando termina o ano fiscal japonês. Boa parte dos dekasseguis vive com a família em apartamentos providenciados pelas empreiteiras que lhes arrumam trabalho e que são responsáveis pelo repasse dos seus pagamentos. Como elas descontam diretamente dos salários o valor dos aluguéis, com o fim do emprego e do ordenado os dekasseguis perdem também o seu teto. Mais de 40% dos brasileiros desempregados, ou que cumprem aviso prévio, já saíram ou terão de sair de sua casa, segundo uma pesquisa da Associação Brasil Fureai, criada em dezembro para ajudar os dekasseguis. A maioria tem conseguido abrigo na casa de amigos e parentes. Outros são obrigados a dormir no próprio carro ou em barracas montadas nos parques.
Metade dos filhos de dekasseguis matriculados em escolas brasileiras já foi forçada a deixar os estudos desde o início da crise, segundo a presidente da Associação das Escolas Brasileiras no Japão, Julieta Yoshimura. Carlos Iseki, desempregado desde outubro, decidiu em janeiro tirar da escola seus três filhos de 10, 12 e 13 anos. Juntas, as mensalidades somavam 1 300 dólares preço salgado demais para os 1 600 dólares que a mulher ganha preparando bentôs (lanches japoneses industrializados) e que agora são consumidos inteiramente com a prestação da casa, de 1 000 dólares mensais, alimentação e combustível para o carro. Boa parte desses imigrantes coloca os filhos em escolas brasileiras, todas pagas, por temer que, nas japonesas, as crianças sofram com o idioma ou sejam vítimas de preconceito. Os primeiros dekasseguis originários do Brasil chegaram ao Japão na década de 80, quando a economia brasileira entrou em crise pela combinação perversa de inflação e estagnação. O auge do movimento migratório se deu no ano de 1990: o aumento da necessidade de mão-de-obra nas fábricas fez com que Tóquio estendesse a autorização de trabalho a filhos e netos de japoneses (no começo, apenas quem tivesse nacionalidade japonesa podia ser contratado). De lá para cá, o crescimento do número de trabalhadores brasileiros no Japão foi quase sempre contínuo. Até o início da crise, especialistas avaliavam que ao menos parte deles caminhava para deixar a condição de migrante temporário e fixar raízes no arquipélago. Agora, ficou bem mais difícil. Na semana passada depois de manifestações organizadas por grupos de dekasseguis para reivindicar assistência e protestar contra as demissões nas fábricas , o governo japonês anunciou a criação de um comitê dedicado a cuidar exclusivamente dos problemas dos estrangeiros afetados pela crise. Entre as medidas prometidas estão a facilitação do ingresso de crianças estrangeiras em escolas públicas japonesas, a organização de cursos de japonês para melhorar a qualificação dos candidatos a novos postos de trabalho e a disponibilização de apartamentos para desempregados, com aluguéis subsidiados. As providências deixaram os dekasseguis mais esperançosos. Mas, para os milhares de brasileiros que, como Shida, tiveram de deixar para trás anos de sonho e sacrifício, elas chegaram tarde demais.
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