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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
A ilegalidade virtuosa
"Praticamente
todos os professores
de universidades federais das áreas
profissionais e aplicadas estão fazendo
algum tipo de bico. São poucos os que
respeitam seu impedimento legal
de fazer outros trabalhos"
Burla a lei o professor de engenharia civil de uma universidade
federal contratado em tempo integral e com dedicação
exclusiva que também trabalha em uma empresa construtora.
O arquiteto, no mesmo regime, tem um escritório privado onde
projeta edifícios. O médico trabalha em um seguro
privado de saúde. O engenheiro metalúrgico dá
assessoria técnica a uma siderúrgica. O professor
de educação física é técnico
de voleibol de um time local. O professor de administração
trabalha em uma multinacional. O de informática dá
assessoria a uma empresa na instalação de redes. O
professor de direito trabalhista opera em um escritório,
representando empresas.
Esses são exemplos de burla da dedicação exclusiva,
que não permite aos professores nesse regime aceitar outros
trabalhos fora da universidade. Mas não são exemplos
isolados. Praticamente todos os professores das áreas profissionais
e aplicadas estão fazendo algum bico, consultoria ou têm
também empregos sólidos fora da universidade. Dentre
os melhores mestres, são poucos os que respeitam seu impedimento
legal de fazer outros trabalhos.
Mas está começando um movimento de moralização.
Alguns cruzados do Ministério Público estão
denunciando os abusos. Quem sabe a moda pega e conseguiremos eliminar
todos ou quase todos os que descumprem o regime de dedicação
exclusiva.
Ilustração Ale Setti
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Vitória, dirão alguns. Mais provavelmente uma tragédia
para nossa educação profissional. Imaginem se os futuros
projetistas de estrutura aprenderem seu ofício com quem sempre
cumpriu o tempo integral e, portanto, nunca construiu uma só
casa. Ou os futuros arquitetos, alunos de quem não projeta
mais do que a casinha de seu cachorro. Ou os engenheiros metalúrgicos,
discípulos de quem jamais viu um alto-forno. Ou o aluno do
professor de educação física que só
conhece práticas desportivas de ler nos livros. Ou o administrador,
aluno de quem jamais trabalhou em empresas "de verdade". Ou o informático,
cujo professor escreve papers, mas não sabe do mundo real.
Ou o advogado que aprendeu práticas jurídicas com
quem não freqüentava os tribunais.
Nossa universidade pública é vítima dos bem-intencionados
e dos arrogantes, cuja produção legiferante foi concebida
para as áreas científicas. A idéia de colocar
quase todos os professores em tempo integral e dedicação
exclusiva é ótima para a física, a biologia,
a filosofia e muitas outras ciências clássicas, em
que o produto mais nobre é uma publicação e
o local de trabalho é um laboratório ou uma biblioteca.
Esqueceram-se de que nas áreas profissionais e aplicadas
a competência e a criatividade que mais contam não
se geram dentro dos muros da universidade, mas sim no mundo real.
A dedicação exclusiva para os professores de disciplinas
aplicadas lhes tira a oportunidade de conviver onde praticam o que
irão ensinar. Alguns terão tido experiências
profissionais no passado, mas logo estarão desatualizados.
Note-se que um professor em regime de quarenta horas, mesmo que
queira, está legalmente impedido de trabalhar mais do que
oito horas por dia a não ser que se disponha a fazer
caridade. Visto de outro ângulo, cada cabeça mais bem
educada e não são tantas deixaria de
produzir para o país todas as horas adicionais que sua energia
permite.
Há inúmeros abusos. E há saídas legais,
mas essas são acanhadas e sujeitas a um regime tributário
muito desfavorável. Na prática, restam aos professores
das disciplinas profissionais duas alternativas. Ou burlam a lei,
ou ficam sem a experiência prática essencial para transmitir
a seus alunos.
Contribuindo para a solidez e a beleza de nossos edifícios
e para a competência de nossos profissionais, os professores
em dedicação exclusiva burlam a lei discreta
ou ostensivamente. Que sorte a nossa! Dada a contumaz incapacidade
nacional para produzir regras sadias para as universidades federais,
será que o pior cenário possível não
seria o êxito dos cruzados que tentam coibir os abusos no
cumprimento da dedicação exclusiva nas universidades
federais?
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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