Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sussurros, silêncios,
olhares, sombras

O mais recente escândalo da República,
visto através de alguns de seus mais
pitorescos pormenores

Sussurros – Uma mesa redonda, em torno dela duas cadeiras ocupadas e uma vazia, o pedaço de um outro móvel aparecendo ao fundo. Esse era o cenário, agora célebre, de tanto repetido na TV, em que se entretiveram, em proveitosa conversação, o então presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), Waldomiro Diniz, mais tarde assessor da Presidência da República para Assuntos Parlamentares, e o bicheiro (ou empresário do ramo de loterias, como ele prefere) Carlos Augusto Ramos, o "Carlinhos Cachoeira" ("Charlie Waterfall", para o New York Times). Não havia mais ninguém no ambiente. Waterfall gravava Waldomiro, mas Waldomiro não sabia disso. Julgava o ambiente seguro e confiável o suficiente para avançar suas propostas. E, no entanto, e esta é uma particularidade intrigante, que remete a certos misteriosos padrões do comportamento humano, Waldomiro baixava a voz, quando chegava aos pontos mais delicados de seu discurso. "Vamos dizer, pra gastar 500.000, tá bom pra você?", disse, quando propôs uma contribuição às campanhas eleitorais – e a voz era baixa como num confessionário. Segue-se uma barganha em que de 500.000 reais se vai para 400.000, depois 300.000, sempre a sottovoce, como se diz na ópera. No momento de formular sua própria reivindicação ("Quero 1% pra mim"), a voz tanto se amiúda que Waterfall precisa, por três vezes, pedir confirmação ao interlocutor. Se não havia mais ninguém na sala, o ambiente era seguro e Waldomiro não desconfiava de que estava sendo gravado, por que baixar a voz? Eis a questão. Era para que algum fantasma que porventura lhe povoe o íntimo, o fantasma da mãe, do padre, do professor, não ouvisse o que dizia? Era para que ele próprio não se ouvisse? Ou para travestir seu pleito de uma virtuosa discrição, própria dos humildes e dos monges?

Silêncios – O ministro José Dirceu conhece Waldomiro há doze anos. Num curto período, chegaram a dividir o mesmo apartamento funcional, em Brasília. Trabalhavam em estreito contato. É de supor uma relação estreita, de amigos. No entanto, na declaração que fez sobre o caso, na segunda-feira, no Salão Nobre do Senado, Dirceu não citou uma única vez o nome de Waldomiro. O vice-presidente José Alencar, por seu lado, chamou Waldomiro de "esse rapaz". E o senador Aloizio Mercadante de "esse indivíduo". O nome virou anátema. Talvez com a secreta esperança de que, na omissão do nome, se anulasse não só a lembrança, mas a própria existência do antigo assessor.

Olhares – A repórter Rosa Costa, do jornal O Estado de S. Paulo, focou sua atenção na relação desigual que se desenhou entre José Dirceu e a senadora Heloísa Helena enquanto Dirceu prestava sua declaração sobre o caso. Dirceu evitava olhar para a direita, para não encarar Heloísa Helena. Esta, de pé, sustentava o que a repórter chamou de "um olhar de deboche". O ministro foi o principal orquestrador da expulsão da senadora do PT, por votar em desacordo com os interesses do governo. "Tem coisas que eu gosto de olhar olhos nos olhos", comentou Helena, matreira. O olhar que Dirceu não viu doía-lhe como golpe de punhal.

Sombras – José Dirceu falou tendo ao fundo um quadro representando a assinatura, pelo marechal Deodoro da Fonseca, do projeto da primeira Constituição republicana do Brasil. A superposição dos dois grupos – Dirceu, os assessores e parlamentares que o acompanhavam, num primeiro plano, embaixo, e, no plano superior, o marechal Deodoro e os ilustres da época – rendeu uma imagem estupenda (veja-se foto na página 42), carregada de coincidências e contrastes. A do quadro é mais alegre – há nela pessoas sorrindo. Na de baixo, as expressões são de funeral. A cena do quadro tem a presença de uma mulher. É Mariana, a senhora Deodoro da Fonseca, que, como Marisa Lula da Silva, costumava marcar presença ao lado do marido nos atos oficiais. Há também um menino. É Mário Hermes da Fonseca, sobrinho do presidente. Dois outros Fonseca, assessores de Deodoro, incluem-se na cena. Somados, os membros da família são cinco, entre as dezenove pessoas que aparecem no quadro. Ou seja, mais de 25%, o que faz jus à fama de nepotista do primeiro presidente da República. "O regime republicano, que depôs uma dinastia, vai insensivelmente criando outra", escreveu o mais feroz dos críticos dos inícios da República, Eduardo Prado. E acrescentou: "O senhor Deodoro tem muita família, sobretudo muitos sobrinhos". A corrida dos apaniguados aos altos (e baixos) postos foi uma das características do governo Deodoro. Outra foram as comemorações autocongratulatórias. Era um governo que, julgando-se o marco zero da história do Brasil, festejava-se sem parar, "num furor politicante, discursante e manifestante", nas palavras de Eduardo Prado. No contraste entre a cena de Deodoro e a cena de Dirceu, o primeiro e o mais recente governo da República como que lançavam suas sombras um sobre o outro, trocando os respectivos estigmas e expondo-se como prisioneiros de uma mesma carga atávica.

 
 
 
 
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