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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Sussurros,
silêncios,
olhares, sombras
O
mais recente
escândalo
da República,
visto
através de
alguns de
seus mais
pitorescos
pormenores
Sussurros Uma mesa redonda, em torno dela duas cadeiras
ocupadas e uma vazia, o pedaço de um outro móvel aparecendo
ao fundo. Esse era o cenário, agora célebre, de tanto
repetido na TV, em que se entretiveram, em proveitosa conversação,
o então presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro
(Loterj), Waldomiro Diniz, mais tarde assessor da Presidência
da República para Assuntos Parlamentares, e o bicheiro (ou
empresário do ramo de loterias, como ele prefere) Carlos
Augusto Ramos, o "Carlinhos Cachoeira" ("Charlie Waterfall", para
o New York Times). Não havia mais ninguém no
ambiente. Waterfall gravava Waldomiro, mas Waldomiro não
sabia disso. Julgava o ambiente seguro e confiável o suficiente
para avançar suas propostas. E, no entanto, e esta é
uma particularidade intrigante, que remete a certos misteriosos
padrões do comportamento humano, Waldomiro baixava a voz,
quando chegava aos pontos mais delicados de seu discurso. "Vamos
dizer, pra gastar 500.000, tá bom pra você?", disse,
quando propôs uma contribuição às campanhas
eleitorais e a voz era baixa como num confessionário.
Segue-se uma barganha em que de 500.000 reais se vai para 400.000,
depois 300.000, sempre a sottovoce, como se diz na ópera.
No momento de formular sua própria reivindicação
("Quero 1% pra mim"), a voz tanto se amiúda que Waterfall
precisa, por três vezes, pedir confirmação ao
interlocutor. Se não havia mais ninguém na sala, o
ambiente era seguro e Waldomiro não desconfiava de que estava
sendo gravado, por que baixar a voz? Eis a questão. Era para
que algum fantasma que porventura lhe povoe o íntimo, o fantasma
da mãe, do padre, do professor, não ouvisse o que
dizia? Era para que ele próprio não se ouvisse? Ou
para travestir seu pleito de uma virtuosa discrição,
própria dos humildes e dos monges?
Silêncios O ministro José Dirceu conhece
Waldomiro há doze anos. Num curto período, chegaram
a dividir o mesmo apartamento funcional, em Brasília. Trabalhavam
em estreito contato. É de supor uma relação
estreita, de amigos. No entanto, na declaração que
fez sobre o caso, na segunda-feira, no Salão Nobre do Senado,
Dirceu não citou uma única vez o nome de Waldomiro.
O vice-presidente José Alencar, por seu lado, chamou Waldomiro
de "esse rapaz". E o senador Aloizio Mercadante de "esse indivíduo".
O nome virou anátema. Talvez com a secreta esperança
de que, na omissão do nome, se anulasse não só
a lembrança, mas a própria existência do antigo
assessor.
Olhares A repórter Rosa Costa, do jornal O
Estado de S. Paulo, focou sua atenção na relação
desigual que se desenhou entre José Dirceu e a senadora Heloísa
Helena enquanto Dirceu prestava sua declaração sobre
o caso. Dirceu evitava olhar para a direita, para não encarar
Heloísa Helena. Esta, de pé, sustentava o que a repórter
chamou de "um olhar de deboche". O ministro foi o principal orquestrador
da expulsão da senadora do PT, por votar em desacordo com
os interesses do governo. "Tem coisas que eu gosto de olhar olhos
nos olhos", comentou Helena, matreira. O olhar que Dirceu não
viu doía-lhe como golpe de punhal.
Sombras José Dirceu falou tendo ao fundo um
quadro representando a assinatura, pelo marechal Deodoro da Fonseca,
do projeto da primeira Constituição republicana do
Brasil. A superposição dos dois grupos Dirceu,
os assessores e parlamentares que o acompanhavam, num primeiro plano,
embaixo, e, no plano superior, o marechal Deodoro e os ilustres
da época rendeu uma imagem estupenda (veja-se
foto na página 42), carregada de coincidências
e contrastes. A do quadro é mais alegre há
nela pessoas sorrindo. Na de baixo, as expressões são
de funeral. A cena do quadro tem a presença de uma mulher.
É Mariana, a senhora Deodoro da Fonseca, que, como Marisa
Lula da Silva, costumava marcar presença ao lado do marido
nos atos oficiais. Há também um menino. É Mário
Hermes da Fonseca, sobrinho do presidente. Dois outros Fonseca,
assessores de Deodoro, incluem-se na cena. Somados, os membros da
família são cinco, entre as dezenove pessoas que aparecem
no quadro. Ou seja, mais de 25%, o que faz jus à fama de
nepotista do primeiro presidente da República. "O regime
republicano, que depôs uma dinastia, vai insensivelmente criando
outra", escreveu o mais feroz dos críticos dos inícios
da República, Eduardo Prado. E acrescentou: "O senhor Deodoro
tem muita família, sobretudo muitos sobrinhos". A corrida
dos apaniguados aos altos (e baixos) postos foi uma das características
do governo Deodoro. Outra foram as comemorações autocongratulatórias.
Era um governo que, julgando-se o marco zero da história
do Brasil, festejava-se sem parar, "num furor politicante, discursante
e manifestante", nas palavras de Eduardo Prado. No contraste entre
a cena de Deodoro e a cena de Dirceu, o primeiro e o mais recente
governo da República como que lançavam suas sombras
um sobre o outro, trocando os respectivos estigmas e expondo-se
como prisioneiros de uma mesma carga atávica.
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