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Livros
Uma
autora ultraneurótica
O gênio e as esquisitices
de Patricia Highsmith,
que
reinventou a ficção criminal

Marcelo
Marthe
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A
americana Patricia Highsmith (1921-1995) é um exemplo perfeito
de escritor capaz de construir uma grande obra tendo como ponto
de partida um gênero menor no caso, a ficção
criminal. Em vez de valer-se do formato clássico desse tipo
de romance, no qual a trama é um quebra-cabeça que
culmina com a descoberta do assassino, ela usou o crime como mote
para mergulhar em aspectos perturbadores da psicologia humana. Interessavam-lhe,
sobretudo, as condutas amorais e o que se poderia chamar de "personalidades
voláteis". Esses traços estão sintetizados
em seu personagem mais célebre, Tom Ripley, um assassino
que assume a identidade de suas vítimas. Ripley protagonizou
cinco romances, ganhou várias encarnações no
cinema e foi, sem dúvida, a grande criação
da autora. Mas Patricia escreveu outras histórias de engenhosidade
comparável. As Duas Faces de Janeiro (tradução
de Marcelo Pen; A Girafa; 358 páginas; 45 reais) é
um exemplo. O romance que é de 1964, mas só
agora ganha uma tradução brasileira teve um
parto difícil. Depois de reescrevê-lo diversas vezes
por exigência de sua editora, que achava a história
de pouco apelo comercial, Patricia deu um basta. Lançou-o
por outra editora e o resultado foi o sucesso estrondoso
de crítica.
No livro, a escritora leva ao extremo sua fascinação
pelas personalidades camaleônicas. O título faz menção
a Jano, o deus da mitologia romana que tem duas faces. Em maior
ou menor grau, os três protagonistas possuem essa característica.
O estelionatário Chester MacFarland troca de identidade como
quem muda de roupa. Com a polícia americana em seu encalço,
ele foge para a Grécia sob seu nome verdadeiro, mas tem de
assumir outra identidade depois de assassinar um tira. A partir
daí, passa o tempo num estupor alcoólico, tentando
livrar-se de sua existência anterior. O comportamento de sua
mulher, Colette, não é muito diferente: logo no começo
do livro, informa-se que aos 14 anos ela resolveu trocar de nome
e construir uma vida diferente. O trio se completa com Rydal, jovem
obcecado pelo casal por causa das semelhanças de Chester
com seu pai e de Colette com uma prima que ele foi acusado de violentar.
Contrariando seus impulsos, Rydal ajuda Chester a despistar a polícia
grega. Os dois homens vivem uma relação de atração
e repulsa que é, afinal, o cerne da trama. Para criar personagens
imersos numa tal tortura psicológica, Patricia inspirou-se
no protagonista niilista de Memórias do Subsolo (1864),
do russo Fiodor Dostoievski. "O componente ultraneurótico
do livro sou eu mesma: a criatura do subsolo", escreveu ela em seus
rascunhos.
Patricia nunca escondeu que seus livros estão impregnados
de fantasmas pessoais. Nascida no Estado americano do Texas, mas
radicada na Europa durante a maior parte da vida, a escritora foi
uma figura atormentada por traumas de infância e que tinha
uma relação problemática com sua sexualidade.
Numa biografia lançada no ano passado, o jornalista Andrew
Wilson revela que até o fim da vida ela guardou mágoa
da mãe, que tentou abortar seu nascimento ingerindo terebentina
e mais tarde reprimiu o quanto pôde o lesbianismo da filha.
Patricia só conheceu seu pai biológico aos 12 anos
e, na ocasião, ele tentou abusar dela sexualmente.
Na adolescência, a escritora sofreu de anorexia, fato que
mais tarde atribuiria ao desejo de fugir de sua própria personalidade.
Adulta, Patricia se tornou um poço de melancolia e contradições.
Embora tenha vivido uma infinidade de relações com
mulheres, tinha dificuldade em estabelecer ligações
duradouras. Em alguns momentos, por outro lado, teve "recaídas":
chegou a freqüentar o psicanalista com o objetivo de se tornar
heterossexual. Apesar de lésbica, Patricia declarava ter
horror à convivência com a categoria: seu par romântico
ideal, dizia, eram as mulheres casadas. Curiosamente, a escritora
foi acusada de misoginia pelas feministas. Elas alegavam que Patricia
tinha um prazer perverso em descrever assassinatos brutais de mulheres.
"Ela não se sentia mulher e não entendia para que
elas serviam", declarou a Wilson uma amiga da escritora.
A obra de Patricia ganhou várias adaptações
para o cinema. Pouco depois de lançado, seu primeiro romance
daria origem ao soberbo Pacto Sinistro (1951), de Alfred
Hitchcock. Ainda que o cineasta tenha alterado a trama, em essência
o filme é fiel ao espírito de seu livro. Mas essa
é uma exceção. Nenhuma das versões das
aventuras de Ripley foi plenamente bem-sucedida. Em 1977, o personagem
foi vivido por Dennis Hopper em O Amigo Americano, do diretor
alemão Wim Wenders e Patricia torceu o nariz para
sua performance. Em 1999, o americano Matt Damon deu um ar insípido
ao personagem em O Talentoso Ripley. Pior ainda, o diretor
e roteirista do filme, Anthony Minghella, faz Ripley sentir culpa
de seus crimes e a culpa é algo ausente do universo
do personagem. O melhor intérprete desse anti-herói,
até hoje, foi o francês Alain Delon, em O Sol por
Testemunha, de 1960. Ainda assim, a autora irritou-se porque
o final da história foi alterado: Ripley acaba preso. Uma
nova produção com o personagem, estrelada por John
Malkovich, estreará no Brasil em breve. Resta saber se estará
à altura da força de Patricia Highsmith.
| À
imagem do pai
"Rydal
tentou imaginar Chester com a barba castanha de seu
pai crescendo ao longo do maxilar inferior, elevando-se
perto do queixo para unir-se ao bigode. Era fácil
imaginar Chester com a barba de seu pai. Era fácil
imaginar que Chester era seu pai, com quarenta e poucos
anos. Rydal percebeu que a semelhança entre Chester
e o pai era a principal razão pela qual o ajudara
espontaneamente a transportar o cadáver naquela
tarde se fosse possível atribuir uma razão
a um ato cometido com tamanha falta de razão.
Implicava, Rydal pensou, um respeito oculto pelo pai.
O pensamento não lhe agradou."
Trecho de As Duas Faces de Janeiro
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