Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Livros
Uma autora ultraneurótica

O gênio e as esquisitices
de Patricia
Highsmith, que
reinventou a ficção criminal


Marcelo Marthe

Trechos do livro

A americana Patricia Highsmith (1921-1995) é um exemplo perfeito de escritor capaz de construir uma grande obra tendo como ponto de partida um gênero menor – no caso, a ficção criminal. Em vez de valer-se do formato clássico desse tipo de romance, no qual a trama é um quebra-cabeça que culmina com a descoberta do assassino, ela usou o crime como mote para mergulhar em aspectos perturbadores da psicologia humana. Interessavam-lhe, sobretudo, as condutas amorais e o que se poderia chamar de "personalidades voláteis". Esses traços estão sintetizados em seu personagem mais célebre, Tom Ripley, um assassino que assume a identidade de suas vítimas. Ripley protagonizou cinco romances, ganhou várias encarnações no cinema e foi, sem dúvida, a grande criação da autora. Mas Patricia escreveu outras histórias de engenhosidade comparável. As Duas Faces de Janeiro (tradução de Marcelo Pen; A Girafa; 358 páginas; 45 reais) é um exemplo. O romance – que é de 1964, mas só agora ganha uma tradução brasileira – teve um parto difícil. Depois de reescrevê-lo diversas vezes por exigência de sua editora, que achava a história de pouco apelo comercial, Patricia deu um basta. Lançou-o por outra editora – e o resultado foi o sucesso estrondoso de crítica.

No livro, a escritora leva ao extremo sua fascinação pelas personalidades camaleônicas. O título faz menção a Jano, o deus da mitologia romana que tem duas faces. Em maior ou menor grau, os três protagonistas possuem essa característica. O estelionatário Chester MacFarland troca de identidade como quem muda de roupa. Com a polícia americana em seu encalço, ele foge para a Grécia sob seu nome verdadeiro, mas tem de assumir outra identidade depois de assassinar um tira. A partir daí, passa o tempo num estupor alcoólico, tentando livrar-se de sua existência anterior. O comportamento de sua mulher, Colette, não é muito diferente: logo no começo do livro, informa-se que aos 14 anos ela resolveu trocar de nome e construir uma vida diferente. O trio se completa com Rydal, jovem obcecado pelo casal por causa das semelhanças de Chester com seu pai e de Colette com uma prima que ele foi acusado de violentar. Contrariando seus impulsos, Rydal ajuda Chester a despistar a polícia grega. Os dois homens vivem uma relação de atração e repulsa que é, afinal, o cerne da trama. Para criar personagens imersos numa tal tortura psicológica, Patricia inspirou-se no protagonista niilista de Memórias do Subsolo (1864), do russo Fiodor Dostoievski. "O componente ultraneurótico do livro sou eu mesma: a criatura do subsolo", escreveu ela em seus rascunhos.

Patricia nunca escondeu que seus livros estão impregnados de fantasmas pessoais. Nascida no Estado americano do Texas, mas radicada na Europa durante a maior parte da vida, a escritora foi uma figura atormentada por traumas de infância e que tinha uma relação problemática com sua sexualidade. Numa biografia lançada no ano passado, o jornalista Andrew Wilson revela que até o fim da vida ela guardou mágoa da mãe, que tentou abortar seu nascimento ingerindo terebentina e mais tarde reprimiu o quanto pôde o lesbianismo da filha. Patricia só conheceu seu pai biológico aos 12 anos – e, na ocasião, ele tentou abusar dela sexualmente. Na adolescência, a escritora sofreu de anorexia, fato que mais tarde atribuiria ao desejo de fugir de sua própria personalidade.

Adulta, Patricia se tornou um poço de melancolia e contradições. Embora tenha vivido uma infinidade de relações com mulheres, tinha dificuldade em estabelecer ligações duradouras. Em alguns momentos, por outro lado, teve "recaídas": chegou a freqüentar o psicanalista com o objetivo de se tornar heterossexual. Apesar de lésbica, Patricia declarava ter horror à convivência com a categoria: seu par romântico ideal, dizia, eram as mulheres casadas. Curiosamente, a escritora foi acusada de misoginia pelas feministas. Elas alegavam que Patricia tinha um prazer perverso em descrever assassinatos brutais de mulheres. "Ela não se sentia mulher e não entendia para que elas serviam", declarou a Wilson uma amiga da escritora.

A obra de Patricia ganhou várias adaptações para o cinema. Pouco depois de lançado, seu primeiro romance daria origem ao soberbo Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock. Ainda que o cineasta tenha alterado a trama, em essência o filme é fiel ao espírito de seu livro. Mas essa é uma exceção. Nenhuma das versões das aventuras de Ripley foi plenamente bem-sucedida. Em 1977, o personagem foi vivido por Dennis Hopper em O Amigo Americano, do diretor alemão Wim Wenders – e Patricia torceu o nariz para sua performance. Em 1999, o americano Matt Damon deu um ar insípido ao personagem em O Talentoso Ripley. Pior ainda, o diretor e roteirista do filme, Anthony Minghella, faz Ripley sentir culpa de seus crimes – e a culpa é algo ausente do universo do personagem. O melhor intérprete desse anti-herói, até hoje, foi o francês Alain Delon, em O Sol por Testemunha, de 1960. Ainda assim, a autora irritou-se porque o final da história foi alterado: Ripley acaba preso. Uma nova produção com o personagem, estrelada por John Malkovich, estreará no Brasil em breve. Resta saber se estará à altura da força de Patricia Highsmith.

 
À imagem do pai

"Rydal tentou imaginar Chester com a barba castanha de seu pai crescendo ao longo do maxilar inferior, elevando-se perto do queixo para unir-se ao bigode. Era fácil imaginar Chester com a barba de seu pai. Era fácil imaginar que Chester era seu pai, com quarenta e poucos anos. Rydal percebeu que a semelhança entre Chester e o pai era a principal razão pela qual o ajudara espontaneamente a transportar o cadáver naquela tarde – se fosse possível atribuir uma razão a um ato cometido com tamanha falta de razão. Implicava, Rydal pensou, um respeito oculto pelo pai. O pensamento não lhe agradou."

Trecho de As Duas Faces de Janeiro

 
 
 
 
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