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Cinema
O
gladiador da Miramax
Quem é Harvey Weinstein, o produtor
que
levou Cidade de Deus ao Oscar

Carlos
Graieb
Houve
uma época em Hollywood em que os chefes dos grandes estúdios
eram figuras tão pitorescas quanto os astros que eles contratavam.
Nomes como David Selznick e Harry Cohn aparecem em cores fortes
nas antigas crônicas sobre a cidade do cinema, exercendo seu
enorme poder para o bem e para o mal. Com o correr dos anos, esse
tipo de executivo desapareceu. Mas não totalmente. Fundador
dos estúdios Miramax juntamente com seu irmão Bob,
Harvey Weinstein, de 51 anos, é um herdeiro dessa tradição.
Seus detratores o pintam como um homem truculento, que passa por
cima da ética sem pestanejar. Ele faz pouco das acusações.
"Esses ataques são fruto da inveja. Nosso talento é
maior que o deles. Nós estamos mudando a história
do cinema. Nós temos sucesso onde eles fracassam", disse
o produtor a VEJA. Todos os anos, o burburinho em torno de Weinstein
aumenta às vésperas do Oscar. Ele se entrega à
disputa como um gladiador. A Miramax saiu na frente mais uma vez
em 2004: concorre a quinze prêmios na festa do dia 29, contra
catorze do segundo colocado, a Fox. Do ponto de vista comercial,
a grande aposta da Miramax neste ano era o épico Cold
Mountain, que recebeu várias indicações,
mas ficou fora da disputa de melhor filme. Há quem diga que
isso foi um castigo da Academia para Weinstein. O produtor prefere
dizer que, coisa rara, se enganou na estratégia: deveria
ter lançado o filme antes do que fez, para ter mais chances
de conquistar votantes. Ele insiste também que o revés
de Cold Mountain não quebrou seu ânimo, pois
"seu filme do coração" estará na festa. Ele
se refere a Cidade de Deus. Weinstein foi o cérebro
e o músculo por trás da campanha que resultou em quatro
indicações ao Oscar para o filme brasileiro.
AP
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| Harvey:
paixão pelo bom cinema e mau humor lendário |
Para explicar por que o trabalho do diretor Fernando Meirelles o
deixou tão entusiasmado, Harvey Weinstein relembra sua infância
em Nova York. Uma das coisas que essa infância lhe deu, diz
o produtor, foi uma certa consciência das diferenças
sociais. Sua família era de classe média baixa. A
mãe era secretária e o pai, lapidador de pedras (seus
nomes, Miriam e Max, se fundiram mais tarde em Miramax). Os Weinstein
moravam num conjunto habitacional do governo. Bem em frente ficava
um prédio para pessoas de renda ainda menor uma espécie
de cortiço. "Não estou forçando um paralelo
entre Cidade de Deus e o cenário da minha infância",
diz o produtor. "Mas sei de onde vim, e os temas do filme de Meirelles
me importam muito."
Outra herança de seus primeiros anos, diz Weinstein, foi
a paixão pela arte cinematográfica com ênfase
na palavra arte. A paixão começou por acaso, quando
Harvey e seus amigos descobriram que um filme chamado 400 Blows
estava em cartaz. O título em inglês sugeria uma fita
pornô, e lá foi a garotada. Tratava-se, na verdade,
de um filme experimental o trabalho de estréia de
François Truffaut, conhecido no Brasil como Os Incompreendidos.
A turma saiu na metade, mas Harvey ficou até o fim, maravilhado,
e dali em diante passou a freqüentar aquela sala que exibia
obras difíceis de Fellini ou Visconti. "Eu aprendi a gostar
de filmes inovadores, e não apenas dos filmes de ação
imbecis de Hollywood. Cidade de Deus é inovador. Tudo
nele é maravilhoso, e eu não canso de repetir isso."
Weinstein não se cansa mesmo. Seu envolvimento com Cidade
de Deus começou em 2002, quando a Miramax comprou os
direitos de distribuição internacional do filme. O
primeiro objetivo era pôr Cidade de Deus na competição
do Festival de Cannes, o que não aconteceu. A segunda investida
foi no Oscar do ano passado, quando a fita disputou uma indicação
na categoria de filme estrangeiro. Outra decepção.
Mas ainda havia uma carta na manga. Cidade de Deus só
estreou comercialmente nos Estados Unidos em 2003, e por isso era
elegível nas categorias principais da disputa de 2004. Weinstein
pôs o exército em campo. Publicou anúncios em
jornais, fez corpo-a-corpo com críticos, arregimentou aliados
importantes na ala jovem de Hollywood pessoas como o diretor
Quentin Tarantino e o ator Matt Damon e tomou decisões
comerciais arriscadas (como não lançar o filme em
DVD). Foi assim que Cidade de Deus pôde ter o que ele
chama de "caminho acidentado com final feliz".
As quatro indicações do filme brasileiro foram surpresa
em Hollywood, mas ninguém levantou objeções
à maneira como elas foram alcançadas. Não foi
assim em campanhas anteriores organizadas por Weinstein. No ano
passado, por exemplo, a Miramax meteu-se numa enrascada ao conseguir
que um ex-presidente da Academia assinasse um texto elogioso a Gangues
de Nova York, texto que em seguida foi amplamente divulgado
na imprensa. O gesto foi considerado uma séria ofensa à
etiqueta do Oscar. Uma segunda fonte de críticas a Weinstein
diz respeito à maneira como ele supostamente interfere no
trabalho de seus diretores. Essa é uma acusação
que o irrita. "Eu discuto uma idéia até o final, mas
nunca obriguei um diretor a lançar um filme com que não
estivesse satisfeito", diz ele. Houve muita fofoca a respeito desse
tema quando Weinstein e Martin Scorsese entraram em choque durante
as filmagens, justamente, de Gangues de Nova York. "Quando
o DVD do filme foi lançado, Scorsese disse que não
tinha nenhuma cena a lhe acrescentar. Também estamos produzindo
seu próximo trabalho, O Aviador. Isso encerra a questão",
diz Weinstein. Ele lembra ainda que dissuadiu Fernando Meirelles
de cortar alguns minutos de Cidade de Deus. "Falavam em excesso
de violência. Para mim, o filme é perfeito."
Das pechas atribuídas a Harvey Weinstein, talvez a pior de
todas seja a de ser um homem destemperado. Em 1993, a revista Fortune
o elegeu um dos chefes mais estressados da América. São
muitas as histórias de explosões verbais e intimidações,
e o fato de Weinstein ter um corpanzil e tanto não faz dele
uma presença mais amena. Só nos últimos dois
anos essas histórias começaram a rarear. Weinstein
afirma que descobriu a raiz de seu mau humor num desequilíbrio
hormonal. "Entrei numa dieta e tudo mudou. Nunca mais tive um rompante."
Ainda deve levar algum tempo para a antiga fama se apagar. Por enquanto,
a única pessoa que parece não ter a mínima
cerimônia com Weinstein é sua mãe. Dona Miriam
aparece com freqüência na Miramax, carregando um prato
de bolo ou alguma outra prenda. "Ela é a perfeita mãe
judia", diz Weinstein. "Até hoje me atormenta por causa de
uma roupa ou um sapato."
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