Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Cinema
O gladiador da Miramax

Quem é Harvey Weinstein, o produtor
que levou Cidade de Deus ao Oscar


Carlos Graieb

Especial Oscar 2004

Houve uma época em Hollywood em que os chefes dos grandes estúdios eram figuras tão pitorescas quanto os astros que eles contratavam. Nomes como David Selznick e Harry Cohn aparecem em cores fortes nas antigas crônicas sobre a cidade do cinema, exercendo seu enorme poder para o bem e para o mal. Com o correr dos anos, esse tipo de executivo desapareceu. Mas não totalmente. Fundador dos estúdios Miramax juntamente com seu irmão Bob, Harvey Weinstein, de 51 anos, é um herdeiro dessa tradição. Seus detratores o pintam como um homem truculento, que passa por cima da ética sem pestanejar. Ele faz pouco das acusações. "Esses ataques são fruto da inveja. Nosso talento é maior que o deles. Nós estamos mudando a história do cinema. Nós temos sucesso onde eles fracassam", disse o produtor a VEJA. Todos os anos, o burburinho em torno de Weinstein aumenta às vésperas do Oscar. Ele se entrega à disputa como um gladiador. A Miramax saiu na frente mais uma vez em 2004: concorre a quinze prêmios na festa do dia 29, contra catorze do segundo colocado, a Fox. Do ponto de vista comercial, a grande aposta da Miramax neste ano era o épico Cold Mountain, que recebeu várias indicações, mas ficou fora da disputa de melhor filme. Há quem diga que isso foi um castigo da Academia para Weinstein. O produtor prefere dizer que, coisa rara, se enganou na estratégia: deveria ter lançado o filme antes do que fez, para ter mais chances de conquistar votantes. Ele insiste também que o revés de Cold Mountain não quebrou seu ânimo, pois "seu filme do coração" estará na festa. Ele se refere a Cidade de Deus. Weinstein foi o cérebro e o músculo por trás da campanha que resultou em quatro indicações ao Oscar para o filme brasileiro.

AP
Harvey: paixão pelo bom cinema e mau humor lendário


Para explicar por que o trabalho do diretor Fernando Meirelles o deixou tão entusiasmado, Harvey Weinstein relembra sua infância em Nova York. Uma das coisas que essa infância lhe deu, diz o produtor, foi uma certa consciência das diferenças sociais. Sua família era de classe média baixa. A mãe era secretária e o pai, lapidador de pedras (seus nomes, Miriam e Max, se fundiram mais tarde em Miramax). Os Weinstein moravam num conjunto habitacional do governo. Bem em frente ficava um prédio para pessoas de renda ainda menor – uma espécie de cortiço. "Não estou forçando um paralelo entre Cidade de Deus e o cenário da minha infância", diz o produtor. "Mas sei de onde vim, e os temas do filme de Meirelles me importam muito."

Outra herança de seus primeiros anos, diz Weinstein, foi a paixão pela arte cinematográfica – com ênfase na palavra arte. A paixão começou por acaso, quando Harvey e seus amigos descobriram que um filme chamado 400 Blows estava em cartaz. O título em inglês sugeria uma fita pornô, e lá foi a garotada. Tratava-se, na verdade, de um filme experimental – o trabalho de estréia de François Truffaut, conhecido no Brasil como Os Incompreendidos. A turma saiu na metade, mas Harvey ficou até o fim, maravilhado, e dali em diante passou a freqüentar aquela sala que exibia obras difíceis de Fellini ou Visconti. "Eu aprendi a gostar de filmes inovadores, e não apenas dos filmes de ação imbecis de Hollywood. Cidade de Deus é inovador. Tudo nele é maravilhoso, e eu não canso de repetir isso."

Weinstein não se cansa mesmo. Seu envolvimento com Cidade de Deus começou em 2002, quando a Miramax comprou os direitos de distribuição internacional do filme. O primeiro objetivo era pôr Cidade de Deus na competição do Festival de Cannes, o que não aconteceu. A segunda investida foi no Oscar do ano passado, quando a fita disputou uma indicação na categoria de filme estrangeiro. Outra decepção. Mas ainda havia uma carta na manga. Cidade de Deus só estreou comercialmente nos Estados Unidos em 2003, e por isso era elegível nas categorias principais da disputa de 2004. Weinstein pôs o exército em campo. Publicou anúncios em jornais, fez corpo-a-corpo com críticos, arregimentou aliados importantes na ala jovem de Hollywood – pessoas como o diretor Quentin Tarantino e o ator Matt Damon – e tomou decisões comerciais arriscadas (como não lançar o filme em DVD). Foi assim que Cidade de Deus pôde ter o que ele chama de "caminho acidentado com final feliz".

As quatro indicações do filme brasileiro foram surpresa em Hollywood, mas ninguém levantou objeções à maneira como elas foram alcançadas. Não foi assim em campanhas anteriores organizadas por Weinstein. No ano passado, por exemplo, a Miramax meteu-se numa enrascada ao conseguir que um ex-presidente da Academia assinasse um texto elogioso a Gangues de Nova York, texto que em seguida foi amplamente divulgado na imprensa. O gesto foi considerado uma séria ofensa à etiqueta do Oscar. Uma segunda fonte de críticas a Weinstein diz respeito à maneira como ele supostamente interfere no trabalho de seus diretores. Essa é uma acusação que o irrita. "Eu discuto uma idéia até o final, mas nunca obriguei um diretor a lançar um filme com que não estivesse satisfeito", diz ele. Houve muita fofoca a respeito desse tema quando Weinstein e Martin Scorsese entraram em choque durante as filmagens, justamente, de Gangues de Nova York. "Quando o DVD do filme foi lançado, Scorsese disse que não tinha nenhuma cena a lhe acrescentar. Também estamos produzindo seu próximo trabalho, O Aviador. Isso encerra a questão", diz Weinstein. Ele lembra ainda que dissuadiu Fernando Meirelles de cortar alguns minutos de Cidade de Deus. "Falavam em excesso de violência. Para mim, o filme é perfeito."

Das pechas atribuídas a Harvey Weinstein, talvez a pior de todas seja a de ser um homem destemperado. Em 1993, a revista Fortune o elegeu um dos chefes mais estressados da América. São muitas as histórias de explosões verbais e intimidações, e o fato de Weinstein ter um corpanzil e tanto não faz dele uma presença mais amena. Só nos últimos dois anos essas histórias começaram a rarear. Weinstein afirma que descobriu a raiz de seu mau humor num desequilíbrio hormonal. "Entrei numa dieta e tudo mudou. Nunca mais tive um rompante." Ainda deve levar algum tempo para a antiga fama se apagar. Por enquanto, a única pessoa que parece não ter a mínima cerimônia com Weinstein é sua mãe. Dona Miriam aparece com freqüência na Miramax, carregando um prato de bolo ou alguma outra prenda. "Ela é a perfeita mãe judia", diz Weinstein. "Até hoje me atormenta por causa de uma roupa ou um sapato."

 

 

Fotos divulgação
 
 
 
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