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Turismo
Vida
selvagem, hotel de luxo
Como
a África do Sul,
mais pobre
e violenta
do que o Brasil, ganha
dinheiro
com o turismo

Camila
Antunes
A
esmagadora maioria das pessoas que viajam em férias mundo
afora opta por destinos tradicionais da Europa e dos Estados Unidos,
campeões no ranking de visitação internacional.
De acordo com dados da Organização Mundial do Turismo,
os endereços americanos e europeus recebem 63% dos viajantes.
A América do Sul e a África ficam com uma porção
reduzida do contingente de turistas, algo como 6% do total. Na expectativa
de melhorar os números e a receita em moeda forte, alguns
países africanos vêm adotando um comportamento que
o Brasil deveria conhecer até para copiar. Lá,
já se percebeu que a melhor maneira de atrair turistas é
oferecer-lhes a oportunidade de visitar uma África que é
exatamente aquilo que eles tinham na cabeça. Ou seja, um
lugar ideal para os que se interessam por viagens exóticas
e selvagens, e não o lugar miserável e repleto de
problemas aparentemente insolúveis que os cientistas sociais
descrevem em seus estudos. Um dos países que melhor entenderam
esse potencial é a África do Sul, que recebia um número
desprezível de turistas e agora se tornou referência
mundial para aqueles que procuram aventuras.
Apesar de ser a maior economia do continente, a África do
Sul vive uma realidade que faz o Brasil parecer uma Suíça
de tranqüilidade. Enquanto a taxa de desemprego nas grandes
cidades brasileiras é da ordem de 10%, na África do
Sul trabalha-se com números na casa dos 40%. Hoje, a África
do Sul é um país abatido por uma criminalidade pavorosa,
campeão mundial de estupros e de assassinato de policiais.
Em Johanesburgo, a taxa de homicídios por 100.000 habitantes
é o dobro da registrada no Rio de Janeiro e em São
Paulo. No Brasil, costuma-se dizer que não conseguiremos
atrair turistas enquanto a desigualdade social e a criminalidade
não forem solucionadas. Na África do Sul, que não
resolveu nenhum desses problemas, os números mostram que
o incremento do mercado turístico pode conviver com a triste
realidade das ruas. Em 1990, menos de 2 milhões de turistas
foram para a África do Sul. Em 2002, foram 6,5 milhões
de viajantes quase o dobro do que recebe o Brasil. Como se
deu a virada? Com um investimento pesado em resorts, a criação
de vôos diretos que deixam os turistas ao lado de seus destinos
e a exploração concentrada de algumas virtudes nacionais,
não de todas elas em bloco.
A África do Sul vem explorando com aplicação
a oferta de pacotes com direito a safáris e hospedagem em
hotéis maravilhosos. Um dos marcos desse movimento foi a
inauguração do hotel The Palace, aberto uma década
atrás, pertencente à raríssima categoria seis
estrelas. Construído em pleno deserto, possui uma praia com
ondas artificiais e é cercado por um complexo de diversão
com cassinos, parques e brinquedos que imitam os da Disney. Recentemente,
a África do Sul passou a investir em outra linha de hotéis,
do chamado circuito do charme. Muitos parques nacionais melhoraram
a estrutura dos acampamentos e bangalôs, transformando-os
em pousadas de alto padrão em plena selva. O guia The
Hotel Book, da editora alemã Taschen, elege os hotéis
mais luxuosos do mundo. Na edição sobre a África,
há indicações para lugares charmosos e rústicos,
como uma cabana construída sobre uma grande árvore
baobá na Tanzânia e uma pousada no Quênia de
arquitetura inglesa, onde girafas passeiam no jardim. Um dos grandes
destaques vem da África do Sul. As pousadas mais conhecidas,
Mala Mala e Londolozi, ambas situadas na reserva Kruger Park, na
fronteira da África do Sul com Moçambique, já
hospedaram celebridades como Emerson Fittipaldi, Margareth Thatcher,
Brooke Shields e Elton John.
Dos 53 países do continente africano, apenas dez registram
um fluxo de turistas superior a 500.000 pessoas por ano. Entre os
mais procurados estão os do norte do continente, devido à
proximidade da Europa, e a África do Sul, o destino que mais
cresce no mundo. "Muitos países africanos negligenciam os
valores culturais e históricos e não exploram a indústria
do turismo", relata um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
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