Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Turismo
Vida selvagem, hotel de luxo

Como a África do Sul, mais pobre
e violenta
do que o Brasil, ganha
dinheiro com o turismo


Camila Antunes

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A esmagadora maioria das pessoas que viajam em férias mundo afora opta por destinos tradicionais da Europa e dos Estados Unidos, campeões no ranking de visitação internacional. De acordo com dados da Organização Mundial do Turismo, os endereços americanos e europeus recebem 63% dos viajantes. A América do Sul e a África ficam com uma porção reduzida do contingente de turistas, algo como 6% do total. Na expectativa de melhorar os números e a receita em moeda forte, alguns países africanos vêm adotando um comportamento que o Brasil deveria conhecer – até para copiar. Lá, já se percebeu que a melhor maneira de atrair turistas é oferecer-lhes a oportunidade de visitar uma África que é exatamente aquilo que eles tinham na cabeça. Ou seja, um lugar ideal para os que se interessam por viagens exóticas e selvagens, e não o lugar miserável e repleto de problemas aparentemente insolúveis que os cientistas sociais descrevem em seus estudos. Um dos países que melhor entenderam esse potencial é a África do Sul, que recebia um número desprezível de turistas e agora se tornou referência mundial para aqueles que procuram aventuras.

Apesar de ser a maior economia do continente, a África do Sul vive uma realidade que faz o Brasil parecer uma Suíça de tranqüilidade. Enquanto a taxa de desemprego nas grandes cidades brasileiras é da ordem de 10%, na África do Sul trabalha-se com números na casa dos 40%. Hoje, a África do Sul é um país abatido por uma criminalidade pavorosa, campeão mundial de estupros e de assassinato de policiais. Em Johanesburgo, a taxa de homicídios por 100.000 habitantes é o dobro da registrada no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Brasil, costuma-se dizer que não conseguiremos atrair turistas enquanto a desigualdade social e a criminalidade não forem solucionadas. Na África do Sul, que não resolveu nenhum desses problemas, os números mostram que o incremento do mercado turístico pode conviver com a triste realidade das ruas. Em 1990, menos de 2 milhões de turistas foram para a África do Sul. Em 2002, foram 6,5 milhões de viajantes – quase o dobro do que recebe o Brasil. Como se deu a virada? Com um investimento pesado em resorts, a criação de vôos diretos que deixam os turistas ao lado de seus destinos e a exploração concentrada de algumas virtudes nacionais, não de todas elas em bloco.

A África do Sul vem explorando com aplicação a oferta de pacotes com direito a safáris e hospedagem em hotéis maravilhosos. Um dos marcos desse movimento foi a inauguração do hotel The Palace, aberto uma década atrás, pertencente à raríssima categoria seis estrelas. Construído em pleno deserto, possui uma praia com ondas artificiais e é cercado por um complexo de diversão com cassinos, parques e brinquedos que imitam os da Disney. Recentemente, a África do Sul passou a investir em outra linha de hotéis, do chamado circuito do charme. Muitos parques nacionais melhoraram a estrutura dos acampamentos e bangalôs, transformando-os em pousadas de alto padrão em plena selva. O guia The Hotel Book, da editora alemã Taschen, elege os hotéis mais luxuosos do mundo. Na edição sobre a África, há indicações para lugares charmosos e rústicos, como uma cabana construída sobre uma grande árvore baobá na Tanzânia e uma pousada no Quênia de arquitetura inglesa, onde girafas passeiam no jardim. Um dos grandes destaques vem da África do Sul. As pousadas mais conhecidas, Mala Mala e Londolozi, ambas situadas na reserva Kruger Park, na fronteira da África do Sul com Moçambique, já hospedaram celebridades como Emerson Fittipaldi, Margareth Thatcher, Brooke Shields e Elton John.

Dos 53 países do continente africano, apenas dez registram um fluxo de turistas superior a 500.000 pessoas por ano. Entre os mais procurados estão os do norte do continente, devido à proximidade da Europa, e a África do Sul, o destino que mais cresce no mundo. "Muitos países africanos negligenciam os valores culturais e históricos e não exploram a indústria do turismo", relata um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

 
 
 
 
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