Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Automóveis
O que vale é a beleza

A tendência entre os fabricantes é investir
mais em
design do que em motor


Ariel Kostman


Divulgação
MERCEDES-BENZ SLR MCLAREN – Inspirado nos modelos "flecha de prata" dos anos 50, o visual do esportivo alemão de 1 milhão de reais procura transmitir a impressão de potência e velocidade

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Por décadas, os fabricantes de carro concentraram esforços na tecnologia e na criação de dispositivos como freios ABS, suspensão eletrônica, computadores de bordo e airbags. O poder dentro das montadoras ficava centralizado nos engenheiros. O resultado é que os automóveis se tornaram potentes, econômicos, seguros e duráveis. O visual não recebia igual atenção. Alguns carros ficaram tão parecidos que mal se distinguia uma marca da outra. Isso mudou bastante nos últimos cinco anos. Para se diferenciarem e atrair consumidores, os fabricantes estão investindo pesado no visual. Estima-se que nesse período a Ford e a GM tenham aumentado em 50% os gastos com seus departamentos de design. No início deste mês, a japonesa Toyota anunciou que gastará 46 milhões de dólares na construção de um centro de estilo na Inglaterra. Em lugar de engenheiros e homens de marketing, como no passado, as fábricas vêm aumentando as equipes de desenhistas e roubando talentos das rivais.


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Michel de Vries
BMW Z4 – Os vincos e as depressões na chapa de aço criaram um efeito camaleão para esse carrão de 268 000 reais. Conforme o ângulo em que é observado, contornos que pareciam suaves se tornam agressivos MÉGANE II HATCH – A traseira com um corte brusco e o porta-malas saltado para fora são as características da nova versão do compacto de 50 000 reais da Renault

Supervalorizados, os designers hoje têm o passe disputado como estrelas do futebol. Ao lado de um pacotaço de demissões, uma das primeiras providências tomadas pelo brasileiro Carlos Ghosn, quando convocado para tirar a japonesa Nissan do atoleiro, foi roubar o designer Shiro Nakamura da rival Isuzu. A GM americana tirou da Renault a designer francesa Anne Asensio, criadora do Scénic. A Volkswagen comprou o passe do alemão Murat Guenak, o responsável pelo desenho do Mercedes-Benz SLK, e do ítalo-português Walter de'Silva, da Alfa Romeo. O salário de um profissional do calibre desses três pode chegar a 1 milhão de dólares por ano, de acordo com a consultoria Booz Allen Hamilton, e a troca de emprego é constante. Nos Estados Unidos, o maior mercado de automóveis, o número de modelos à venda cresceu de 910 em 1995 para 1.314 em 2002. "Em termos técnicos, os carros estão muito nivelados", diz o mexicano Carlos Barba, que chefiou a equipe de design da Opel na Europa e atualmente faz o mesmo na GM brasileira. "O principal fator de compra agora é o visual. É preciso emocionar o comprador para ter chance de vender."

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Raul Pires: resgate do prestígio da Bentley

O americano J Mays, o mais badalado designer de carros da atualidade e criador do Audi TT, do New Beetle, do Ford Thunderbird e do novo Mustang, compara os veículos a grandes produções do cinema. "Você tem de levar as pessoas a um lugar onde nunca estiveram, tirá-las da realidade", diz Mays. A regra vale para os superesportivos e também para modelos mais baratos. O SLR McLaren, um esportivo de 1 milhão de reais, é visualmente muito mais agressivo que qualquer outro Mercedes-Benz. O capô enorme pretende deixar evidente o tamanho do motor que carrega. Por sua vez, a Renault francesa fez uma revolução visual em um de seus carros mais vendidos, o Mégane, que custa por volta de 50.000 reais. Lançado no fim de 2002, o Mégane II é marcado por uma curvatura brusca do vidro traseiro e pela tampa do porta-malas saliente. Em um ano, as vendas do modelo aumentaram 16%. O Mégane comercializado no Brasil não deve passar tão cedo pela plástica que foi feita em seu irmão francês.

Dentro das fábricas, os estúdios de design formam um universo à parte. Terno e gravata são substituídos por jeans e camiseta, e muitas vezes os projetistas trabalham ouvindo rock pesado. "O desenhista precisa estar por dentro da moda, freqüentar exposições, shows e baladas para saber das novas tendências", diz Luiz Alberto Veiga, gerente executivo do departamento de design na Volkswagen do Brasil. Os desenhistas são quase todos jovens: têm 35 anos, em média. Essa é a idade do brasileiro Raul Pires. Há dois anos ele desenhou o luxuoso Continental GT da Bentley, marca inglesa de carros de luxo que pertence à Volkswagen. Formado pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, Pires chegou à Bentley em 1999, depois de estagiar na Volks do Brasil e trabalhar na Skoda, na República Checa. O veículo resgatou o prestígio da Bentley e ganhou prêmios de design no Salão de Paris em 2002 e no Salão de Detroit no ano passado.

 
 
 
 
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