Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Telefonia
O império sem fio da Cingular

A Cingular paga 41 bilhões de dólares
para incorporar a AT&T Wireless
e se
torna a maior empresa do mercado
americano de telefonia celular


Carlos Rydlewski e Leandra Peres


O que são 41 bilhões de dólares em dinheiro

Tudo o que é sólido se concretiza no ar. Essa frase, uma brincadeira com o título de um livro-cabeça lançado na década de 80, é uma boa maneira de definir o negócio ultramegabilionário que sacudiu o mercado americano de telecomunicações na semana passada. A Cingular, uma subsidiária da BellSouth e da SBC Communications, comprou a AT&T Wireless por incríveis 41 bilhões de dólares. A aquisição a transformou na primeira empresa do setor de telefonia sem fio dos Estados Unidos, com 46 milhões de clientes, o equivalente à população da Inglaterra. Os 41 bilhões de dólares em dinheiro representam um valor não muito distante dos 47 bilhões de dólares que o Bank of America desembolsou para incorporar o FleetBoston Financial, no ano passado.

A briga pela AT&T Wireless foi brava e envolveu a inglesa Vodafone. A primeira proposta apresentada pelas duas interessadas foi muito parecida, em torno de 13 dólares por ação. A Cingular, então, aumentou a oferta, que foi imediatamente coberta pela concorrente inglesa. Para conseguir fechar o negócio, teve de pagar 15 dólares por ação, um ágio de 27% em relação ao preço de mercado dos papéis. Além do pagamento aos acionistas, a Cingular vai assumir dívidas de 6 bilhões de dólares da AT&T Wireless. Concluído o leilão, a Vodafone também saiu ganhando. As ações da empresa haviam caído mais de 8% desde o anúncio de sua participação no leilão de compra da AT&T Wireless. Os investidores temiam que a companhia, que já tem 45% de participação na Verizon Wireless, pagasse muito caro no embate. Assim que anunciou a desistência, a Vodafone teve suas ações valorizadas em 6%.

 
AP
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A tacada da Cingular foi ousada, mas está longe de ser uma maluquice. O futuro é sem fio, como demonstra o crescimento extraordinário nessa área. Em cada grupo de 1.000 pessoas em todo o mundo, 157 têm telefone celular. Em 1999, essa proporção era de 84. Ou seja, em menos de cinco anos, a base desse mercado quase dobrou. À frente da decisão de compra da AT&T Wireless está Stan Sigman, o presidente da Cingular, um sujeito irascível e que gosta de cobrar resultados até quando encontra subordinados no cafezinho. Quando assumiu a companhia, em 2002, reuniu todos os gerentes e lhes passou um sabão por causa de uma campanha de marketing que julgava pouco clara. Depois disso, deu um prazo de trinta dias para que ela fosse mudada. Trinta dias para mudar uma campanha de marketing de uma empresa gigante pode ser o equivalente a dar a volta ao mundo em oitenta dias no século XIX. É provável que Sigman se torne ainda mais insuportável nos próximos tempos. Fortes ajustes internos terão de ser feitos. A AT&T Wireless é a campeã em reclamações de consumidores. E a média das contas dos clientes da Cingular vem caindo consistentemente. Para complicar o quadro, Sigman terá de lutar para aprovar a aquisição na Comissão Federal de Comunicações, que regula a competição do setor nos Estados Unidos. O acordo que viabilizou a união entre as duas empresas fixa em 8,25 bilhões de dólares o valor máximo de ativos que elas concordam em vender para satisfazer as exigências legais – é comum que, para chancelar um negócio como esse, o governo obrigue seus participantes a diminuir de tamanho, a fim de não configurar competição desleal. Se as autoridades determinarem um valor mais elevado, o negócio pode ser desfeito.

A Cingular espera reduzir custos com a fusão dos setores de cobrança, melhorar a oferta de serviços e lucrar com a ampliação da área de cobertura. Também acredita que obterá uma posição mais forte para negociar com seus fornecedores. O diretor de operações da Cingular, Ralph de la Vega, já avisou que deve haver demissões entre os 70.000 funcionários da nova companhia, mas não forneceu números. Antes de a compra ser concretizada, a AT&T Wireless havia anunciado um plano de mandar para a rua, até o fim de 2005, quase 2.000 de seus 31.000 funcionários. Empregos aparentemente sólidos se desmancharão no ar.

 
 
 
 
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