Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Ciência
A dorzinha que vira doença

Inflamação crônica pode aumentar
os riscos de infarto e câncer

Egberto Nogueira
Exercícios físicos e alimentação saudável ainda são as melhores armas contra doenças cardiovasculares
VEJA Saúde


Qual a relação entre uma inflamação persistente no estômago, a conhecida gastrite, e o risco de sofrer um ataque cardíaco, ter câncer de cólon ou desenvolver o mal de Alzheimer, uma doença degenerativa que destrói as células do cérebro? Cientistas americanos descobriram que pessoas que apresentam um processo de inflamação crônica por anos seguidos têm mais probabilidade de ser vítimas de um infarto. A inflamação é uma defesa natural do organismo para combater bactérias, vírus e parasitas. Quando alguém chuta, sem querer, uma porta e contunde o dedão do pé, o cérebro manda uma mensagem para que as células sadias do corpo travem uma batalha para livrar aquela região de organismos estranhos ou células mortas. Em termos simples, esse é o processo da inflamação. O local fica vermelho e inchado. Em alguns casos, como na gastrite, a inflamação pode durar anos.

O que se sabe com certeza é que a inflamação crônica pode alterar o nível de colesterol das artérias coronarianas, facilitando a ocorrência de entupimentos. Os médicos sabem também que os eventos que dão origem a um ataque cardíaco culminam com um processo inflamatório. É esse processo, o súbito acúmulo de células de defesa em uma região parcialmente obstruída da artéria, que leva à interrupção da passagem do sangue e, conseqüentemente, ao infarto. Existem evidências ainda parciais de que processos inflamatórios estariam envolvidos na ocorrência do mal de Alzheimer e de alguns tipos de câncer.

Os cardiologistas foram os primeiros a reconhecer os efeitos da inflamação sobre a saúde do coração. Até alguns anos atrás, o ataque cardíaco era visto apenas como um fenômeno de entupimento das artérias que irrigam o músculo cardíaco. O colesterol era o vilão que entupia artérias e impedia o fluxo de sangue para o coração. Realmente, uma pessoa com alto nível de colesterol tem mais possibilidade de desenvolver doenças cardíacas. Mas pesquisas nos Estados Unidos mostraram que grande parte dos ataques cardíacos ocorre em pacientes com níveis normais de colesterol. Descobriu-se, então, que as pessoas mais suscetíveis a um ataque cardíaco eram aquelas que tinham no sangue altas doses de uma proteína chamada C-reativa. Pessoas nessa situação corriam um risco três vezes maior de sofrer um ataque do coração. A proteína C-reativa é produzida pelo fígado em decorrência dos processos inflamatórios. "Exames comprovaram que a incidência dessa proteína aumenta a probabilidade de ocorrer um infarto", diz Agnaldo Anelli, oncologista do Hospital do Câncer, em São Paulo.

O que fazer para se prevenir? Atividades físicas e a redução do colesterol ajudam a diminuir a proteína C-reativa no sangue. Colesterol, pressão alta e fumo contribuem muito mais para o risco de infartos do que a inflamação crônica, que sozinha não é suficiente para produzir perigos ao coração. Comer frutas, verduras e legumes, manter o peso adequado e esmerar-se na higiene bucal são armas importantes. Experiências sugerem o uso de antiinflamatórios como uma possibilidade de afastar as doenças, mas – com exceção da aspirina – ainda não existem protocolos de uso desses comprimidos com o objetivo específico de evitar infarto, Alzheimer ou câncer. Na teoria, esses medicamentos anulariam ou amenizariam os processos inflamatórios e poderiam evitar o risco de muitas doenças graves. Em pacientes com propensão a infartos – fumantes, sedentários, obesos, hipertensos –, o uso diário de uma aspirina infantil é suficiente para reduzir o risco de problemas cardíacos. "Orientação médica é fundamental. Se tomada erradamente, a aspirina pode causar sangramento digestivo ou inibir a ação de outros medicamentos", diz Otávio Rizzi Coelho, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Médicos americanos já estão testando com mais intensidade os antiinflamatórios vendidos em farmácias. Em 2000, pesquisas concluíram que pacientes que tomaram Celebra, um medicamento da Pfizer usado para tratar artrite, ficaram menos vulneráveis a desenvolver células cancerígenas no intestino. Diversas clínicas médicas estão testando o medicamento na prevenção de câncer de mama, perda de memória e doenças degenerativas. O laboratório de biotecnologia deCode Genetics anunciou há duas semanas que vai testar se um antiinflamatório usado no combate à asma pode prevenir ataques do coração.

 

Como vencer a inflamação

Com a descoberta de que doenças graves como os ataques cardíacos, alguns tipos de câncer e o mal de Alzheimer podem ter como uma das causas as inflamações, os médicos passaram a aconselhar cuidados especiais com elas. Algumas de suas sugestões:

EXERCÍCIOS
Praticar exercícios regularmente, pelo menos trinta minutos por dia, é um aliado na luta contra a inflamação. Queimar calorias ajuda a reduzir as células de gordura, que são um dos fatores envolvidos nos processos inflamatórios.

ALIMENTAÇÃO
O consumo de peixe, óleos vegetais, frutas e legumes aumenta a quantidade de substâncias antioxidantes cuja presença no organismo inibe os efeitos destrutivos das inflamações.

MEDICAÇÃO
Um médico pode recomendar a ingestão regular de aspirina para evitar inflamações em geral. As estatinas, substâncias que diminuem o colesterol, podem ter efeito antiinflamatório sobre o interior das artérias e, assim, aumentar seu efeito protetor do sistema cardiovascular. Pesquisas mostram também o efeito benéfico de certos medicamentos antiinflamatórios não esteróides.

HIGIENE ORAL
Escovar os dentes e usar o fio dental regularmente ajuda a afastar o risco de doenças periodontais e gengivite, uma das portas de entrada mais comuns para as inflamações.

 

 
 
 
 
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