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Ambiente
O
paraíso cercado e ameaçado
As
campanhas ecológicas, a ação dos governos
e o isolamento preservaram até agora o núcleo
da Amazônia, mas as pressões vindas de fora
são uma ameaça crescente ao equilíbrio
ambiental da região

Leandra Peres e Leonardo Coutinho
Sete
de cada dez árvores cortadas na Amazônia brasileira
tombam em três Estados: Mato Grosso, Pará e Rondônia.
Em contraste, Amapá, Amazonas e Roraima podem se orgulhar
de ter 95% de sua floresta tropical intocada. Essa é a imagem
atual do mais vigiado, precioso e cobiçado tesouro ambiental
do planeta por sua diversidade biológica, manancial de água
potável e poder regenerador da biosfera. Grosso modo, a situação
da Amazônia se assemelha a uma estufa de conteúdo bem-cuidado,
mas cercada de perigo por todos os lados. O perigo maior somos nós,
as pessoas, a civilização que teima em comprimir as
fronteiras da mata. Em pleno século XXI, depois de décadas
de conscientização ecológica, nas bordas da
Amazônia ainda se vive pelo bruto ensinamento do libertador
Simon Bolívar (1783-1830): "Se a natureza for contra nós,
seremos contra a natureza". Bolívar, que livrou Venezuela,
Equador, Peru, Colômbia e Bolívia do jugo espanhol,
via a natureza apenas como mais um opressor a ser subjugado. Essa
mentalidade ainda impera nas fronteiras da selva, tida pelos modernos
conquistadores como fonte de opressão econômica. Diz
Alfredo Homma, pesquisador do Centro de Pesquisa Agropecuária
do Trópico Úmido: "A verdade é que os milhões
de habitantes que vivem nas áreas preservadas da Amazônia
se alimentam de produtos cultivados em Mato Grosso, no Pará
e em outros Estados estigmatizados como destruidores da floresta".
Patricia Santos/AE
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CONTROLE
DAS FRONTEIRAS
A Polícia Federal e a Aeronáutica destruíram
38 pistas de pouso clandestinas na Amazônia nos últimos
sete anos |
Em
seu coração, a mata consegue manter seu metabolismo
relativamente intacto mesmo que em muitos pontos sofra a
ação de garimpos ilegais e da extração
cirúrgica de espécies vegetais de maior valor comercial,
como o mogno, que, de 1.200 reais a tora no
Brasil, depois de trabalhado, pode valer doze vezes mais no mercado
internacional. Essa estufa amazônica abriga atualmente cerca
de 21 milhões de brasileiros, população que
cresce a taxas duas vezes maiores que a média do país.
As necessidades crescentes desses moradores são um dos fatores
que alimentam a vida econômica nas bordas da Amazônia.
Cada um dos 750 000 pequenos agricultores queima e desmata anualmente
entre 1 e 3 hectares de floresta. O que eles produzem é suficiente
para sua subsistência. O pouco que sobra é vendido
a moradores das regiões interioranas e protegidas da Amazônia.
O exército de pequenos agricultores é apenas um dos
focos de tensão. A oeste, a atividade guerrilheira e o narcotráfico
estão sendo enfrentados pelo governo brasileiro com o aumento
do contingente militar na região. Ao norte, a situação
é melhor do ponto de vista ambiental. Os conflitos entre
índios e produtores rurais em Roraima são uma séria
questão social. O que seria um problema para o meio ambiente
a crescente urbanização da população
tende a ser minorado pela proximidade com a Venezuela e suas
cidades fronteiriças, onde muitos brasileiros da Região
Norte se abastecem de alimentos e outros produtos. Assim, o dinheiro
deles se transfere para o país vizinho, que fica também
com o ônus de desmatar e plantar.
Liane Neves
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ACERTO
NO CÉU E ERRO NO SOLO
As queimadas podem ser vigiadas por satélites
com enorme precisão, mas falta vigilância na terra
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O impacto maior vem do leste, com as madeireiras e os pecuaristas.
Vem também do sul, pelo vigor de um ciclo de avanço
recente impulsionado pelo sucesso das plantações de
soja no Centro-Oeste e sua adaptação para cultivo
em regiões cada vez mais próximas da linha do Equador,
o que ameaça a área de transição entre
o cerrado e a floresta densa. Em suas frágeis e porosas fronteiras,
a Amazônia está sendo desmatada em um ritmo muito superior
ao das agressões ocorridas em seu interior. De 1990 a 2002,
cerca de 22 milhões de hectares de floresta foram derrubados.
A área equivale aos territórios somados de Bélgica,
Dinamarca, Holanda e Portugal. Mais de 70% de tudo o que a floresta
perde a cada ano é arrancado de suas bordas.
O
mais novo foco de pressão sobre a Amazônia altera o
modelo tradicional do desmatamento. Seu epicentro é na fronteira
sul e chama-se soja. Para entender o poder de avanço desse
fenômeno é preciso retroceder aos anos 70. Naquela
década, o sistema ecológico que ocupa áreas
ao sul da floresta amazônica, o cerrado, era quase um deserto
despovoado. A famosa estrada BelémBrasília era
um arranhão vermelho na mata, um corte limpo no então
chamado "continente perdido" e que vez ou outra era enfrentado por
um caminhoneiro mais destemido. Bem, como se sabe, o cerrado tornou-se
um celeiro de grãos e a estrada poeirenta, um eixo de avanço
do progresso rumo ao norte do país. O cerrado produz 46%
da soja e 41% do gado de corte do país. A área plantada
com o grão no Mato Grosso aumentou 400% desde 1990. A soja
chegou ao Estado no fim da década de 70 e foi inicialmente
cultivada em áreas desmatadas no cerrado perto de Cuiabá.
Em linha reta, em vinte anos, a soja avançou 500 quilômetros
ao norte em direção à floresta. "A soja tem
o poder de expandir a fronteira porque os produtores estão
capitalizados e querem aumentar as lavouras", explica João
Paulo Capobianco, secretário de Biodiversidade e Florestas
do Ministério do Meio Ambiente. Hoje, planta-se soja intensivamente
nos vales do Rio Araguaia e em Sinop, no norte de Mato Grosso. As
fotos de satélite já flagraram plantações
bem mais ao norte.
Araquém Alcantara
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UMA
FÓRMULA DIFÍCIL
Conciliar a preservação da natureza com
o crescimento econômico é possível, mas
só ocorre em poucas áreas da Amazônia |
A
afoiteza dos agricultores de soja não seria um problema ecológico
se não estivesse ligada também ao desmatamento improdutivo,
muitas vezes ilegal, e à pecuária. A soja no cerrado
produz cerca de 3 000 quilos por hectare um pouco mais do
que a obtida nos Estados Unidos. A produtividade do plantio do grão
cresceu 70% em uma década. Graças a isso, não
houve necessidade econômica premente de ampliar a fronteira
agrícola. No restante do país a área plantada
de soja ficou quase estável. Com dinheiro na mão,
o agricultor de soja no Mato Grosso compra áreas antes ocupadas
por pecuaristas que, por sua vez, compram as terras de madeireiros
que se aventuram sobre terras devolutas. No sul do país,
onde as terras valem até vinte vezes o que custam nas fraldas
da Amazônia, o plantador de soja tem de se contentar em aumentar
seus ganhos melhorando a produtividade da área plantada.
Na vizinhança da floresta é diferente. Ali é
mais econômico comprar mais terra dos pecuaristas. Dessa forma,
o ciclo de desmatamento avança para o norte. "O desmatamento
é parte do processo de expansão da fronteira da Amazônia
e deve ser encarado objetivamente. Torna-se um problema quando a
floresta é perdida sem gerar um sistema de produção
agrícola ou pecuária que sirva ao desenvolvimento
econômico e social e ambiental da região", explica
Daniel Nepstad, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazônia (Ipam). Se a soja não alimentasse o ciclo
de expansão sobre a mata, ela seria um ótimo vizinho
para a mata. O problema é que a soja acaba financiando o
pecuarista e este o madeireiro, que é incentivado a ir sempre
mais para o norte, aumentando a área desmatada.
Nos últimos anos, a iniciativa privada tomou o lugar do Estado
como mola propulsora do desbravamento da Amazônia. A região
integrou-se à economia global e tornou-se menos dependente
dos altos e baixos da atividade no Brasil. Assim, mesmo com o país
em marcha lenta, a economia amazônica tende a estar sempre
aquecida. Os preços internacionais de grãos e carne
são acompanhados diariamente pelos fazendeiros. Um relatório
inédito intitulado "Desmatamento na Amazônia: indo
além da emergência crônica", feito pelo Ipam
e obtido por VEJA, mostra que nos últimos dez anos a pecuária
extensiva respondeu por 75% da floresta desmatada na região,
especialmente nas bordas, formando um arco que abrange o Pará,
o norte de Mato Grosso e parte de Rondônia. O rebanho bovino
dobrou entre 1990 e 2001.
Na
fronteira leste, a marcha rumo ao centro do tesouro amazônico
tem outro motor, a impunidade ao corte ilegal de árvores.
As primeiras grandes madeireiras da região foram instaladas
na década de 70 na cidade de Paragominas, no leste do Pará.
Hoje, o barulho dos tratores e das motosserras pode ser ouvido 1.000
quilômetros mais a oeste. Segundo dados do Banco Mundial e
do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon),
metade da madeira vinda da Amazônia é retirada de maneira
ilegal. O principal estímulo à derrubada das árvores
é a alta rentabilidade do negócio. A exploração
madeireira baseada em técnicas de manejo que conservam a
floresta tem um retorno de 71%. Já a derrubada ilegal rende
122%. Além de não pagar impostos nem garantir direitos
trabalhistas mínimos a seus empregados, os madeireiros ilegais
retiram muito mais madeira do que permite um plano de manejo. "As
madeireiras são a vanguarda da ocupação desordenada
da Amazônia, pois instalam a infra-estrutura mínima
para a ocupação posterior e ao mesmo tempo garantem
a posse da terra, na maior parte das vezes grilada", diz Adalberto
Veríssimo, pesquisador do Imazon.
As
estimativas mostram que, a se manter o padrão atual de ocupação
da floresta, nos próximos vinte anos 15% da Amazônia
terá perdido sua cobertura vegetal atual. Em números
absolutos não parece nada alarmante. Mas o ritmo se acentuou
muito. A civilização brasileira levou cinco séculos
para desmatar uma área do mesmo tamanho da que os especialistas
acreditam que vá desaparecer nas próximas duas décadas.
Apesar desses dados, com base no passado recente da região
amazônica e de seu presente, os preservacionistas não
são totalmente pessimistas quanto a seu futuro. Os motivos
de otimismo são a preservação quase total do
coração da selva e o sucesso de atividades econômicas
de baixo impacto ecológico, como as indústrias de
alta tecnologia da Zona Franca de Manaus, as grandes mineradoras
e a exploração do turismo. A constante monitoração
por satélite de toda a região é outra razão
de esperança. Os primeiros satélites não distinguiam
uma clareira natural de outra provocada por desmatamento. Para aparecer
na fotografia tirada do espaço, a área afetada deveria
ter no mínimo 8 quilômetros quadrados. As fotos atuais
permitem determinar que tipo de cobertura cada área tem e
flagram clareiras quando ainda têm apenas 100 metros quadrados.
Com a entrada em operação dos dezenove radares e dos
oito aviões do Sistema de Vigilância da Amazônia
(Sivam), o esquadrinhamento da região está se tornando
uma operação de alta precisão que fornece aos
pesquisadores dados sobre a qualidade da água dos rios e
até o movimento de cardumes. Os focos de agressão
podem ser detectados com toda a precisão. Agora basta aplicar
a lei.
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