Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Haiti
De mal a pior

Revolta pode tirar Aristide
do poder no Haiti.
E desta vez
os EUA não pretendem salvá-lo

Reuters
Presidente Aristide: fraude e corrupção

Dez anos atrás, com apoio internacional, os Estados Unidos invadiram o Haiti para devolver o poder ao presidente Jean-Bertrand Aristide. Eleito no primeiro pleito democrático da história haitiana, ele fora deposto por um golpe militar. Na época, poucos anos depois do colapso da União Soviética, a doutrina americana era não tolerar golpes ou ditaduras nas Américas. Havia ainda uma razão pragmática: o caos tinha provocado um êxodo em massa de 30.000 haitianos em embarcações precárias rumo à Flórida. Na semana passada, o Haiti estava novamente mergulhado em confusão e matança. Rebelados contra Aristide, milicianos a soldo de caudilhos regionais tinham tomado várias cidades do interior e preparavam o assalto à capital, Porto Príncipe. Há dezenas de mortos e começa a faltar comida na cidade. A Casa Branca estima que, se as coisas piorarem, o êxodo de refugiados poderá chegar a 50.000 pessoas. Ainda assim, os Estados Unidos querem distância da encrenca. Uma razão é que estão ocupados com outro conflito, no Iraque. A outra é que a maioria dos países vê com desesperança a possibilidade de pôr ordem no Haiti, a nação mais pobre das Américas. Por fim, há o fato de Aristide ser um péssimo presidente.

Padre popular devido a seu trabalho comunitário nas favelas de Porto Príncipe, Aristide largou a batina quando entrou na política. Revelou-se uma decepção. Seus dez anos de governo em nada melhoraram a situação de miséria e desespero no Haiti, onde metade da população de 7,5 milhões de pessoas é subnutrida. Os partidos de oposição acusam o presidente de corrupção e de ter fraudado os resultados das eleições parlamentares do início de 2000 – e parece que têm razão em ambos os casos. Como protesto, boicotaram a eleição presidencial no fim daquele ano. Sem adversários, Aristide foi reeleito com facilidade. Na época, como punição, o Haiti parou de receber ajuda anual de 500 milhões de dólares do Banco Mundial. O embargo foi inócuo: o presidente continuou no poder, a miséria aumentou. Para piorar, o presidente recusa-se a negociar com a oposição uma saída política. "Os Estados Unidos estão pagando pelo erro de ter reconhecido a reeleição de Aristide", disse a VEJA o cientista político americano Robert Fatton Junior, autor de vários livros sobre o Haiti.

Os rebelados, infelizmente, não são melhores. A principal milícia é a Frente de Resistência de Artibonite. Ex-aliada do presidente, a organização mudou de lado e de nome. Antes era conhecida como Exército Canibal, o que dá uma idéia de sua truculência. A milícia pró-Aristide é chamada de Monstros. Grupos armados de saudosistas da ditadura da família Duvalier, que governou o país por trinta anos, também entraram na briga. O Haiti não tem mais Exército, dissolvido por Aristide em 1994, apenas uma força policial de 5.000 homens. A distribuição de alimentos na capital depende das estradas que ligam a cidade ao interior, a maioria sob domínio de bandos rebeldes. A situação vai de mal a pior.

 
 
 
 
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