Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Estados Unidos
Até que a lei os separe

São Francisco libera matrimônio gay
e faz 2 600 casamentos em cinco dias

 
Reuters

Lésbicas festejam depois de receber a certidão: alguns tiveram de esperar mais de um dia na fila

A cidade americana de São Francisco, na Califórnia, é conhecida por sua convivência pacífica com uma grande comunidade de homossexuais. Na semana passada, essa relação especial alcançou um patamar inédito. Há duas semanas, o prefeito Gavin Newsom – democrata, 36 anos, heterossexual e casado – liberou o casamento entre gays. Desde então, centenas de casais do mesmo sexo, alguns vindos de outros Estados e até uma brasileira, Marta Donayre, 34 anos, que trocou alianças com uma americana com quem vive há quatro anos, apresentam-se diariamente na prefeitura de São Francisco. Muitos acampam em frente ao prédio durante a noite para garantir um lugar. Apesar da espera de mais de um dia em alguns casos, o ambiente na fila é de festa e muitas mulheres aguardam vestidas de noiva. Em apenas cinco dias, foram concedidas 2.600 certidões de casamento, 825 só na terça-feira. Para atender os casais, a prefeitura precisou fazer um mutirão e manteve as portas abertas no fim de semana.

A demora não parece incomodar ninguém. Ao contrário, a longa fila converteu-se numa espécie de grande festa de casamento. Doug Benson, 50 anos, e Duane Gajewski, 40, vieram de outro Estado e entraram na fila às 4 horas da madrugada de terça-feira. Só conseguiram se casar no início da tarde, mas a demora não os incomodou. "Meus pais se casaram aqui, na II Guerra. Então, isso é muito especial para mim", disse Benson. Morador de Chicago, no norte dos Estados Unidos, o dançarino Massimo Pacilli viajou para a Califórnia para oficializar sua relação com o companheiro Geoff Myers. "Este é o dia mais feliz da minha vida", disse Massimo. "Nunca pensei que chegaria".

São Francisco é a primeira cidade americana a liberar casamentos gays. No Estado de Massachusetts, a Justiça determinou que esse tipo de união comece a valer a partir de maio. A decisão foi possível porque nos Estados Unidos o matrimônio não é regido por uma lei federal. Ainda assim, as certidões de casamento correm o risco de ser anuladas. Isso é o que pedem grupos conservadores que entraram na Justiça baseados na lei estadual que proíbe casamentos de pessoas do mesmo sexo. O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, apelou para que a prefeitura de São Francisco respeite a lei estadual e pare de emitir certidões de casamento para os gays.

As coloridas filas diante da prefeitura de São Francisco ameaçam colocar o assunto casamento gay no centro da campanha eleitoral pela Presidência – por mais que os candidatos prefiram distância do assunto. O presidente George W. Bush estuda a proposta de uma emenda à Constituição definindo o casamento como a união entre um homem e uma mulher. Se aprovar o projeto, irá se indispor com o bem articulado lobby gay. Mas também poderá conquistar votos para sua reeleição. De acordo com pesquisa do Instituto Gallup, 59% dos americanos acham que os casamentos entre homossexuais devem ser anulados. Enquanto não houver uma decisão judicial, o prefeito Gavin Newsom permanece decidido a continuar. "A legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo é algo inevitável. Cedo ou tarde vai acontecer", diz Newsom.

 
 
 
 
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