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Angola
Os
caçadores de minas
Limpador
de campos minados é um dos
poucos empregos abundantes em Angola

Diogo
Schelp
A
guerra civil em Angola terminou há dois anos e deixou uma
herança especialmente perversa: os campos minados. Existem
6 milhões de minas no solo de Angola, uma para cada dois
habitantes. Os acidentes com esses explosivos só aumentaram
com a paz. O motivo é que os angolanos que foram expulsos
de suas terras e de suas casas durante a guerra um terço
da população estão voltando. Eles encontram
o perigo por toda parte. Morre-se viajando pelas estradas, semeando
o campo ou passeando ao redor das aldeias. Mais de 70.000 angolanos
têm uma parte do corpo amputada por explosões. Os campos
minados limitam a agricultura de subsistência, atividade que
dá sustento a 85% da população. Para muitos
dos refugiados que voltam para suas regiões, uma das poucas
opções de emprego é a de caçador de
minas antipessoais. Eles recebem um colete para proteger os órgãos
vitais, uma viseira para o rosto e, com as mãos nuas, desativam
um por um os artefatos explosivos que foram previamente localizados
com detectores de metal. É um trabalho sem fim à vista.
No ano passado, as equipes comandadas pelo governo angolano
e por seis organizações não-governamentais
de diversos países conseguiram desativar apenas 6.000 minas,
ao custo de 1.000 dólares cada uma. Para o total de bombas
existente, 6 milhões, é uma gota no oceano. Pior:
algumas são muito difíceis de encontrar porque são
feitas de plástico.
A mina terrestre é uma arma terrível porque afeta
principalmente civis, é barata algumas custam apenas
3 dólares e continua matando mesmo depois de terminada
a guerra. No conflito de 27 anos entre o partido do governo angolano,
o MPLA, e os rebeldes da Unita, as minas eram um instrumento eficiente
para impedir o avanço do inimigo ou para isolar uma área.
Em 2002, com a morte do líder da Unita, Jonas Savimbi, o
processo de paz tornou-se possível. Foi feita uma lei de
anistia geral para todos os crimes cometidos durante o conflito.
Mais de 100.000 combatentes rebeldes entregaram as armas. As primeiras
eleições para presidente desde o fim da guerra devem
acontecer no ano que vem. Falta ainda fazer um acordo com rebeldes
separatistas da região de Cabinda, enclave rico em petróleo
que fica ao norte do país. A guerra civil matou mais de 1
milhão de pessoas e arrasou Angola, ex-colônia de Portugal
que foi um dos últimos países africanos a conquistar
a independência, em 1975.
A reconstrução de Angola depende em boa parte da limpeza
das minas. Até hoje, o único meio de transporte viável
é o avião, já que 40% dos povoados estão
cercados de campos minados. Não é à toa que
existem no país 244 aeroportos e apenas uma em cada quatro
estradas seja pavimentada. Para asfaltar o resto, é preciso
primeiro tirar os explosivos do caminho. A dificuldade de locomoção
também prejudica a chegada de ajuda humanitária à
população miserável. Cerca de 1,8 milhão
de pessoas dependem de assistência alimentar da ONU para sobreviver.
E menos de 30% dos angolanos têm acesso a atendimento médico.
Isso em um país rico em reservas de petróleo e de
diamante e com um crescimento econômico de 9% previsto para
este ano. O governo do presidente José Eduardo dos Santos,
que está há 24 anos no poder, argumenta que Angola
tem pouco tempo de paz e que ainda vai melhorar muito.
A ONG Human Rights Watch tem outra versão para as dificuldades
angolanas: a de que a guerra serviu de desculpa para a rapina do
dinheiro público. Segundo relatório divulgado pela
organização no mês passado, o governo do MPLA
desviou em cinco anos 4,2 bilhões de dólares da receita
com a exploração de petróleo. Dos vinte angolanos
mais ricos, com patrimônio de 100 milhões de dólares
ou mais, sete são altos funcionários do governo. A
corrupção também é praticada por militares
e ex-comandantes da Unita, que dominam a extração
de diamantes. A Justiça mal funciona. Apenas 15% dos tribunais
municipais estão ativos. Se não faltam corruptos,
petróleo, diamantes e minas terrestres no país, há
escassez de todo o resto. A maioria dos produtos industrializados
é importada, inclusive alimentos. Como moradia com água
encanada, luz e esgoto é raridade, o aluguel de uma casa
que no Brasil seria considerada de padrão médio chega
ao valor equivalente a 10.000 reais por mês. As diárias
dos hotéis custam o dobro do que se cobra no Brasil. Os vôos
semanais de Luanda ao Rio de Janeiro são lotados de sacoleiros,
que vendem a preço de ouro em Angola os produtos que compram
aqui. Com uma taxa de desemprego de 70%, são poucos os angolanos
que podem pagar por esses produtos. A maioria depende de ajuda humanitária
e de que a retirada das minas que infestam o país avance,
para poder voltar para sua terra.
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