Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Angola
Os caçadores de minas

Limpador de campos minados é um dos
poucos empregos abundantes em Angola


Diogo Schelp

A guerra civil em Angola terminou há dois anos e deixou uma herança especialmente perversa: os campos minados. Existem 6 milhões de minas no solo de Angola, uma para cada dois habitantes. Os acidentes com esses explosivos só aumentaram com a paz. O motivo é que os angolanos que foram expulsos de suas terras e de suas casas durante a guerra – um terço da população – estão voltando. Eles encontram o perigo por toda parte. Morre-se viajando pelas estradas, semeando o campo ou passeando ao redor das aldeias. Mais de 70.000 angolanos têm uma parte do corpo amputada por explosões. Os campos minados limitam a agricultura de subsistência, atividade que dá sustento a 85% da população. Para muitos dos refugiados que voltam para suas regiões, uma das poucas opções de emprego é a de caçador de minas antipessoais. Eles recebem um colete para proteger os órgãos vitais, uma viseira para o rosto e, com as mãos nuas, desativam um por um os artefatos explosivos que foram previamente localizados com detectores de metal. É um trabalho sem fim à vista. No ano passado, as equipes comandadas pelo governo angolano e por seis organizações não-governamentais de diversos países conseguiram desativar apenas 6.000 minas, ao custo de 1.000 dólares cada uma. Para o total de bombas existente, 6 milhões, é uma gota no oceano. Pior: algumas são muito difíceis de encontrar porque são feitas de plástico.

A mina terrestre é uma arma terrível porque afeta principalmente civis, é barata – algumas custam apenas 3 dólares – e continua matando mesmo depois de terminada a guerra. No conflito de 27 anos entre o partido do governo angolano, o MPLA, e os rebeldes da Unita, as minas eram um instrumento eficiente para impedir o avanço do inimigo ou para isolar uma área. Em 2002, com a morte do líder da Unita, Jonas Savimbi, o processo de paz tornou-se possível. Foi feita uma lei de anistia geral para todos os crimes cometidos durante o conflito. Mais de 100.000 combatentes rebeldes entregaram as armas. As primeiras eleições para presidente desde o fim da guerra devem acontecer no ano que vem. Falta ainda fazer um acordo com rebeldes separatistas da região de Cabinda, enclave rico em petróleo que fica ao norte do país. A guerra civil matou mais de 1 milhão de pessoas e arrasou Angola, ex-colônia de Portugal que foi um dos últimos países africanos a conquistar a independência, em 1975.

A reconstrução de Angola depende em boa parte da limpeza das minas. Até hoje, o único meio de transporte viável é o avião, já que 40% dos povoados estão cercados de campos minados. Não é à toa que existem no país 244 aeroportos e apenas uma em cada quatro estradas seja pavimentada. Para asfaltar o resto, é preciso primeiro tirar os explosivos do caminho. A dificuldade de locomoção também prejudica a chegada de ajuda humanitária à população miserável. Cerca de 1,8 milhão de pessoas dependem de assistência alimentar da ONU para sobreviver. E menos de 30% dos angolanos têm acesso a atendimento médico. Isso em um país rico em reservas de petróleo e de diamante e com um crescimento econômico de 9% previsto para este ano. O governo do presidente José Eduardo dos Santos, que está há 24 anos no poder, argumenta que Angola tem pouco tempo de paz e que ainda vai melhorar muito.

A ONG Human Rights Watch tem outra versão para as dificuldades angolanas: a de que a guerra serviu de desculpa para a rapina do dinheiro público. Segundo relatório divulgado pela organização no mês passado, o governo do MPLA desviou em cinco anos 4,2 bilhões de dólares da receita com a exploração de petróleo. Dos vinte angolanos mais ricos, com patrimônio de 100 milhões de dólares ou mais, sete são altos funcionários do governo. A corrupção também é praticada por militares e ex-comandantes da Unita, que dominam a extração de diamantes. A Justiça mal funciona. Apenas 15% dos tribunais municipais estão ativos. Se não faltam corruptos, petróleo, diamantes e minas terrestres no país, há escassez de todo o resto. A maioria dos produtos industrializados é importada, inclusive alimentos. Como moradia com água encanada, luz e esgoto é raridade, o aluguel de uma casa que no Brasil seria considerada de padrão médio chega ao valor equivalente a 10.000 reais por mês. As diárias dos hotéis custam o dobro do que se cobra no Brasil. Os vôos semanais de Luanda ao Rio de Janeiro são lotados de sacoleiros, que vendem a preço de ouro em Angola os produtos que compram aqui. Com uma taxa de desemprego de 70%, são poucos os angolanos que podem pagar por esses produtos. A maioria depende de ajuda humanitária e de que a retirada das minas que infestam o país avance, para poder voltar para sua terra.

 
 
 
 
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