Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Política
A nova rotina de Collor

O ex-presidente paga 38 500 reais de
aluguel por mês para morar em São Paulo,
está reformando a Casa da Dinda, em
Brasília, e fala em voltar à política


Sandra Brasil


Ana Araujo
UM CIDADÃO COMUM
O ex-presidente conversa com passageira em vôo para Brasília: alguns o ignoram, outros se escondem

Doze anos após o impeachment, o ex-presidente Fernando Collor continua a ser reconhecido por onde passa, seja na sala de embarque do aeroporto, seja no restaurante ou na fila do cinema. Muitos o cumprimentam, outros fingem não tê-lo visto. "Há os que são simpáticos, mas, de modo geral, as pessoas protestam me ignorando", afirma o ex-presidente. A maior parte dos amigos dos tempos da Presidência o abandonou, diz Collor. E ele acabou deixando tudo o que o fazia lembrar da passagem traumática pelo poder, como a Casa da Dinda, que foi sua residência oficial. O jardim milionário construído durante o mandato foi devorado pelo mato. As fontes quebraram. Há sinais de decadência por toda parte, pintura descascada e mofo. Meses atrás, um ladrão passou por lá e levou um dos três jet skis usados por Collor nos fins de semana diante dos fotógrafos. Até mesmo Fidel Castro suspendeu a remessa regular de charutos da marca Hoyo de Monterrey tamanho doble corona. Collor agora precisa comprá-los.


Ana Ottoni/Folha Imagem
NA ALEGRIA E NA TRISTEZA
Collor e a mulher, Rosane: apoio nos momentos difíceis e compromissos sociais intensos

Mas o ex-presidente continua animado, até mesmo com um eventual retorno à política. Fernando Collor já fez duas tentativas. Na primeira, lançou-se candidato a prefeito de São Paulo em 2000, mas acabou impugnado. Em 2002 disputou o governo de Alagoas. Começou como favorito, mas terminou derrotado no primeiro turno pelo governador Ronaldo Lessa, que se reelegeu. Nos últimos dias, Collor tem dito a amigos que encontrou nova razão para lutar. O Tribunal Superior Eleitoral aprecia uma ação impetrada por seus advogados na qual o ex-presidente pede a destituição do governador Lessa. Alega em seu processo ter provas de uso indevido da máquina administrativa visando à reeleição. Caso a decisão dos juízes lhe seja favorável, diz Collor, abre-se uma possibilidade jurídica para que pleiteie sua condução ao cargo, a exemplo do que ocorreu anos atrás no Piauí. O então governador Mão Santa foi cassado por irregularidades cometidas em campanha, e a Justiça decidiu entregar o cargo ao segundo colocado, Hugo Napoleão. A votação começou em dezembro e foi interrompida várias vezes. Três juízes já deram veredicto. Collor está perdendo por enquanto por 2 a 1. Ainda faltam quatro votos. O ex-presidente classifica a batalha como a maior em que se envolve desde o impeachment. De meados do ano passado para cá, Collor viaja para Brasília com freqüência para acompanhar o desenrolar da ação.


Ana Araujo
OS AMIGOS O DEIXARAM SÓ
O ex-presidente em encontro político em Brasília: "Dos tempos de poder não sobrou ninguém"

Sua dedicação ao processo contra Lessa é, no entanto, a única manifestação visível do interesse do ex-presidente pela política. Embora declare estar trabalhando com a hipótese de assumir o governo estadual por meio dos tribunais, Collor mantém uma rotina própria de quem parece ter abandonado a vida pública – pelo menos temporariamente. O grupo de comunicação pertencente à família, as Organizações Arnon de Mello, que possuem rádio, TV e jornal em Alagoas, está formalmente sob o comando de seu filho Joaquim. A relação de Collor com a empresa se dá em duas frentes: uma quase diária, quando palpita sobre negócios ou pede que o jornal publique alguma notícia de seu interesse. A outra é mensal. É dali que o ex-presidente informa retirar o dinheiro para manter seu sustento. Collor não fala em números, mas o montante parece ser suficiente para oferecer a ele e à ex-primeira-dama Rosane Collor um padrão de vida confortável. O casal se estabeleceu há algum tempo numa casa de quatro andares e 1.500 metros quadrados de área construída localizada no bairro do Morumbi, em São Paulo. Segundo a proprietária do imóvel, o ex-presidente paga um aluguel de 38.500 reais por mês. Quando está na capital paulista, circula a bordo de um automóvel BMW com motorista. Antes de se mudar para São Paulo, o ex-presidente passou uma longa temporada em Miami. Daquele período, mantém o pagamento das prestações do financiamento de uma casa de 3 milhões de dólares que comprou por lá. As mensalidades consomem cerca de 12.000 reais.

Collor passa a maior parte do dia em casa. Sem muita disciplina, dedica-se à conclusão de um livro de memórias cuja versão mais recente tem quase 700 páginas. À noite, a vida social do casal é intensa. São muitos os convites para festas e inaugurações. Elegante como sempre foi, comparece aos compromissos com blazers e ternos bem cortados. Prefere os da marca Salvatore Ferragamo. Aos fins de semana, Collor e Rosane se reúnem para jogar tranca com amigos paulistas, como o casal Beth e Gabriel Szafir, pais do ator Luciano Szafir. Mas não é só. Collor participa de encontros promovidos por confrarias de vinho, paixão à qual ele se dedica com seriedade nos últimos tempos. Recentemente, durante um almoço em Brasília, pediu uma garrafa do vinho francês Château Beau-Séjour Bécot Saint-Emilion, vendido por 500 reais no restaurante Piantella.

Aos 54 anos, o ex-presidente mantém o peso entre 88 e 90 quilos, o mesmo que tinha quando assumiu a Presidência. Para isso, acorda cedo todos os dias, por volta das 6 da manhã, nada e faz ginástica. Três vezes por semana recebe a visita de um personal trainer. Depois disso, toma banho e lê jornais. Um cuidado adicional é seguir religiosamente as instruções passadas por uma nutricionista, que todo mês prepara um cardápio balanceado para ele e Rosane. Collor recorreu a alguns truques que lhe dão um aspecto mais jovial. Um deles foi o recapeamento dos dentes. O outro foi a decisão de pintar o cabelo num tom levemente alourado. Os retoques são feitos quinzenalmente por um cabeleireiro que o visita em casa. Collor assegura que nunca fez cirurgia plástica, como alguns dizem, mas admite ter recorrido ao Botox.

 
A decadência da casa da Dinda

Collor ficou seis anos sem colocar os pés na casa em que morou em seus anos de presidente. O mato tomou conta, a pintura descascou, as fontes do jardim milionário secaram e um jet ski foi roubado. Agora, ele começa a reformar o imóvel


Nos tempos da Presidência...


Fotos Ana Araujo

 

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