|
|
Governo
Digitais da espionagem
PT
acusa tucanos de conspirar,
mas a PF descobre que a trama
passa pela polícia do PMDB

Alexandre
Oltramari
Dida Sampaio/AE
 |
|
NÃO
É COMIGO
O
governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, diz que o assunto
não é do governo: "É caso de polícia"
|
Sempre que explode um escândalo de corrupção
envolvendo figurões de governo logo surge uma teoria da conspiração
às vezes tão interessante quanto a denúncia
em si. A estréia do PT na posição de alvo não
mudou a regra. Tão logo apareceu a fita de vídeo com
as imagens do ex-subchefe da Casa Civil Waldomiro Diniz extorquindo
um bicheiro, um grupo de petistas se dedicou a tentar identificar
as origens da denúncia. O presidente do partido, José
Genoíno, foi o primeiro a chegar a um veredicto. As gravações,
segundo ele, teriam sido feitas por arapongas a serviço do
candidato derrotado nas eleições presidenciais, o
tucano José Serra. Dedução elementar, meu caro
Genoíno. Afinal, as fitas foram gravadas em 2002, no período
pré-eleitoral. Uma delas, inclusive, foi confeccionada no
interior do departamento de segurança de uma repartição
pública que à época era tucana, a Infraero,
que cuida dos aeroportos. A curiosidade sobre os passos do ex-assessor
Waldomiro Diniz era tamanha que, em determinado instante, a vigilância
tenta captar detalhes sobre o conteúdo de um saco plástico
que ele carregava nas mãos. Além disso, quem recebeu
as fitas de um estranho entregador anônimo foi um senador
tucano, Antero Paes de Barros. Nada mais elementar, portanto, em
José Genoíno concluir que havia o dedo de José
Serra, certo? Nem tanto.
As investigações da Polícia Federal apontam
para a direção contrária. O inimigo conspirador
pode ser muito mais íntimo do que se imagina. Na semana passada,
VEJA teve acesso a um documento da Infraero revelando que as imagens
do encontro de Waldomiro Diniz e do bicheiro Carlos Cachoeira no
aeroporto foram realmente feitas pela segurança da estatal
e não por obra do acaso , atendendo a uma solicitação
da polícia de Brasília, em uma investigação
classificada como confidencial. Dias depois da gravação,
um policial apareceu na Infraero e requisitou cópias das
fitas. Levou as originais e nunca mais devolveu. Antes, porém,
assinou um protocolo de retirada, datado de 5 de junho de 2002.
Quem recebeu a gravação foi o policial Gilson Simões
Ramos Filho. Há um ano, a PF investiga um grupo de policiais
suspeito de atuar clandestinamente na campanha política do
governador Joaquim Roriz, do PMDB partido que recentemente
passou a fazer parte da base de apoio ao governo e, em troca, recebeu
o comando de dois ministérios.
A gravação retirada da Infraero pela polícia
do Distrito Federal tem aproximadamente 120 minutos. Ela foi feita
entre as 10 e as 12 horas de 20 de maio de 2002. Nesse horário,
a central de monitoramento da Infraero no aeroporto de Brasília
era operada por Leopoldo Eduardo Campos e Abdias Valente de Miranda.
Os dois funcionários estavam instalados numa área
restrita de aproximadamente 12 metros quadrados no último
andar do prédio, de onde comandavam 86 câmeras que
vigiam as dependências do aeroporto. Na semana passada, eles
foram ouvidos numa sindicância aberta para apurar a responsabilidade
pela gravação. Contaram aos investigadores que gravaram
as imagens de Waldomiro Diniz por ordem de outros três policiais
do Distrito Federal. Um deles, Delar Roberto Stecanela Savi, costumava
dar plantão no aeroporto e foi reconhecido por meio de uma
fotografia. Ele está lotado na mesma delegacia do agente
que retirou a fita do aeroporto quinze dias depois de a gravação
ter sido realizada. Na semana passada, VEJA procurou os policiais,
mas nenhum deles foi encontrado no local de trabalho nem retornou
as ligações.
Ed Ferreira/AE
 |
|
POR
ACASO
O
senador Antero Paes de Barros, do PSDB, que recebeu as fitas:
denúncia anônima em um envelope
|
Na época da gravação, o governador Joaquim
Roriz estava em plena campanha eleitoral. Disputava a reeleição
contra o petista Geraldo Magela, para cuja campanha Waldomiro Diniz
admitiu ter entregue 100.000 reais que foram extorquidos do bicheiro
Carlinhos Cachoeira. A Polícia Federal, a pedido do Ministério
Público, abriu um inquérito, ainda em andamento, para
investigar a denúncia de que policiais civis estavam recebendo
dinheiro para fazer campanha para Roriz. O delegado Miguel Lucena,
da polícia do Distrito Federal, disse que uma coisa nada
tem a ver com a outra. Os agentes estavam investigando um caso de
duplo assassinato na época em que as gravações
foram feitas no aeroporto. "O suspeito do homicídio disse
que tinha viajado para Fortaleza no dia do crime e a polícia
pediu a fita para conferir a informação", justificou.
A história faria algum sentido se a gravação
não tivesse acontecido catorze dias depois do crime. Além
disso, a filmagem se concentra nos deslocamentos de Waldomiro e
do bicheiro no interior do aeroporto. Fora a dupla, não aparece
mais ninguém na fita. Fatos como esse, embora em nada ajudem
a salvar a pele de um servidor corrupto, servem para alimentar mirabolantes
teorias de conspiração, como essa, de que o PMDB de
Roriz pode estar por trás da gravação das fitas.
José Genoíno, que levantou suspeitas sobre o PSDB,
reconhece: "O Roriz sempre foi mesmo contra nossa aliança".
Elementar de novo, meu caro Genoíno.
|