Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Governo
Digitais da espionagem

PT acusa tucanos de conspirar,
mas a PF descobre que a trama
passa pela polícia do PMDB


Alexandre Oltramari

Dida Sampaio/AE

NÃO É COMIGO
O governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, diz que o assunto não é do governo: "É caso de polícia"


Sempre que explode um escândalo de corrupção envolvendo figurões de governo logo surge uma teoria da conspiração às vezes tão interessante quanto a denúncia em si. A estréia do PT na posição de alvo não mudou a regra. Tão logo apareceu a fita de vídeo com as imagens do ex-subchefe da Casa Civil Waldomiro Diniz extorquindo um bicheiro, um grupo de petistas se dedicou a tentar identificar as origens da denúncia. O presidente do partido, José Genoíno, foi o primeiro a chegar a um veredicto. As gravações, segundo ele, teriam sido feitas por arapongas a serviço do candidato derrotado nas eleições presidenciais, o tucano José Serra. Dedução elementar, meu caro Genoíno. Afinal, as fitas foram gravadas em 2002, no período pré-eleitoral. Uma delas, inclusive, foi confeccionada no interior do departamento de segurança de uma repartição pública que à época era tucana, a Infraero, que cuida dos aeroportos. A curiosidade sobre os passos do ex-assessor Waldomiro Diniz era tamanha que, em determinado instante, a vigilância tenta captar detalhes sobre o conteúdo de um saco plástico que ele carregava nas mãos. Além disso, quem recebeu as fitas de um estranho entregador anônimo foi um senador tucano, Antero Paes de Barros. Nada mais elementar, portanto, em José Genoíno concluir que havia o dedo de José Serra, certo? Nem tanto.

As investigações da Polícia Federal apontam para a direção contrária. O inimigo conspirador pode ser muito mais íntimo do que se imagina. Na semana passada, VEJA teve acesso a um documento da Infraero revelando que as imagens do encontro de Waldomiro Diniz e do bicheiro Carlos Cachoeira no aeroporto foram realmente feitas pela segurança da estatal – e não por obra do acaso –, atendendo a uma solicitação da polícia de Brasília, em uma investigação classificada como confidencial. Dias depois da gravação, um policial apareceu na Infraero e requisitou cópias das fitas. Levou as originais e nunca mais devolveu. Antes, porém, assinou um protocolo de retirada, datado de 5 de junho de 2002. Quem recebeu a gravação foi o policial Gilson Simões Ramos Filho. Há um ano, a PF investiga um grupo de policiais suspeito de atuar clandestinamente na campanha política do governador Joaquim Roriz, do PMDB – partido que recentemente passou a fazer parte da base de apoio ao governo e, em troca, recebeu o comando de dois ministérios.

A gravação retirada da Infraero pela polícia do Distrito Federal tem aproximadamente 120 minutos. Ela foi feita entre as 10 e as 12 horas de 20 de maio de 2002. Nesse horário, a central de monitoramento da Infraero no aeroporto de Brasília era operada por Leopoldo Eduardo Campos e Abdias Valente de Miranda. Os dois funcionários estavam instalados numa área restrita de aproximadamente 12 metros quadrados no último andar do prédio, de onde comandavam 86 câmeras que vigiam as dependências do aeroporto. Na semana passada, eles foram ouvidos numa sindicância aberta para apurar a responsabilidade pela gravação. Contaram aos investigadores que gravaram as imagens de Waldomiro Diniz por ordem de outros três policiais do Distrito Federal. Um deles, Delar Roberto Stecanela Savi, costumava dar plantão no aeroporto e foi reconhecido por meio de uma fotografia. Ele está lotado na mesma delegacia do agente que retirou a fita do aeroporto quinze dias depois de a gravação ter sido realizada. Na semana passada, VEJA procurou os policiais, mas nenhum deles foi encontrado no local de trabalho nem retornou as ligações.

Ed Ferreira/AE

POR ACASO
O senador Antero Paes de Barros, do PSDB, que recebeu as fitas: denúncia anônima em um envelope


Na época da gravação, o governador Joaquim Roriz estava em plena campanha eleitoral. Disputava a reeleição contra o petista Geraldo Magela, para cuja campanha Waldomiro Diniz admitiu ter entregue 100.000 reais que foram extorquidos do bicheiro Carlinhos Cachoeira. A Polícia Federal, a pedido do Ministério Público, abriu um inquérito, ainda em andamento, para investigar a denúncia de que policiais civis estavam recebendo dinheiro para fazer campanha para Roriz. O delegado Miguel Lucena, da polícia do Distrito Federal, disse que uma coisa nada tem a ver com a outra. Os agentes estavam investigando um caso de duplo assassinato na época em que as gravações foram feitas no aeroporto. "O suspeito do homicídio disse que tinha viajado para Fortaleza no dia do crime e a polícia pediu a fita para conferir a informação", justificou. A história faria algum sentido se a gravação não tivesse acontecido catorze dias depois do crime. Além disso, a filmagem se concentra nos deslocamentos de Waldomiro e do bicheiro no interior do aeroporto. Fora a dupla, não aparece mais ninguém na fita. Fatos como esse, embora em nada ajudem a salvar a pele de um servidor corrupto, servem para alimentar mirabolantes teorias de conspiração, como essa, de que o PMDB de Roriz pode estar por trás da gravação das fitas. José Genoíno, que levantou suspeitas sobre o PSDB, reconhece: "O Roriz sempre foi mesmo contra nossa aliança". Elementar de novo, meu caro Genoíno.

 
NO RESTAURANTE...
As câmeras da Infraero acompanharam Waldomiro Diniz por todo o aeroporto
...NO SAGUÃO...
Sempre carregando uma sacola branca, ele se encontra com o bicheiro

 

...NO EMBARQUE...
As câmeras de vigilância seguiram o ex-assessor por mais de duas horas

...NO RAIO X
Não escapou nem o detalhe do momento em que a sacola passava na inspeção

 
 
 
 
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