|
|
Governo
A operação abafa
do PT
Governo
usa métodos que sempre
criticou quando era oposição para
impedir a criação de CPI

Malu
Gaspar
Dida Sampaio/AE
 |
IRRITAÇÃO
José Dirceu: para o governo, o caso Waldomiro estava encerrado,
mas boatos sobre sua demissão provocaram a queda da bolsa |
O
governo se esforçou o quanto pôde na semana passada
para tentar isolar dois Waldomiros. Segundo tentou fazer entender
o governo petista, haveria o extorsionário Waldomiro Diniz,
que apareceu numa fita de vídeo pedindo dinheiro a um bicheiro,
na campanha de 2002. E haveria outro Waldomiro, também de
sobrenome Diniz, que era subchefe da Casa Civil, o poderoso assessor
do ministro José Dirceu. Como as duas personas eram uma pessoa
só, a manobra não deu o resultado esperado pelo Palácio
do Planalto. A verdade é que Waldomiro Diniz manteve encontros
impróprios também quando já era do governo.
Ele confidenciou a um amigo que se reuniu, já na condição
de subchefe da Casa Civil, com representantes de uma multinacional
que opera os jogos de loteria da Caixa Econômica Federal.
"Duas ou três vezes em um hotel de Brasília", disse.
A empresa, GTech, tem um gigantesco contrato com a Caixa Econômica,
que estava para terminar mas acabou sendo prorrogado por mais dois
anos, apesar de pareceres técnicos contrários. Ruim
para Waldomiro e também ruim para seu ex-chefe, o ministro
da Casa Civil, José Dirceu. Waldomiro, como se sabe, era
mais do que um simples assessor. Circulava com desembaraço
entre empresários e políticos, usando da condição
de amigo e braço direito do mais poderoso ministro do governo.
Na semana passada, a oposição tentou criar uma CPI
para saber até que ponto Waldomiro agia por conta própria.
O governo não permitiu. Foi uma semana de constrangimentos
para o ministro José Dirceu, atormentado pela sombra do ex-assessor.
E o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acabrunhado, perdeu
a compulsão de fazer discursos um atrás do outro.
Na última semana, Lula estava calado.
Sem ter como negar a proximidade com Waldomiro, Dirceu se disse
traído pelo ex-assessor. Chegou a comentar com o presidente
a possibilidade de deixar o governo. Lula, porém, não
aceitou a hipótese e orientou seus líderes a defender
o ministro. Ainda assim a bolsa despencou com os boatos da saída
de Dirceu. "Estou decepcionado, muito decepcionado", disse ele.
Na segunda-feira, o ministro foi ao Congresso e, numa nota lacônica,
deu o caso como encerrado, lembrando que Waldomiro já havia
sido afastado e que a história da propina ocorreu antes das
eleições. Simultaneamente, os partidos aliados começaram
a se articular para impedir a instalação de uma CPI.
Dirceu estava irritado. Em audiência com o presidente, enxergou
vestígios de conspiração contra ele, não
poupou críticas aos companheiros de ministérios nem
ao próprio PT. Em uma reunião do chamado núcleo
duro do governo, o ministro estranhou a passividade com que alguns
colegas agiram no caso. Reclamou particularmente do ministro da
Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que se mostrava desinformado
sobre as investigações da polícia acerca do
caso Waldomiro, e do ministro Luiz Gushiken, que, na avaliação
de Dirceu, poderia ter ajudado o governo a se antecipar ao escândalo
embora não tenha explicado como. Dirceu também
ficou agastado com o senador Aloizio Mercadante, líder do
governo, que sugeriu a criação de uma CPI mais ampla,
que investigaria outras denúncias de corrupção.
As declarações de Mercadante, segundo ele, contribuíram
apenas para acirrar ainda mais o clima de hostilidade entre governo
e oposição, quando a situação parecia
estar sob controle. Espécie de gerente do governo, Dirceu
passou a semana administrando a própria crise.
Ed Ferreira/AE
 |
SILÊNCIO
O presidente Lula não aceitou sequer discutir a hipótese
de Dirceu deixar o governo, mas passou a semana calado, pela
primeira vez desde que assumiu |
O
ministro articulou pessoalmente a estratégia para evitar
a CPI. Acionou políticos influentes, como o senador Antonio
Carlos Magalhães e o presidente do Senado, José Sarney,
e pediu apoio contra a comissão. Dirceu também atacou
em outros flancos. Só no gabinete do senador Marco Maciel,
do PFL, deixou cinco recados, não respondidos. Ligou para
deputados e governadores de oposição. Os senadores
do PSDB receberam a visita do deputado Sigmaringa Seixas, um ex-tucano,
amigo de Dirceu. O parlamentar nada pediu aos ex-colegas, mas alertou
sobre os riscos e a instabilidade que uma CPI poderia criar no ambiente
econômico. Sigmaringa acreditava que havia conseguido convencer
uma parte da bancada tucana a abandonar a idéia da criação
da CPI. O problema é que, enquanto ele afagava os adversários
com diplomacia, tinha companheiro partindo para um jogo mais pesado.
O líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia, por exemplo,
disse que, se era para apurar envolvimento de políticos com
o jogo do bicho, que se investigasse o filho do governador do Ceará,
Lúcio Alcântara. A bobagem maior, entretanto, veio
do Senado. Em uma reunião da bancada do partido, chegou-se
à conclusão de que ficava muito mal para o petismo
assumir oficialmente uma posição contrária
à CPI, já que o partido sempre foi o maior acionador
de CPIs da história recente do Brasil. Foi quando o senador
Aloizio Mercadante teve a nada brilhante idéia de propor
a tal CPI ampla. Além do caso Waldomiro, sugeriu Mercadante,
seriam investigados também o processo de privatizações
do governo FHC e os desvios de verbas do Serviço Único
de Saúde (SUS). A menção às privatizações
era um recado aos tucanos para que moderassem seu entusiasmo com
relação à CPI. A referência ao SUS era
também um recado, aos pefelistas.
Joedson Alves/AE
 |
CONFUSÃO
A bancada do PT se reúne para discutir posição sobre uma CPI:
trapalhada |
Com
esse estratagema, Mercadante parece ter imaginado que o PT ficaria
em paz com sua história e a oposição se acalmaria,
com medo de também virar objeto de investigação.
A senadora Ideli Salvatti, entusiasmada com a CPI "ampla", disse
que se investigaria tudo, até a campanha da senadora Roseana
Sarney. O que era óbvio aconteceu. Os tucanos que eram contra
a CPI se sentiram insultados pelo desafio de Mercadante e companheiros.
Eis a resposta de um deles, o senador Tasso Jereissati: "Tucanos
que não pretendiam assinar o requerimento agora podem fazê-lo
para não ser acusados de ceder à chantagem". No PMDB,
senadores descontentes com o Planalto aproveitaram o clima para
deixar vazar que assinariam o pedido de CPI. Até os aliados
ficaram constrangidos com a declaração. O senador
José Sarney, irritado, chegou a discutir com Mercadante durante
a sessão. E o Palácio do Planalto criticou a estratégia,
que, segundo assessores do presidente, foi feita sem a concordância
dos ministros de Lula. Por fim, Mercadante foi obrigado a ir ao
plenário explicar-se.
Nos últimos dez anos, os deputados e senadores do PT estiveram
à frente das principais CPIs do Congresso, algumas bem-sucedidas,
como a que culminou com o impeachment do ex-presidente Fernando
Collor, e outras nem tanto. Nos oito anos do governo FHC, o PT requisitou
a abertura de dezesseis CPIs no Congresso Nacional. Como oposição,
o PT fez o que todo partido político deveria fazer. Fiscalizou
os governos, cobrou transparência, provocou debates e catalisou
mudanças importantes. Na semana passada, o PT, como governo,
fez tudo ao contrário. Diante do escândalo provocado
pela denúncia contra Waldomiro Diniz, as lideranças
do partido mergulharam em uma inusitada operação política
para evitar a criação da CPI. E, de uma maneira até
surpreendente, usaram os mesmos instrumentos e manobras que tanto
criticaram no passado. A famosa "tropa de choque" um grupo
de parlamentares governistas que usa sua influência a serviço
do poder mostrou que estava apenas latente. Até o
fim da semana, das 27 assinaturas necessárias para a instalação
da CPI, a oposição havia conseguido reunir 22. A "operação
abafa", uma praga típica de quem tem algo a esconder, segundo
os velhos petistas da oposição, mostrou suas vantagens
em benefício dos novos petistas do governo.
|