Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Governo
A operação abafa do PT

Governo usa métodos que sempre
criticou quando era oposição para
impedir a criação de CPI


Malu Gaspar

 
Dida Sampaio/AE
IRRITAÇÃO
José Dirceu: para o governo, o caso Waldomiro estava encerrado, mas boatos sobre sua demissão provocaram a queda da bolsa

O governo se esforçou o quanto pôde na semana passada para tentar isolar dois Waldomiros. Segundo tentou fazer entender o governo petista, haveria o extorsionário Waldomiro Diniz, que apareceu numa fita de vídeo pedindo dinheiro a um bicheiro, na campanha de 2002. E haveria outro Waldomiro, também de sobrenome Diniz, que era subchefe da Casa Civil, o poderoso assessor do ministro José Dirceu. Como as duas personas eram uma pessoa só, a manobra não deu o resultado esperado pelo Palácio do Planalto. A verdade é que Waldomiro Diniz manteve encontros impróprios também quando já era do governo. Ele confidenciou a um amigo que se reuniu, já na condição de subchefe da Casa Civil, com representantes de uma multinacional que opera os jogos de loteria da Caixa Econômica Federal. "Duas ou três vezes em um hotel de Brasília", disse. A empresa, GTech, tem um gigantesco contrato com a Caixa Econômica, que estava para terminar mas acabou sendo prorrogado por mais dois anos, apesar de pareceres técnicos contrários. Ruim para Waldomiro e também ruim para seu ex-chefe, o ministro da Casa Civil, José Dirceu. Waldomiro, como se sabe, era mais do que um simples assessor. Circulava com desembaraço entre empresários e políticos, usando da condição de amigo e braço direito do mais poderoso ministro do governo. Na semana passada, a oposição tentou criar uma CPI para saber até que ponto Waldomiro agia por conta própria. O governo não permitiu. Foi uma semana de constrangimentos para o ministro José Dirceu, atormentado pela sombra do ex-assessor. E o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acabrunhado, perdeu a compulsão de fazer discursos um atrás do outro. Na última semana, Lula estava calado.

Sem ter como negar a proximidade com Waldomiro, Dirceu se disse traído pelo ex-assessor. Chegou a comentar com o presidente a possibilidade de deixar o governo. Lula, porém, não aceitou a hipótese e orientou seus líderes a defender o ministro. Ainda assim a bolsa despencou com os boatos da saída de Dirceu. "Estou decepcionado, muito decepcionado", disse ele. Na segunda-feira, o ministro foi ao Congresso e, numa nota lacônica, deu o caso como encerrado, lembrando que Waldomiro já havia sido afastado e que a história da propina ocorreu antes das eleições. Simultaneamente, os partidos aliados começaram a se articular para impedir a instalação de uma CPI. Dirceu estava irritado. Em audiência com o presidente, enxergou vestígios de conspiração contra ele, não poupou críticas aos companheiros de ministérios nem ao próprio PT. Em uma reunião do chamado núcleo duro do governo, o ministro estranhou a passividade com que alguns colegas agiram no caso. Reclamou particularmente do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que se mostrava desinformado sobre as investigações da polícia acerca do caso Waldomiro, e do ministro Luiz Gushiken, que, na avaliação de Dirceu, poderia ter ajudado o governo a se antecipar ao escândalo – embora não tenha explicado como. Dirceu também ficou agastado com o senador Aloizio Mercadante, líder do governo, que sugeriu a criação de uma CPI mais ampla, que investigaria outras denúncias de corrupção. As declarações de Mercadante, segundo ele, contribuíram apenas para acirrar ainda mais o clima de hostilidade entre governo e oposição, quando a situação parecia estar sob controle. Espécie de gerente do governo, Dirceu passou a semana administrando a própria crise.

 
Ed Ferreira/AE
SILÊNCIO
O presidente Lula não aceitou sequer discutir a hipótese de Dirceu deixar o governo, mas passou a semana calado, pela primeira vez desde que assumiu

O ministro articulou pessoalmente a estratégia para evitar a CPI. Acionou políticos influentes, como o senador Antonio Carlos Magalhães e o presidente do Senado, José Sarney, e pediu apoio contra a comissão. Dirceu também atacou em outros flancos. Só no gabinete do senador Marco Maciel, do PFL, deixou cinco recados, não respondidos. Ligou para deputados e governadores de oposição. Os senadores do PSDB receberam a visita do deputado Sigmaringa Seixas, um ex-tucano, amigo de Dirceu. O parlamentar nada pediu aos ex-colegas, mas alertou sobre os riscos e a instabilidade que uma CPI poderia criar no ambiente econômico. Sigmaringa acreditava que havia conseguido convencer uma parte da bancada tucana a abandonar a idéia da criação da CPI. O problema é que, enquanto ele afagava os adversários com diplomacia, tinha companheiro partindo para um jogo mais pesado. O líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia, por exemplo, disse que, se era para apurar envolvimento de políticos com o jogo do bicho, que se investigasse o filho do governador do Ceará, Lúcio Alcântara. A bobagem maior, entretanto, veio do Senado. Em uma reunião da bancada do partido, chegou-se à conclusão de que ficava muito mal para o petismo assumir oficialmente uma posição contrária à CPI, já que o partido sempre foi o maior acionador de CPIs da história recente do Brasil. Foi quando o senador Aloizio Mercadante teve a nada brilhante idéia de propor a tal CPI ampla. Além do caso Waldomiro, sugeriu Mercadante, seriam investigados também o processo de privatizações do governo FHC e os desvios de verbas do Serviço Único de Saúde (SUS). A menção às privatizações era um recado aos tucanos para que moderassem seu entusiasmo com relação à CPI. A referência ao SUS era também um recado, aos pefelistas.

 
Joedson Alves/AE
CONFUSÃO
A bancada do PT se reúne para discutir posição sobre uma CPI: trapalhada

Com esse estratagema, Mercadante parece ter imaginado que o PT ficaria em paz com sua história e a oposição se acalmaria, com medo de também virar objeto de investigação. A senadora Ideli Salvatti, entusiasmada com a CPI "ampla", disse que se investigaria tudo, até a campanha da senadora Roseana Sarney. O que era óbvio aconteceu. Os tucanos que eram contra a CPI se sentiram insultados pelo desafio de Mercadante e companheiros. Eis a resposta de um deles, o senador Tasso Jereissati: "Tucanos que não pretendiam assinar o requerimento agora podem fazê-lo para não ser acusados de ceder à chantagem". No PMDB, senadores descontentes com o Planalto aproveitaram o clima para deixar vazar que assinariam o pedido de CPI. Até os aliados ficaram constrangidos com a declaração. O senador José Sarney, irritado, chegou a discutir com Mercadante durante a sessão. E o Palácio do Planalto criticou a estratégia, que, segundo assessores do presidente, foi feita sem a concordância dos ministros de Lula. Por fim, Mercadante foi obrigado a ir ao plenário explicar-se.

Nos últimos dez anos, os deputados e senadores do PT estiveram à frente das principais CPIs do Congresso, algumas bem-sucedidas, como a que culminou com o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, e outras nem tanto. Nos oito anos do governo FHC, o PT requisitou a abertura de dezesseis CPIs no Congresso Nacional. Como oposição, o PT fez o que todo partido político deveria fazer. Fiscalizou os governos, cobrou transparência, provocou debates e catalisou mudanças importantes. Na semana passada, o PT, como governo, fez tudo ao contrário. Diante do escândalo provocado pela denúncia contra Waldomiro Diniz, as lideranças do partido mergulharam em uma inusitada operação política para evitar a criação da CPI. E, de uma maneira até surpreendente, usaram os mesmos instrumentos e manobras que tanto criticaram no passado. A famosa "tropa de choque" – um grupo de parlamentares governistas que usa sua influência a serviço do poder – mostrou que estava apenas latente. Até o fim da semana, das 27 assinaturas necessárias para a instalação da CPI, a oposição havia conseguido reunir 22. A "operação abafa", uma praga típica de quem tem algo a esconder, segundo os velhos petistas da oposição, mostrou suas vantagens em benefício dos novos petistas do governo.

 
 
 
 
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