|
|
Governo
Eleição
a
qualquer preço
Ex-diretor
da loteria gaúcha diz que foi
obrigado a intermediar
pedidos de dinheiro
para
o caixa dois
da campanha petista

Ronaldo
França
Liane Neves
 |
JOSÉ
VICENTE
Em e-mail enviado a Waldomiro Diniz, queixas sobre a ação eleitoral
do PT |
Na
segunda-feira passada, José Vicente Brizola, diretor-geral
da Loteria do Estado do Rio Grande do Sul no governo Olívio
Dutra, enviou um e-mail a Waldomiro Diniz, demitido do cargo de
subchefe de Assuntos Parlamentares do governo federal, tendo trabalhado
sob as ordens do ministro José Dirceu. Entre Waldomiro Diniz
e José Vicente Brizola há pelo menos uma coincidência.
Ocuparam, em governos petistas, o cargo de dirigente de loteria
estadual. Foi nessa posição que Waldomiro recolheu
contribuições de um empresário acusado de contravenção,
em 2002, o que rendeu a primeira grande crise do atual governo.
O e-mail despachado por José Vicente a Waldomiro dizia o
seguinte: "Lamentavelmente percebi que foste detonado como tantos
outros. Claro está que o 'Cardeal' Dirceu, quando o escândalo
bate em sua porta, detona seus amigos, seus inimigos. Transfigura
a reforma ministerial de tal modo que a responsabilidade de atos
protagonizados por ele recaiam em Aldo Rebelo, que nada sabia do
assunto. Pois eu sei. Assim como foste compelido a achacar dinheiro
de concessionários públicos em benefício do
PT, eu também o fui. Eu diretor da Lotergs, tu presidente
da Loterj. Desde já estou à sua inteira disposição
para testemunhar a seu favor, seja em juízo ou em quaisquer
instâncias que solicitar". José Vicente é filiado
do PT do qual afirma estar se desligando e filho do
ex-governador Leonel Brizola.
Os concessionários a que se refere a mensagem são
donos de bingos, videobingos, jogos de cartela e máquinas
de videoloteria, os caça-níqueis. José Vicente
referia-se a fatos ocorridos em 2002, conforme relatou a VEJA, na
semana passada. A entrevista, realizada numa suíte do hotel
Blue Tree Towers, em Porto Alegre, durou cinco horas. Começou
na noite de terça-feira e entrou pela madrugada. Durante
a maior parte desse tempo, José Vicente, gaúcho de
52 anos, repetiu um gesto. Com o dedo polegar de sua mão
direita esfregava insistentemente a outra mão toda vez que
a narrativa, já naturalmente assentada em terreno minado,
se aproximava de temas mais explosivos. Estava nervoso. O episódio
que detalhou tem inquestionáveis semelhanças com o
caso de Waldomiro Diniz. Além de ocupar cargos equivalentes
no momento em que se deram os fatos, estavam trabalhando por candidaturas
do PT e lidavam com empresários acusados de ligações
com a contravenção.
Rafael Neddermeyer/AE
 |
TARSO
GENRO
O atual ministro da Educação foi derrotado na eleição para o
governo gaúcho em 2002 |
Durante
a campanha eleitoral de 2002, José Vicente, à frente
da Lotergs, recebeu um pedido, segundo seu relato. Vinha de Carlos
Fernandes, filho da então candidata à reeleição
ao Senado pelo PT Emília Fernandes, que acabou agraciada
com o cargo de secretária especial de Políticas para
Mulheres, posição com status ministerial. Ela foi
ministra durante o primeiro ano do governo Lula e saiu na recente
reforma ministerial. Carlos Fernandes teria solicitado ajuda para
a arrecadação de recursos financeiros destinados à
chapa majoritária do partido, formada também pelo
candidato ao governo, Tarso Genro, e pelo então candidato
ao Senado Paulo Paim. A missão de José Vicente seria
contatar os empresários da jogatina e convidá-los
a contribuir com a campanha da chapa majoritária não
como doadores oficiais, registrados no Tribunal Regional Eleitoral,
mas na forma popularmente conhecida como caixa dois. Embora, na
prática, isso significasse que o dinheiro iria ajudar todos
os candidatos, em nenhum momento teve algum contato com Tarso Genro
e Paim e tampouco se falou deles nas conversas que manteve. Os pedidos,
fora instruído, deveriam ser feitos em nome da chapa majoritária
e, quando mais especificamente, da candidatura da senadora. José
Vicente afirma que se declarou impedido de atender à tal
demanda. Entretanto, à medida que a campanha avançou,
a insistência teria se transformado em pressão.
Nessa ocasião, o panorama político do Rio Grande do
Sul era peculiar. O então governador Olívio Dutra
havia perdido a disputa na prévia eleitoral que escolheu
Tarso Genro como o candidato do partido ao governo do Estado. Com
sua derrota e com todas as pesquisas indicando a vitória
de Genro , o escritório da campanha majoritária
passou a funcionar como uma espécie de gabinete paralelo.
Era na condição de representante desse gabinete que
Carlos Fernandes ganhava força para cobrar participação
na arrecadação de fundos para a campanha. Rompido
com seu pai, o ex-governador Leonel Brizola, desde que trocou o
PDT pelo PT, no início de 2001, José Vicente é
um militante dependente de emprego público para sobreviver.
Diz que temeu pela ameaça, implícita nesse tipo de
relação, de não ser nomeado para nenhum cargo
público no novo governo. E passou a colaborar.
José Paulo Lacerda/AE
 |
EMÍLIA
FERNANDES
Em seu nome seriam feitos os pedidos de doação a empresários
do ramo de jogos e loterias em Porto Alegre |
Os
encontros teriam sido marcados com os representantes de empresas
apontadas pelo próprio Carlos Fernandes. Da lista, chegou-se
aos nomes de Silvana de Luca, representante da empresa Kater, que
administra o Toto Bola (jogo que também é explorado
em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná), Jaime Sirena,
então presidente da Associação Gaúcha
de Bingos, e Miguel Mucilo, dono de máquinas de videoloteria,
os chamados caça-níqueis, que entraram para o rol
de atividades dos bicheiros brasileiros a partir da década
de 90. "Desminto qualquer pessoa que diga que fui procurado e colaborei
financeiramente com campanhas", afirmou Mucilo a VEJA na semana
passada. Um dos encontros de apresentação, no escritório
político de Emília Fernandes, teria tido a presença
da própria. A então candidata ao Senado teria tomado
o cuidado de se retirar da sala quando a conversa ameaçava
tornar-se mais objetiva, abordando quantias e pedidos de doação.
No entanto, teria deixado claro que seu filho e Claudio Milan, o
caixa da campanha, falavam em seu nome quando tratavam do assunto.
Na quarta-feira passada, entrevistada por VEJA, Emília negou-se
a comentar o episódio. "Não conheço essas pessoas",
afirmou. "Não quero dar declarações antes de
falar com o presidente do partido."
Contravenção O envolvimento com tais
empresários durante a campanha não era apenas um ato
de desavisada impropriedade. O PT do Rio Grande do Sul havia passado
em 2001 por uma comissão parlamentar de inquérito
da Assembléia Legislativa estadual. Embora na origem fosse
uma CPI de segurança pública, acabou se voltando para
a investigação do envolvimento da Lotergs com empresários
suspeitos de contravenção. O governo do Estado havia
editado um decreto que, em última análise, levaria
à legalização de todos os jogos e sua devida
normatização pela Lotergs. O decreto gerou uma manifestação
do Ministério Público. Os procuradores orientaram
o diretor da Lotergs a não tornar oficiais tais jogos, alegando
que se tratavam de empresas supostamente envolvidas com contravenção.
A insistência do governo em levar a legalização
adiante provocou suspeitas.
No decorrer das investigações da CPI, veio a público
um lote de fitas e CDs com conversas de integrantes do PT e membros
da Secretaria de Segurança Pública. Em uma das gravações,
o ex-secretário de Finanças do PT gaúcho, Jairo
Carneiro dos Santos, diz que a compra de uma sede para o partido
foi financiada com dinheiro do jogo do bicho e que a operação
foi autorizada pelo próprio governador Olívio Dutra.
Em depoimento à CPI, Santos negou a conversa, apesar de as
fitas mostrarem o contrário. As investigações,
no entanto, revelaram uma história de contornos claramente
antiéticos. Em 1998, uma ONG chamada Clube da Cidadania comprou
um prédio, com recursos arrecadados para "projetos sociais"
junto a entidades, empresários e também contraventores.
Concretizado o negócio, o prédio foi disponibilizado,
em regime de comodato, para servir de sede ao PT gaúcho.
O presidente da tal ONG era Diógenes de Oliveira, ex-militante
do grupo Vanguarda Popular Revolucionária e arrecadador de
campanhas petistas. O mesmo que aparece em outra gravação
que caiu nas mãos da CPI, pedindo ao então chefe de
polícia que os bicheiros não fossem incomodados. "Dei
um carteiraço, falei indevidamente em nome do governador",
admitiu Diógenes na ocasião. No curso da CPI surgiram
também denúncias de que a Lotergs estaria abrindo
caminho para a entrada de máquinas caça-níqueis
e de loterias on-line no Rio Grande do Sul, administradas por líderes
do jogo do bicho associados a empresários suspeitos de lavagem
de dinheiro e de conexão com a máfia italiana. Uma
denúncia que se repete agora no caso Waldomiro.
Dos 41 indiciados pela CPI na qual o ex-governador Olívio
Dutra acabou inocentado , dois nomes chamam atenção.
Jaime Sirena e João Carlos Franco Cunha, ambos donos de bingos
em Porto Alegre. Sirena foi um dos empresários que teriam
sido contatados pela campanha petista por intermédio de José
Vicente. E Cunha é dono do Bingo Roma, o mesmo que na semana
passada foi invadido pela Polícia Federal por suspeita de
sonegação fiscal. Cunha esteve presente a pelo menos
uma das reuniões com os emissários da senadora, numa
ocasião em que a CPI já fizera tamanho barulho que
era evidente o embaraço desse tipo de relação.
Mesmo assim, os contatos teriam ido adiante. José Vicente
permaneceu em seu cargo até o último dia do governo
do PT no Estado. Desde então, está desempregado. E
o PT aparece, cada vez mais claramente, como um partido que utiliza,
em campanhas eleitorais, as mesmas práticas que sempre fez
questão de denunciar.
| "Sofri
pressões do partido" |
|
VEJA
Por que o senhor ajudou a levantar recursos
para a campanha do PT no Rio Grande do Sul, de senador
e governador, fazendo a ponte com empresários
ligados ao jogo de azar?
José
Vicente
Porque eu sofri pressões nesse sentido.
VEJA
Quem o pressionou?
José
Vicente Em meados de 2002, em junho ou julho,
fui procurado pelo filho da então candidata ao
Senado do PT Emília Fernandes, o Carlos Fernandes,
conhecido como Carlinhos. Ele me perguntou se eu tinha
possibilidade de arrumar algum recurso para a campanha
da senadora. Eu disse que não, que morava em
Porto Alegre havia pouco tempo, não conhecia
empresários. Ele então foi mais incisivo.
Disse que existiam vários empresários
que eram ou gostariam de ser concessionários
na área de jogos. Para não ser deselegante,
fui levando o assunto, até que ele disse que
havia uma determinação do comitê
de campanha para governador e senador para que isso
fosse feito.
VEJA
Onde se deu essa conversa?
José
Vicente No escritório da campanha
de Emília Fernandes, na Rua Riachuelo. Eu questionei.
Disse que gostaria de ouvir isso da própria senadora.
Num encontro seguinte, ela compareceu, com Carlinhos
e Claudio Milan, que era o caixa da campanha. Ela não
falou muito, mas disse que os credenciava para continuar
com esse pleito. Eu continuei conversando com eles.
A pressão ficou mais violenta e eu disse que
não pediria contribuição a ninguém.
Eles recuaram. Combinaram que eu fizesse as apresentações
e eles passariam a cuidar disso. E disseram: "Nós
sabemos quem são os empresários que você
deve procurar, são esses e esses".
VEJA
Quem eram?
José
Vicente O Miguel Mucilo, dono de empresas
de videoloteria, o Jaime Sirena, que à época
era o presidente da Associação Gaúcha
de Bingos, a Silvana de Luca, do Toto Bola, um jogo
de cartela, e o Germano, da June, que administra o Mais
Fácil, outro jogo de cartela.
VEJA
Quem
tinha os nomes?
José
Vicente O Carlinhos. Ele não sabia
o nome das pessoas nem o nome das empresas, mas sabia
os nomes fantasias, as marcas dos jogos. E sabia quem
estava regulado pela Lotergs (Loteria do Estado do Rio
Grande do Sul), da qual eu era diretor-geral, e quem
pretendia estar.
VEJA
O que era dito nas conversas?
José
Vicente Eles diziam que precisavam de 900
000 reais para a campanha da senadora. Isso era misturado
com a campanha majoritária, porque os candidatos
a governador, a vice e a senador andam sempre juntos.
A agenda da majoritária é uma só,
administrada pelo coordenador de campanha.
VEJA
Como foram as apresentações?
José
Vicente A
primeira reunião foi com Silvana de Luca, do
Toto Bola, no piano-bar do Shopping Praia de Belas.
Disse a ela do que se tratava, que a solicitação
era da candidata a senadora Emília Fernandes
e que, como eu havia me negado a pedir contribuições,
o combinado era que eu faria as apresentações,
se estivessem de acordo. Disseram que sim, que até
gostariam de conhecer a senadora. Marcamos no escritório
dela. Estávamos sentados à mesa eu, Carlinhos
Fernandes, Claudio Milan e a senadora. Dali a pouco
chegou a Silvana de Luca. Conversou amenidades com a
senadora, que num certo momento se retirou. Eles então
disseram que uma campanha ao Senado poderia custar de
2 milhões a 3 milhões de reais, mas que
eles precisavam de 900 000. A Silvana disse que ia conversar
com seu sócio e que posteriormente diria com
quanto e como poderiam contribuir. Essa foi a última
reunião que eu tive com eles juntos. Depois fiquei
sabendo que haviam chegado a uma cifra de cento e poucos,
ou 200 000 reais, que isso seria pago em duas, três
ou quatro vezes e que os encontros para efetuar os pagamentos
seriam no hotel Blue Tree. Essa informação
eu tenho porque o Carlinhos me deu posteriormente.
VEJA
Como foi o contato com Miguel Mucilo?
José
Vicente Foi no restaurante Rio Carreiro,
em Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre. Estavam presentes
Carlinhos, Claudio Milan, eu e o Miguel Mucilo. E também
o João Carlos Cunha, o Jonca, dono do Bingo Roma.
Houve um outro almoço, na churrascaria Barranco.
O Mucilo se mostrava muito arredio. Não creio
que dali tenham tirado algum dinheiro, porque ele condicionava
a contribuição da campanha a que fosse
aprovado o projeto de regulamentação dos
bingos e do videobingo, o que era impossível.
VEJA
E com o Sirena?
José
Vicente Ele foi ao meu escritório
na Lotergs, a meu pedido, e eu expliquei do que se tratava.
Marcamos um encontro no escritório da senadora,
onde estava somente o Carlinhos, mas o Sirena se deu
por satisfeito, porque já conhecia a senadora.
Ele começou a conversa falando a mesma coisa,
que uma campanha custava de 2 a 3 milhões de
reais, que eles precisavam de 900 000. Aquilo parecia
um discurso pronto. Preferi sair antes. Mas, se arrumaram
alguma coisa, foi pouco.
VEJA
Por que o senhor demorou todo esse tempo
para trazer isso a público?
José
Vicente Porque esse episódio do Waldomiro
Diniz passou a ser uma confirmação de
que esse ato...
VEJA
Mas o senhor queria confirmação
maior do que estar com pessoas suspeitas de contravenção
negociando contribuição de campanha?
José
Vicente Veja bem, era um ato localizado aqui
no Rio Grande do Sul, que tinha partido da senhora Emília
Fernandes, dizendo representar a chapa majoritária.
Agora estamos diante de um fato provado, que eu posso
então associar ao que vi com alguma coerência.
Se eu saísse denunciando um ato isolado, sem
provas, aonde isso iria chegar? Além disso, sinto
um cheiro de ditadura no ar.
VEJA
O que esses fatos têm a ver com
ditadura?
José
Vicente O governo do Estado usou uma prática
que não é lícita, de instruir os
depoimentos na CPI da Segurança Pública
(aberta no governo de Olívio Dutra para apurar
o envolvimento da Lotergs com empresários suspeitos
de contravenção). Eu tinha de comparecer
à Casa Civil, onde me entrevistavam, me perguntavam
como se fazia isso ou aquilo, o que eu iria dizer. Sei
que foram ainda mais contundentes com pessoas menos
importantes. Foi meu primeiro choque com o PT.
VEJA
O que o motiva a dar esta entrevista?
José
Vicente Em primeiro lugar, quero frisar que
jamais peguei em dinheiro. Se tivesse passado dinheiro
pela minha mão, jamais daria uma entrevista.
O motivo de estar falando isso agora é que percebi
que esse partido que eu supunha imaculado era igual
ou pior que o anterior, o PDT. E mais: no PDT, nunca
presenciei banditismo, como é o que aconteceu
com o Celso Daniel. Não está e nunca esteve
nos meus planos compactuar com esse tipo de coisa. Como
é o caso também de um telefonema que eu
recebi na segunda-feira à tarde, ameaçando
a mim e a minha família. Um dos motivos pelos
quais estou dando esta entrevista é porque temo
pela minha segurança e pela da minha família.
|
|
|