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Diogo
Mainardi
Vamos
demolir o Tuca
"Esses
lugares estão associados à luta contra
a ditadura militar. Agora que os perseguidos
pela ditadura
conquistaram o poder, esses
monumentos oposicionistas viraram
instrumentos de conservação do regime"
Eu
demoliria o Tuca. O Tuca é o teatro da PUC de São
Paulo, um dos marcos da resistência ao regime militar. Em
seu lugar, eu poria um estacionamento. Ou um supermercado da rede
Wal-Mart.
Eu
demoliria também o prédio do Dops. E o estádio
de Vila Euclides. E o Riocentro. E a antiga Faculdade de Filosofia
da USP. E o Anhangabaú. E a Candelária. E o quartel
da Tijuca. Esses lugares estão associados, de uma forma ou
de outra, à luta contra a ditadura militar. Agora que os
perseguidos pela ditadura militar conquistaram o poder, esses monumentos
oposicionistas se tornaram instrumentos de conservação
do regime.
O
Tuca é como o Aurora, o navio que deflagrou a Revolução
Russa. Se inicialmente o Aurora podia representar a luta
heróica contra a tirania, com o passar do tempo foi se transformando
em mera arma de propaganda para acobertar outra tirania. O Tuca,
com sua história de luta contra o regime militar, acoberta
o empreguismo, o clientelismo, o fisiologismo e o coronelismo dos
antigos perseguidos políticos que agora mandam no Brasil.
Outro
dia alguns intelectuais se reuniram no Tuca. Foram debater a cultura
nacional. Todos eles se sentiram no dever de homenagear as vítimas
da repressão policial dos anos 70. Os intelectuais brasileiros
sempre viveram à custa do Estado. Viviam à custa do
Estado durante o regime militar e continuam a viver até hoje.
A diferença é que, em muitos casos, eles agora conseguem
acumular mais de uma renda, como membros do aparato do Estado democrático
e como opositores do velho Estado ditatorial.
Não
são apenas os intelectuais que ganham de um lado e do outro.
O próprio presidente Lula recebe uma pensão do Estado
por seu passado oposicionista. Considerando que toda a sua carreira
política foi construída em torno disso, ele está
sendo demasiadamente recompensado. Este é o problema dos
petistas: eles sempre se acham em crédito com o Estado e
com a sociedade. Por isso demonstram tanta voracidade no preenchimento
de cargos públicos, indicando parentes e amigos: eles se
julgam merecedores de um ressarcimento por ter se sacrificado pelo
bem do país, enquanto a maioria da população
ficava calada. Não bastam os 4 bilhões de reais de
indenização aos perseguidos políticos. Não
bastam as aposentadorias milionárias. Eles querem mais.
A
notícia que melhor resumiu o primeiro ano do governo Lula
foi a tentativa do presidente e de sua mulher de caçar e
devorar um pato da Granja do Torto. O episódio era emblemático
da fome atávica do PT, a gula para abocanhar todos os bens
do Estado. A notícia que dará o tom do segundo ano
do governo Lula apareceu no Globo, poucas semanas atrás:
o Palácio do Planalto está tão entupido de
funcionários que muitos deles já não cabem
em suas salas, sendo obrigados a trabalhar de pé, sem mesas
e sem cadeiras. A ocupação da máquina estatal
chegou a tal ponto que irá desencadear uma luta fratricida
e sem escrúpulos para ver quem consegue conquistar os raros
espaços disponíveis.
O
Tuca, portanto, é um símbolo do reacionarismo. Quem
realmente encarna o espírito revolucionário, hoje,
é o Wal-Mart.
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