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Entrevista:
Patch Adams
Doutor
e palhaço
O
médico americano cuja vida virou filme
diz que o humor e a esperança são bons
auxiliares no tratamento dos doentes

Rosana Zakabi
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AP

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"O
paciente é tratado como cliente de loja. Se o
médico gastar tempo com amor, não tem
retorno financeiro. Só ganha dinheiro se dá
remédio ou faz alguma intervenção
cirúrgica"
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Quem
vê o médico americano Patch Adams com nariz de palhaço
e cabelos coloridos pode achar que ele acabou de sair de um circo.
É quase isso. Há três décadas, Adams
transforma os quartos dos hospitais que visita em um verdadeiro
picadeiro. Sua especialidade é animar pacientes com brincadeiras
para reduzir o sofrimento deles. A vida de Adams foi retratada em
1998 no filme O Amor É Contagioso, com o ator Robin
Williams no papel principal, e serviu de inspiração
para o surgimento de vários grupos doutores da alegria, espalhados
pelo mundo. O médico é autor de três livros,
dois deles publicados no Brasil. Neles, Adams defende sentimentos
como humor, compaixão, alegria e esperança no tratamento
de pacientes e diz que o medo que os médicos têm de
cometer erros destrói a relação médico-paciente.
Aos 58 anos, Adams dirige o Instituto Gesundheit (saúde,
em alemão), nos Estados Unidos, que atende pacientes de graça.
Também dá palestras e cursos em vários países.
De Arlington, cidade onde mora com a mulher e dois filhos, Adams
concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
O filme O Amor É Contagioso mostra o senhor
como um médico que se preocupa muito com os sentimentos dos
pacientes. O senhor sempre foi assim?
Adams Nem sempre. No fim da adolescência, não
me preocupava com ninguém. Devido à morte de meu pai,
ao suicídio de um tio muito querido e ao fim de um namoro,
comecei a ficar obcecado pela idéia de morrer. Cheguei a
tomar vinte aspirinas de uma só vez, tentei pular de um precipício.
Até que um dia pedi a minha mãe que me internasse
em um sanatório mental. Lá, conheci gente que estava
tão pior que eu que fez minha dor parecer trivial. Eram pessoas
que sempre viveram com raiva e desespero. Essa experiência
me fez perceber quanto as emoções podem influenciar
em nossa vida, seja de forma positiva ou negativa. A partir de então,
comecei a dar mais importância aos sentimentos das pessoas.
Veja
Estudos mostram que emoções como o perdão,
a alegria e a esperança podem acelerar o processo de cura.
Mesmo assim, muitos médicos não se preocupam com isso.
Por que eles são tão resistentes a essa idéia?
Adams Os médicos tendem a esconder os sentimentos
porque acham que ficarão vulneráveis se demonstrarem
qualquer tipo de emoção. Antigamente existia o médico
da família, que ia até a casa de seus pacientes, ouvia
com atenção os problemas de cada um e conhecia cada
integrante da família pelo nome. Hoje, o paciente é
tratado como cliente de loja, que paga para obter o serviço.
O amor passou a não ter espaço na área médica.
Se o médico gasta tempo com amor, não tem retorno
financeiro algum. Só ganha dinheiro se dá um remédio
ao paciente ou faz alguma intervenção cirúrgica.
Veja
Em seu livro A Terapia do Amor, o senhor diz que
os médicos, em sua maioria, se sentem como se fossem deuses.
Adams Na verdade, é a sociedade que exige do médico
que ele aja como se fosse um Deus. Espera-se que ele faça
milagres e não erre nunca. Isso é impossível.
Como todo ser humano, o médico pode errar. Essa idéia
de que o médico tem de ser perfeito também prejudica
a relação com o paciente. Faz com que este coloque
toda a responsabilidade do que ocorre com ele nas mãos do
médico. E isso é errado. O paciente é mais
responsável pela própria recuperação
do que o médico que o está tratando.
Veja
Como assim?
Adams A maioria dos problemas de saúde ocorre
por causa do estilo de vida inadequado do paciente, pelo sedentarismo
e pela má alimentação. O médico geralmente
só é procurado quando a doença já está
em estágio avançado. O grande problema é acreditar
que a medicina e a ciência têm a resposta para todos
os nossos problemas. Não é verdade. Muitas vezes,
a solução está em casa, nos pequenos hábitos
do dia-a-dia.
Veja
Que conselhos o senhor daria para os médicos se
tornarem melhores profissionais?
Adams Medicina envolve relacionamento entre médico
e paciente. Um bom médico é aquele que sabe cultivar
essa relação por meio da troca de experiências,
amizade, humor, confiança. Se existe desconfiança
de um dos lados, essa relação vai por água
abaixo. O grande problema da medicina é que os profissionais
da saúde se sentem cobrados demais, acumulam várias
funções e acham que não são devidamente
recompensados por isso. A possibilidade de haver processos contra
erros apavora os médicos, e a desconfiança destrói
a relação médico-paciente.
Veja
Qual é o papel dos pacientes nessa relação
médico-paciente?
Adams O paciente precisa ter um sentimento amável
e verdadeiro em relação a si mesmo. Não há
nada pior que um comportamento autodestrutivo no processo de recuperação.
É necessário ser um paciente paciente. A medicina
não é como um sistema fast food, em que todas as necessidades
são rapidamente resolvidas. Por isso, é importante
escolher bem o médico, porque é preciso ter confiança
nele. O médico demora muito para atender? Peça a ele
que agende menos consultas. O paciente tem esse direito.
Veja
Qual é a importância da fé na cura
de um paciente?
Adams Em muitos casos, é mais importante que qualquer
pílula ou intervenção cirúrgica. O paciente
com fé tem uma capacidade maior de entrega, o que lhe traz
conforto em todas as situações. Isso também
vale para os familiares de doentes terminais. Quando comecei a trabalhar
como plantonista em hospitais, descobri que as famílias que
seguiam alguma religião se sentiam mais calmas quando rezavam
do que quando tomavam algum tranqüilizante. A partir daí,
procurei sempre descobrir se os familiares do paciente seguiam alguma
religião. Em muitos casos, até rezava com eles.
Veja
Em sua opinião, é necessário seguir
alguma religião para ter fé?
Adams De forma alguma. Eu, por exemplo, tenho fé,
mas não sigo nenhuma religião. A religião é
uma instituição, e a espiritualidade é amor
e ação. Eu acredito mais na espiritualidade.
Veja
O senhor acredita em Deus?
Adams Não. Eu acredito na serventia do amor para
todas as pessoas.
Veja
Em seus livros, o senhor diz que as pessoas não
deveriam ter medo da morte. Pelo contrário, poderiam fazer
dela uma diversão. Mas lidar com a morte quase nunca é
fácil. Como é possível lidar com a morte com
menos sofrimento?
Adams Na vida, temos de fazer escolhas. Se não
há como mudar o rumo dos acontecimentos, podemos optar por
vivenciar cada momento de uma forma alegre, agradecendo por tudo
de bom que tivemos durante a vida, por nossa família e nossos
amigos. Ou, então, achar que a vida não valeu nada,
ver só o lado negativo das coisas, esquecer tudo de bom que
nos aconteceu até hoje e morrer de forma miserável.
Morrer é uma das poucas coisas que ocorrem com todo mundo,
mas quase ninguém suporta pensar nisso. O que estou sugerindo
é que a morte não precisa ser exatamente uma experiência
horrenda.
Veja
Não é difícil fazer palhaçadas
para um paciente que vai morrer no dia seguinte?
Adams Não, porque é o próprio paciente
que opta por isso. Eu sempre pergunto: "O que você quer? Você
quer ser miserável ou você gostaria de se divertir
e ter momentos de alegria?" Se ele quer se sentir miserável
no leito de morte, que seja miserável. Se ele não
quer ser miserável, nós podemos brincar e rir com
ele. É gratificante poder fazer algo de positivo para os
pacientes, mesmo os terminais.
Veja
Nos hospitais, é mais fácil fazer brincadeiras
com crianças que com adultos?
Adams Isso varia muito de um paciente para outro, mas
em geral as crianças são mais fáceis de lidar,
porque, diferentemente dos adultos, elas não param para pensar
e refletir sobre o que fazemos. Apenas vivenciam a experiência.
Veja
As escolas de medicina reconhecem hoje a eficiência
de sua forma de tratar os pacientes?
Adams Eu acho que a maioria não dá
importância a isso. Grande parte dos médicos, infelizmente,
ainda está mais preocupada em garantir seu salário
no fim do mês. Eles não gostam da roupa que usam, não
gostam de seus pacientes.
Veja
Suas idéias, que não eram aceitas no passado,
são divulgadas hoje na maioria dos livros de auto-ajuda.
O senhor considera isso uma vitória?
Adams A verdade é que não criei nada disso.
Tudo o que digo já era falado ao longo dos séculos.
Palavras de solidariedade, de conforto, conselhos a quem se ama
sempre foram passados de mãe para filho, de avó para
neto desde que o mundo é mundo. O fato é que as pessoas
só começaram a se interessar mais por isso recentemente.
Veja
O senhor costuma dizer que é mais palhaço
do que médico. Por quê?
Adams Porque, como médico, só posso tratar
os pacientes quando eles têm algum problema de saúde.
Já como palhaço posso alegrar as pessoas em qualquer
lugar e a qualquer hora, independentemente de estarem elas doentes
ou não. Além disso, ser palhaço é mais
divertido.
Veja
O que o senhor achou do filme sobre sua vida?
Adams Eu gostei do filme, mas achei que poderia ter tido
mais emoção, ter sido menos morno.
Veja
Por quê?
Adams Bem, porque o diretor não teve muita imaginação...
Veja
E da atuação de Robin Williams, o senhor
gostou?
Adams Sim, ele é uma excelente pessoa e um ótimo
ator. Ele fez um trabalho fabuloso, todos os meus amigos acharam
que ele conseguiu passar a minha essência de forma correta.
Veja
Há semelhanças entre o senhor e Robin Williams?
Adams Nós somos parecidos em muitas coisas. Ele
é muito generoso, tem compaixão pelas pessoas e é
muito divertido. Mas também temos algumas diferenças
de personalidade.
Veja
Que diferenças?
Adams Ele é muito mais tímido que eu.
Veja
O filme mudou sua vida?
Adams Mudou minha vida para sempre. O que não
consegui arrecadar em três décadas para a construção
do hospital do Instituto Gesundheit obtive em seis semanas. Mas
continuei e continuo sendo a mesma pessoa de antes.
Veja
Então, o filme foi positivo para o senhor.
Adams Ah, sim, sem dúvida. O filme rodou o mundo
e fez com que as pessoas conhecessem meu trabalho. Em vários
lugares, mesmo os que eu já havia visitado antes, as coisas
se tornaram mais fáceis. Consigo falar com as pessoas mais
rápido, elas sempre atendem aos meus telefonemas.
Veja
O senhor conhece os Doutores da Alegria do Brasil?
Adams Sim, encontrei alguns palhaços que fazem
um trabalho semelhante ao meu quando estive no Brasil, há
alguns anos.
Veja
E o senhor gostou do trabalho deles?
Adams Sim, muito. São bons colegas de profissão.
Veja
Seu nome verdadeiro é Hunter. Como surgiu o Patch?
Adams Hunter é meu nome legal. Nem me lembro mais
de como surgiu o Patch, foi há quarenta anos, já faz
parte de mim. Como surgiu não tem mais importância.
Veja
Há algum sonho que o senhor ainda não realizou
e gostaria que se concretizasse?
Adams A paz mundial. Não haver mais crianças
de rua. Ver as pessoas se ajudando mutualmente, todas as famílias
se auto-sustentando. Tudo isso são sonhos. Pode parecer utópico,
mas acredito que seja possível. É por isso que faço
o que faço. Eu trabalho o tempo todo para concretizar meus
sonhos. É por essa razão que estou concedendo esta
entrevista. Se eu não acreditasse, não faria nada
disso.
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