Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
Questão de identidade

"Há quem tema que a denúncia do racismo
provoque violência racial no Brasil. A violência
está aí, como sempre esteve, senhoras
e senhores. Unilateral. Contra os negros"

Luciano, Zeca e um outro amigo andavam pelo Shopping Fashion Mall, na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando um segurança identificou Luciano como traficante e o expulsou do local. Traficantes não devem ser expulsos de lugares públicos. O procedimento elementar seria convocar a polícia para detê-lo.

Mas esse estranho procedimento tem uma explicação simples. É que esse fato, registrado no circuito fechado de televisão do shopping, nada tem a ver com tráfico. Luciano Ferreira da Silva, 18 anos, preto, e Zeca Veloso, 11 anos, branco, são apenas rapazes de classe média. Luciano é filho de criação de Caetano Veloso e se prepara para fazer faculdade de música. Zeca é filho de Caetano e Paula Lavigne. Nada como uma carteira de identidade para esclarecer esses mistérios da nebulosa convivência social brasileira.

O que acabo de descrever é mais uma cena explícita de racismo, do cotidiano brasileiro, que se repete em todos os shoppings de classe média de todas as cidades do Brasil sempre que um negro ousa transpor seu portal com desenvoltura de branco. Ganhou a primeira página por causa da conexão com pessoas famosas e reconhecidas. Mais, porque Caetano Veloso e Paula Lavigne têm sentimento cívico, ao invés de esconder, denunciaram a agressão racial.

Ilustração Ale Setti


Os rapazes voltaram para casa e contaram a Paula, que chamou seu pai e advogado, Arthur, e os levou à 15ª DP, no bairro da Gávea, onde registraram a ocorrência. De racismo, certo? Não. Apenas constrangimento ilegal. Arthur Lavigne esclarece que, "embora seja evidente que o Luciano foi retirado do shopping por ser negro, não se pode afirmar que a motivação foi o racismo, porque o agressor não verbalizou isso". Ou seja, só poderá ser acusada de racismo, no Brasil, a pessoa que, além de agredir, discriminar, ofender, humilhar e até matar, o fizer aos gritos de "negro safado", ou equivalente.

Identificado por Luciano, o agressor, cercado por três policiais militares, conseguiu escapar. Os seguranças do shopping e a assessoria de imprensa negam que ele pertença ao aparato de segurança do local. Usava rádio, como os seguranças, sentiu-se autorizado a expulsar um cidadão de um lugar público, como se segurança fosse, mas não é. A administração do Fashion Mall supõe que ele seja um policial militar que faz a segurança de um cliente. Certo, só mesmo o Luciano, que achou que ia ser assaltado, quando viu o brutamontes partir para cima dele. E foi.

Cena puramente brasileira, por todos os seus ângulos, ela mostra o preconceito, o desmando, a ausência absoluta de valores de convivência coletiva e o desaparecimento da autoridade pública. Uma ordem civil em deterioração acelerada, mergulhando as cidades brasileiras no estado da natureza, onde é cada um por si e vale a lei do mais forte. Está tudo fora de ordem, na velha ordem nacional.

O Fashion Mall é o shopping mais sofisticado do Rio de Janeiro. Fica em São Conrado, bairro com 30% de negros entre seus habitantes, que chegam a 44% nas suas favelas, de acordo com levantamento recente feito pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets). Os negros que circulam por ele são raríssimos. Ficam do lado de fora – guardando carros – nos pontos de ônibus, andando pelas ruas ou na praia. Uma invisível fronteira racial cuida de deixá-los de fora do shopping chique. E, quando um ou outro passa o limite, arrisca-se a sofrer uma agressão como essa.

Menos sorte teve Flávio Ferreira, flagrado em local ermo da cidade de São Paulo, à noite, na sua negritude culposa. Flávio morreu por ser negro. Nem a carteira de identidade, que o pai sempre forçou os filhos a portar, o salvou. Mas, nos dias seguintes, deixou de ser Flávio, o rapaz negro, para ser "o dentista assassinado", principalmente no noticiário da TV. Ele era dentista formado cinco dias antes de sua morte e negro desde o nascimento. Do jeito que o programa Fantástico, da Rede Globo, tratou o assunto, no último domingo, até parece que foi assassinado por ser dentista.

Há quem tema que a denúncia do racismo provoque violência racial no Brasil. A violência está aí, como sempre esteve, senhoras e senhores. Unilateral. Contra os negros. O racismo é uma perversão cultural. Só pode ser tratado por meio de sua ampla, total e irrestrita denúncia. Quanto mais escondido, mais envenenará de ódio as novas gerações negras, mais informadas e mais inconformadas. A engrenagem da negação, o falseamento estatístico, o silêncio cúmplice, isto sim nos levará a situações-limite e radicais.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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