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Em
foco: Sérgio Abranches
Questão
de identidade
"Há
quem tema que a denúncia do racismo
provoque violência racial no Brasil. A violência
está aí, como sempre esteve, senhoras
e senhores. Unilateral. Contra os negros"
Luciano, Zeca e um outro amigo andavam pelo Shopping Fashion Mall,
na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando um segurança identificou
Luciano como traficante e o expulsou do local. Traficantes não
devem ser expulsos de lugares públicos. O procedimento elementar
seria convocar a polícia para detê-lo.
Mas esse estranho procedimento tem uma explicação
simples. É que esse fato, registrado no circuito fechado
de televisão do shopping, nada tem a ver com tráfico.
Luciano Ferreira da Silva, 18 anos, preto, e Zeca Veloso, 11 anos,
branco, são apenas rapazes de classe média. Luciano
é filho de criação de Caetano Veloso e se prepara
para fazer faculdade de música. Zeca é filho de Caetano
e Paula Lavigne. Nada como uma carteira de identidade para esclarecer
esses mistérios da nebulosa convivência social brasileira.
O que acabo de descrever é mais uma cena explícita
de racismo, do cotidiano brasileiro, que se repete em todos os shoppings
de classe média de todas as cidades do Brasil sempre que
um negro ousa transpor seu portal com desenvoltura de branco. Ganhou
a primeira página por causa da conexão com pessoas
famosas e reconhecidas. Mais, porque Caetano Veloso e Paula Lavigne
têm sentimento cívico, ao invés de esconder,
denunciaram a agressão racial.
Ilustração Ale Setti
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Os rapazes voltaram para casa e contaram a Paula, que chamou seu
pai e advogado, Arthur, e os levou à 15ª DP, no bairro
da Gávea, onde registraram a ocorrência. De racismo,
certo? Não. Apenas constrangimento ilegal. Arthur Lavigne
esclarece que, "embora seja evidente que o Luciano foi retirado
do shopping por ser negro, não se pode afirmar que a motivação
foi o racismo, porque o agressor não verbalizou isso". Ou
seja, só poderá ser acusada de racismo, no Brasil,
a pessoa que, além de agredir, discriminar, ofender, humilhar
e até matar, o fizer aos gritos de "negro safado", ou equivalente.
Identificado por Luciano, o agressor, cercado por três policiais
militares, conseguiu escapar. Os seguranças do shopping e
a assessoria de imprensa negam que ele pertença ao aparato
de segurança do local. Usava rádio, como os seguranças,
sentiu-se autorizado a expulsar um cidadão de um lugar público,
como se segurança fosse, mas não é. A administração
do Fashion Mall supõe que ele seja um policial militar que
faz a segurança de um cliente. Certo, só mesmo o Luciano,
que achou que ia ser assaltado, quando viu o brutamontes partir
para cima dele. E foi.
Cena puramente brasileira, por todos os seus ângulos, ela
mostra o preconceito, o desmando, a ausência absoluta de valores
de convivência coletiva e o desaparecimento da autoridade
pública. Uma ordem civil em deterioração acelerada,
mergulhando as cidades brasileiras no estado da natureza, onde é
cada um por si e vale a lei do mais forte. Está tudo fora
de ordem, na velha ordem nacional.
O Fashion Mall é o shopping mais sofisticado do Rio de Janeiro.
Fica em São Conrado, bairro com 30% de negros entre seus
habitantes, que chegam a 44% nas suas favelas, de acordo com levantamento
recente feito pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade
(Iets). Os negros que circulam por ele são raríssimos.
Ficam do lado de fora guardando carros nos pontos
de ônibus, andando pelas ruas ou na praia. Uma invisível
fronteira racial cuida de deixá-los de fora do shopping chique.
E, quando um ou outro passa o limite, arrisca-se a sofrer uma agressão
como essa.
Menos sorte teve Flávio Ferreira, flagrado em local ermo
da cidade de São Paulo, à noite, na sua negritude
culposa. Flávio morreu por ser negro. Nem a carteira de identidade,
que o pai sempre forçou os filhos a portar, o salvou. Mas,
nos dias seguintes, deixou de ser Flávio, o rapaz negro,
para ser "o dentista assassinado", principalmente no noticiário
da TV. Ele era dentista formado cinco dias antes de sua morte e
negro desde o nascimento. Do jeito que o programa Fantástico,
da Rede Globo, tratou o assunto, no último domingo, até
parece que foi assassinado por ser dentista.
Há quem tema que a denúncia do racismo provoque violência
racial no Brasil. A violência está aí, como
sempre esteve, senhoras e senhores. Unilateral. Contra os negros.
O racismo é uma perversão cultural. Só pode
ser tratado por meio de sua ampla, total e irrestrita denúncia.
Quanto mais escondido, mais envenenará de ódio as
novas gerações negras, mais informadas e mais inconformadas.
A engrenagem da negação, o falseamento estatístico,
o silêncio cúmplice, isto sim nos levará a situações-limite
e radicais.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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