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Ponto
de vista: Lya Luft
As elites e o povão
"Talvez elite
verdadeira fosse a dos bem informados.
Um povo pouco informado
acredita no primeiro demagogo que aparece
e, por cegueira ou por carência, segue o
caminho de seu próprio infortúnio"
É cansativo, é
irritante, isso de falar em elites e povão, como se só
o chamado povão fosse honesto e merecedor de confiança
e tudo que se liga à "elite" significasse o pior quanto à
moral, ao valor e à confiabilidade.
Ilustração Atomica Studio
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É mal-intencionado dizer que só a elite é saudável,
educada, merecedora das boas coisas da vida e o povão é
sujo, grosseiro e não vai melhorar nunca.
Precisamos ter, repito uma vez
ainda, cuidado com as palavras, que podem ser perigosas armadilhas.
Isso vale para nós, colunistas, para nossos críticos
bem ou mal-intencionados, para políticos, para governantes,
para cada um de nós em particular.
E, afinal, o que é essa
"elite"? Quem a constitui? Parece que existem várias.
Elite social Nada mais
triste do que ler: "Fulana de Tal, socialite". Tem profissão?
Tem família? Faz alguma coisa da vida? Não, ela é
socialite. O marido, ou o filho, ou o companheiro dessa fina dama
seria o quê? Um socialite, também? Singularmente ainda
não vi o termo usado no masculino. Talvez porque na nossa
utopia os homens sempre têm profissão e ganham o dinheiro,
isto é, são úteis, enquanto as mulheres ornamentam
seu lado público.
Elite intelectual Dessa,
já gostei mais. Porém, cuidado: o grau de intelectualidade
não reside na quantidade de diplomas, alguns fajutos, adquiridos
no exterior em universidades com nomes pomposos. O intelectual de
primeira é o que de verdade pensa, lê, estuda, escreve,
pesquisa e atua. Cultiva a simplicidade e detesta a arrogância,
companheira da inteligência limitada.
Elite financeira Bem,
pode ser impressionante, porém cansei de ver gente endinheirada
palitando os dentes à mesa ou tratando mal garçons
ou empregados.
Elite artística
É coisa para pensar. Mas traz seus perigos, porque os de
sucesso correm o risco fatal de ser mordidos pela mosca azul e botar
aquela máscara de nariz empinado; os de menos sucesso estão
sob ameaça de vender a alma ao diabo do ressentimento.
Elite política
Difícil de comentar, aqueles em quem a gente ainda votaria
não ocupam os dedos todos da minha mão direita. Pois
essa seria uma seleção de homens íntegros,
querendo o bem de todos: não só dos afortunados, nem
só dos mais pobres.
Talvez elite verdadeira fosse
a dos bem informados e instruídos, não importa em
que grau, não importam dinheiro nem sofisticação.
Um povo pouco informado acredita no primeiro demagogo que aparece,
engole suas mentiras como pílulas salvadoras e, por cegueira
ou por carência, segue o caminho de seu próprio infortúnio.
Seria melhor largar essa bobagem
de elite versus povão e pensar em habitantes deste planeta
e deste país. Todos merecendo melhor cuidado com a saúde,
melhores escolas e universidades, melhores condições
de vida, melhor salário, melhores estradas, lugares de lazer
mais bem-cuidados, mais tranqüilos e seguros, menos impostos,
menos mentiras. Mais oportunidades, mais sinceridade, mais vida.
Melhor uso das palavras. Mais respeito pela inteligência comum
e pelo bom senso.
É demasiado fácil
enganar o povo apontando o dedo para alguns que descobrem verdades
ocultíssimas e acusar para não ser acusado: "Olhaí,
é coisa das elites".
Então, velhíssima
fórmula tão pouco aplicada, comecemos pela educação.
Mas não venham com a empulhação quanto aos
analfabetos a menos no país. Alfabetizado não é
quem aprendeu a assinar o nome: é quem antes leu e compreendeu
aquilo que vai assinar, pois, se optar errado, a exploração
de sua ignorância vai pesar sobre seus ombros por mais um
longo tempo de altos juros.
Mais cuidado com palavras, pois
elas podem se transformar, de pedras preciosas, em testemunho de
ignorância ou má vontade, ou ainda em traiçoeiros
punhais.
Lya Luft é escritora
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