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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Mulher no comando:
isso faz diferença?
O caso pioneiro do Chile
pode fornecer uma pista na busca de
uma resposta a essa questão
A eleição de Michelle
Bachelet para presidente do Chile assinala, salvo engano (e é
difícil haver engano nessa matéria), a primeira ascensão
de uma mulher, em nosso tempo (e talvez em todos os tempos), ao
comando de um país. Já se ouve um coro de vozes a
reclamar: e Margaret Thatcher? E Indira Gandhi? Resposta: essas
são homens, como quem tem um mínimo de discernimento
é capaz de constatar. E a nova chanceler da Alemanha, Angela
Merkel? Homem, também. E a falecida ex-primeira-ministra
de Israel, Golda Meir? Homíssima.
Quando não são
homens, as pessoas do sexo feminino alçadas à chefia
de nações são sombras. É o caso de Corazón
Aquino, nas Filipinas, ou de Violeta Chamorro, na Nicarágua.
São pessoas que chegam a uma Presidência da República
ou a uma chefia de gabinete por sua condição de "esposas",
ou, melhor ainda, de "viúvas". As sobras de prestígio,
ou, melhor ainda, a aura de mártir dos maridos, são
a razão da elevação delas ao poder. Outro exemplo
da espécie, este de conseqüências dramáticas,
é o de Isabelita Perón, alçada à Presidência
da Argentina na condição de dupla sombra: do marido,
Juan Domingo Perón, e da mulher anterior dele, Evita. Era
sombra demais para os frágeis ombros da ex-bailarina. Seu
governo, marcado pelo caos e pelo arbítrio, ainda de quebra
marcou a porta de entrada da Argentina rumo ao inferno do mais cruel
de seus períodos militares.
Tirando as monarquias, nas quais
em um ou outro país pessoas do sexo feminino são instadas
a representar funções semelhantes às de um
pano de bandeira, pode-se agregar um terceiro caso o das
meio-mulheres. Estas não são homens nem sombras. Elegeram-se
por méritos próprios e, ao que consta (governam países
distantes, dos quais temos escassas notícias), exercem seu
mandato com competência. É o caso, entre outros, das
presidentes da Finlândia (Tarja Halonen) e da Irlanda (Mary
McAleese). Ou da ex-primeira-ministra da Noruega, Gro Brundtland.
O que as caracteriza como meio-mulheres é que, ao contrário
de Michelle Bachelet, não se elegeram, seja por opção
pessoal, seja porque a cultura política de seus países
prescinde disso, na plena e cabal condição de mulher.
Bachelet é um caso único
e pioneiro porque se elegeu recendendo a mulher, alardeando-se mulher.
Ao saudar o povo reunido para festejar a vitória, em Santiago,
suas primeiras palavras foram: "Boa noite, amigos e amigas. Quem
pensaria? Quem pensaria, vinte, dez ou cinco anos atrás,
que o Chile elegeria uma mulher para presidente?". Ser mulher foi
uma plataforma política em sua campanha. Mas não uma
mulher qualquer. Bachelet é divorciada, tem três filhos
de dois casamentos e, para completar, confessa-se agnóstica.
É a mulher que vem com tudo, não a mulher que chega
por baixo.
Ela é tão mulher
que convida a perguntas como se tem namorado ou se é possível
ocupar cargos políticos e cuidar dos filhos. Mas é
tão mulher que se recusa a responder a elas. "Você
não faria essa pergunta a um homem", costuma replicar. (No
Brasil, a senadora Heloísa Helena vive assediada por perguntas
desse tipo e, curiosamente, dada sua pugnacidade, aceita dar-lhes
resposta.)
Existe um modo feminino de governar?
Um mundo governado por mulheres seria diferente? Atentemos ao governo
Bachelet. Ele poderá fornecer algumas pistas na investigação
dessas questões. Governos são entidades nascidas à
sombra da predominância dos machos e desenvolvidas sob o impacto
de esmagadoras doses de testosterona. Das disputas decididas na
força aos conchavos tramados em salões tomados pelo
cheiro de uísque e pela fumaça de charuto, o poder
político foi território reservado ao sexo masculino.
Mulheres-homens, como Thatcher ou Golda Meir, aprenderam desde cedo
a nadar como peixes, nesse ambiente, e por isso governaram como
machas. Suas experiências são tão inúteis,
para o efeito de discernir uma possível especificidade feminina
no modo de governar, quanto as das mulheres "sombras", cujo destino
é ser teleguiadas pelos machos arranchados à sua volta.
O Chile vive uma quadra que o
distingue nesse assunto. O presidente que ora encerra seu mandato,
Ricardo Lagos, teve quatro mulheres em seu gabinete de dezesseis
ministros. Não é pouco, considerando-se as tradições
da América Latina, mas mais importante é que, das
quatro, duas se destacaram a ponto de se impor como as melhores
candidatas à sucessão Bachelet, que foi ministra
da Saúde e da Defesa (da Defesa!, ela que é socialista
e filha de um general morto nos cárceres do general Pinochet),
e Soledad Alvear, a ministra das Relações Exteriores.
A prévia da Concertación, a coligação
que governava e continuará governando o país, se deu
entre as duas, o que já configurava um caso raro. Bachelet,
de sua parte, promete formar um gabinete "paritário", quer
dizer, distribuído entre homens e mulheres em igual proporção.
Nesse processo, alguns enxergam uma espécie de revolução
cultural. Dá-lhe, Bachelet! Fiquemos de olho.
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