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Brasil
...e o segundo turno desapareceu
Na última pesquisa do Ibope, só
se
divulgou o resultado do primeiro turno.
Quem ganhou com isso foi Garotinho

Ronaldo França
Paulo Liebert/AE
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Ricardo Stuckert/PR
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Daniel de Cerqueira/AE
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José Serra e Lula (acima) continuam
na liderança da corrida presidencial. No segundo turno,
o tucano teria 45%, contra 42% do petista. Mas isso não
foi divulgado: um erro assim... pequenininho, que por acaso
ajuda o candidato a candidato Anthony Garotinho |
Na noite da última quinta-feira, o Jornal
Nacional informou com exclusividade os resultados da mais recente
pesquisa do Ibope sobre a eleição presidencial. No
dia seguinte, os principais jornais do país também
publicaram os números. O quadro eleitoral apresentado não
se alterou substancialmente. O que chamou atenção
foi a forma como a pesquisa foi divulgada. Os veículos informaram
que o Ibope não pesquisou as intenções de voto
para o segundo turno – e isso não é verdade. O Ibope
pesquisou, sim, o segundo turno. Está na pergunta número
8 do questionário aplicado pelos pesquisadores e disponível
no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde o início da semana
passada. O Ibope constatou, inclusive, que as intenções
de voto no presidente Lula no segundo escrutínio aumentaram.
Em dezembro, ele tinha 35% dos votos e hoje está com cerca
de 42%. Já José Serra, que em dezembro tinha 48%,
caiu para algo em torno de 45%. Lula, aliás, ganha de todos
os outros candidatos no segundo turno. Menos de Serra. Como a margem
de erro foi de 2 pontos porcentuais, para mais ou para menos, estariam
num empate técnico. Os números estarão à
disposição de todos no TSE na segunda-feira. Tudo
isso, que os leitores e telespectadores adorariam saber, foi omitido.
A TV Globo e os jornais foram, portanto, induzidos a erro. A empresa
Três Editorial Ltda., mais conhecida como Editora Três,
que publica a revista IstoÉ, pagou 126.000 reais pela
pesquisa, registrou-a no TSE e intermediou sua divulgação
na televisão. A forma como foi apresentada, só com
os cenários relativos ao primeiro turno, beneficia o ex-governador
do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, que neste momento luta pela
indicação de seu nome como o candidato do PMDB nas
próximas eleições e cujas ligações
com a Editora Três saltam aos olhos.
Nenhuma pesquisa eleitoral feita agora é
capaz de avaliar com rigor as reais chances dos postulantes ao cargo.
Elas servem apenas para influir nas convenções que
os partidos farão para escolher seus candidatos. E no PMDB
a briga interna é feia. O partido, uma espécie de
balaio de gatos da política brasileira, tem longa tradição
de divisões internas. Os números da pesquisa indicam
que, no primeiro turno, Garotinho estaria em terceiro lugar, com
16% das intenções de voto, caso a disputa incluísse
o presidente Lula (38%) e Geraldo Alckmin (17%). E que ele se manteria
nessa posição, com 12%, se o candidato do PSDB fosse
Serra (31%). Essa informação tem importância
na batalha campal que é a convenção do PMDB.
A pesquisa mostra que um de seus principais oponentes na disputa
interna do partido, o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto,
oscila entre 2% e 3% das intenções do eleitorado,
de acordo com o cenário apresentado. Garotinho figuraria
então como o nome mais forte em seu partido. Esse é
o recado que, marotamente, o ex-governador do Rio de Janeiro pretendeu
passar.
A omissão da parte da pesquisa relativa ao
segundo turno obedeceu às conveniências de Garotinho
em um aspecto adicional. O crescimento de Lula no segundo turno,
em relação à pesquisa feita em dezembro, dá
fôlego à ala governista do PMDB, comandada pelo senador
José Sarney, que cogita uma eventual coligação
com o PT. Caso os aliados peemedebistas do governo se fortaleçam,
a reboque do crescimento de Lula, existe a chance – ou o risco,
dependendo do ponto de vista – de o partido optar por não
ter candidatura própria. Essa é uma possibilidade
que assombra o ex-governador do Rio, cuja presença no partido
é vista com muita desconfiança por seus pares. Ao
longo de sua carreira, Garotinho já trocou de partido quatro
vezes. Estreou no PT de Campos, no norte fluminense, esteve no PDT,
mudou-se para o PSB após uma briga com o ex-governador Leonel
Brizola e foi parar no PMDB, uma das maiores máquinas eleitorais
do país. É a desconfiança de seus pares que
faz com que ele precise se fortalecer internamente.
Basta uma requisição ao Tribunal Superior
Eleitoral para que se obtenha o formulário de pesquisa registrado
pelo Ibope no último dia 13. Constata-se nele que a pesquisa
patrocinada pela Editora Três foi feita à perfeição
para atender aos interesses do ex-governador do Rio. Chega-se a
perguntar aos entrevistados, nas questões 17 e 18, do que
gostam ou não gostam em Garotinho. Nenhum outro candidato
mereceu pergunta semelhante. Na questão 19, o Ibope perguntou
que ações fariam o entrevistado votar em Garotinho.
Incluem-se na lista opções como "mostrar que é
a favor dos pobres", "mostrar que saberá combater a corrupção
e a impunidade" e "não misturar religião com política".
Deveria ter sido incluída, ainda, mais uma alternativa: "Não
enganar jornalistas, emissoras de TV e jornais para beneficiar-se
em disputa interna partidária". Poderia surgir dela uma lição
importante para o candidato Garotinho. A de que a mentira tem pernas
curtas, como as de um menininho.
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