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Entrevista:
Osmar Serraglio Não
vai acabar em pizza O relator da CPI
garante que os responsáveis por corrupção serão indiciados
e diz que o presidente da República foi negligente  Alexandre
Oltramari
Ana Araujo
 | "A
CPI vai pedir o indiciamento de Duda Mendonça por todos os crimes que sabemos
que ele cometeu e por todos os outros que viermos a descobrir" | |
O deputado Osmar
Serraglio, do PMDB do Paraná, não foi escolhido por acaso para relatar
a CPI dos Correios. Até junho do ano passado, quando as investigações
começaram, Serraglio era o perfil ideal para conduzir um trabalho que,
aparentemente, tinha o objetivo de não apurar nada. Além de ser
muito próximo ao ex-ministro José Dirceu, o deputado era do PMDB,
partido aliado do governo, e ainda foi indicado pelo correligionário José
Borba, então homem de confiança do Palácio do Planalto. As
investigações conduzidas por Serraglio, no entanto, já levaram
à cassação do mandato do deputado José Dirceu e à
renúncia do deputado José Borba, o seu padrinho. Aos 57 anos, casado
e pai de uma filha, Serraglio promete mais. Ele diz que o presidente Lula tem
uma enorme parcela de culpa pelo esquema de corrupção desvendado
e que vai citá-lo no relatório final. Também afirma que o
publicitário Duda Mendonça era peça central no esquema de
corrupção petista e que a CPI o convocará para depor. O deputado
descarta qualquer possibilidade de as investigações terminarem em
um grande acordo para não punir ninguém, conforme desejam várias
lideranças do Congresso, inclusive algumas de seu próprio partido.
Veja Há uma
desconfiança geral de que a CPI pode terminar num grande acordo para não
punir ninguém. Essa possibilidade existe? Serraglio
Eu acho impossível ocorrer um fiasco. Se a CPI terminasse hoje, ainda assim
não poderia ser considerada um fracasso. Você acha que José
Dirceu (ex-ministro da Casa Civil) teria caído se não houvesse
uma CPI com credibilidade? Gushiken (ex-ministro da Secretaria de Comunicação),
todos os diretores de estatais, todos os contratos que foram rescindidos... Há
uma revolução administrativa no governo. Por isso tudo a CPI já
valeu. Veja Mas o
senhor mesmo vive advertindo sobre a possibilidade de um acordão para salvar
os deputados ameaçados de cassação. Serraglio
Sim, porque há um exército em atuação para
evitar as punições que ainda não se verificaram. Se todos
esses partidos envolvidos no mensalão se reunirem, poderão não
permitir a cassação de ninguém. Devemos ficar alertas para
tal possibilidade. O meu partido, o PMDB, também tem parcela de culpa,
assim como o PTB, o PL, o PP, o PT, o PFL. Essas forças juntas podem evitar
qualquer cassação e precisam ser combatidas pela opinião
pública. Veja
O que as últimas revelações sobre novas contas secretas
do publicitário Duda Mendonça acrescentaram às investigações
da CPI? Serraglio Duda Mendonça era o grande coordenador
da publicidade no governo petista. Foi ele que elegeu o presidente da República.
Como Duda costumava negociar contratos futuros caso o candidato vencesse as eleições,
é de supor que ele tenha feito isso também no governo de Lula. Marcos
Valério, que sempre foi apontado como o grande responsável pela
operação do caixa dois do PT, agora parece apenas um apêndice
do esquema que tinha Duda Mendonça como personagem central. Veja
Diante dessa constatação, o que a CPI pretende fazer
a respeito? Serraglio Vamos convocá-lo para depor
novamente. Aliás, no que se refere ao senhor Duda Mendonça, tudo
é sempre muito difícil. Até hoje a CPI não conseguiu
nem ter acesso aos dados da conta que o próprio Duda confessou possuir
no exterior. Criou-se uma situação paradoxal. O pedido de acesso
à documentação dele, feito pelo governo federal, não
incluiu a CPI. E, pelos acordos de cooperação, todos os usuários
das informações requisitadas têm de ser apontados no requerimento.
A CPI ficou de fora. Veja
Não estaria incorreta então a conclusão de que, ao
menos nesse caso, a investigação terminará em pizza...
Serraglio Nós vamos começar a aumentar o tom,
a bater mais forte em relação a Duda. Vamos criar uma situação
constrangedora. Temos todos esses dados da conta Düsseldorf no Brasil e não
podemos acessá-los. É um absurdo! Há na CPI requerimentos
para convocar o ministro Márcio Thomaz Bastos e a doutora Wanine Lima (coordenadora
do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação
Jurídica Internacional), que não parecem muito dispostos a colaborar.
Há uma concepção se formando na CPI de que, se não
tivermos acesso a esses dados, será necessário criar uma situação
política constrangedora para o ministro da Justiça, para que ele
tome uma posição muito mais firme na defesa das prerrogativas da
comissão. Veja
Já existem provas suficientes para processar Duda Mendonça por
falso testemunho, sonegação fiscal, peculato, evasão de divisas
e lavagem de dinheiro... Não seria o caso de levar quanto antes o caso
do publicitário para a esfera criminal? Serraglio
A CPI vai pedir o indiciamento de Duda por todos esses crimes e por todos os outros
que viermos a descobrir. Vamos investigar se esse dinheiro todo que ele movimentou
tem alguma ligação com o financiamento de campanhas políticas
do PT. Veja Duda
Mendonça era freqüentador assíduo do Palácio do Planalto.
Dá para acreditar que o presidente também não sabia de nada
a respeito das maracutaias do publicitário? Serraglio
Que o presidente Lula tinha ciência, ele tinha. Só não posso
dizer quanto ele sabia. O suposto empréstimo ao PT, por exemplo, está
hoje em 100 milhões de reais. À Coteminas, empresa do vice José
Alencar, o PT deve 11 milhões de reais. Duda Mendonça disse que
fez as campanhas do partido do presidente por 25 milhões de reais mas recebeu
apenas 10,5 milhões. Duda, portanto, ainda tem 14,5 milhões para
receber. O PT ia construir uma sede em São Paulo com 15 milhões
de reais. É difícil acreditar que Lula não viu um caixa paralelo
de mais de 140 milhões de reais. Veja
O presidente Lula disse na televisão que não acredita
na existência do mensalão. Serraglio O presidente
está errado ao dizer que não existem provas do mensalão.
É um absurdo. Eu sou advogado. O tesoureiro do PT confessa ter distribuído
dinheiro a deputados, líderes e presidentes de partidos da base aliada.
Há extratos bancários demonstrando isso. Há a confissão
e a renúncia de líderes e presidentes de partidos. Há coincidências
de repasse de dinheiro com a mudança de parlamentares de partido e com
votações de interesse do governo. Só o PL, que deu o vice
a Lula, recebeu 24 transferências em menos de seis meses de 2003. São
pagamentos semanais, contínuos, em valores muito semelhantes. Como é
que não existem provas do mensalão? Veja
O presidente Lula será citado em seu relatório final?
Serraglio Em direito, há a responsabilidade objetiva
e a subjetiva. Está claro que o presidente falhou no que se refere a esta
última. Quando se trata de crime de responsabilidade, que é o que
embasa o julgamento político, não é preciso provas documentais
claras. É preciso saber se há culpa. E o presidente Lula aproxima-se
da culpa. Veja Aproxima-se?
Serraglio Há três tipos de culpa: por imprudência,
por imperícia e por negligência. No caso de Lula, não se trata
de imprudência nem de imperícia. O presidente não conseguiu
reconhecer indícios de corrupção no partido dele, na campanha
dele e no governo dele. Não conseguiu perceber como seu partido foi eleito
como uma minoria e formou uma maioria. Ele foi negligente no governo. Escolheu
José Dirceu como seu braço-direito. Ele tinha de ter sido mais vigilante,
tinha de ter se dado conta das coisas que estavam acontecendo. É responsabilidade
dele. Veja E essa
negligência do presidente Lula será incluída em seu relatório
final? Serraglio Com certeza. A sociedade quer saber se,
afinal, o presidente tem ou não culpa nesse esquema de corrupção.
Alguma culpa, é óbvio, ele tem. Na melhor das hipóteses,
é culpado por negligência, por não ter percebido esse quadro
todo. Isso estará no relatório. Veja
Essa citação do presidente no relatório da
CPI pode ter alguma conseqüência prática? Serraglio
Tal conseqüência não é mais possível.
Havia condições práticas para o impeachment, mas firmou-se
a opinião de que era inadequado partir para o tudo ou nada às vésperas
de uma eleição. Para que uma ruptura traumática se há
mecanismos mais corretos e mais legítimos como uma eleição?
Na hora em que se esboçava uma reação que poderia levar ao
impeachment, a opção foi descartada. Veja
A culpa por negligência seria suficiente para a abertura de
um processo de impeachment? Serraglio Sem dúvida.
O juízo político é uma decisão do Congresso. A autoridade
competente para o julgamento político é o Parlamento. Nem o Supremo
pode influir em um processo político. É uma decisão sobre
uma responsabilidade subjetiva. Alguém pode ser cassado sem sequer saber
o que aconteceu, apenas porque o que aconteceu estava sob seu comando. Ele pode
ser cassado porque nomeou, porque é o comandante. No julgamento político
não é necessária a comprovação da culpa, mas
apenas o convencimento da culpa pelos pares que vão participar do julgamento.
A Justiça só pode observar se o procedimento foi obedecido. Veja
Os petistas andam discutindo a possibilidade de apresentar um relatório
paralelo, repetindo o fiasco da CPI do Banestado, que chegou ao fim com dois relatórios,
um do governo e um da oposição, e nenhuma conclusão. O senhor
não teme que o fiasco se repita? Serraglio Se eu
ainda não fiz o meu, como se pode ter um relatório paralelo? É
algo que o PT já deveria ter apreendido. Eles só aprenderam a bater.
Não aprenderam a construir. Isso mostra que os petistas ainda não
compreenderam o momento histórico que estamos vivendo. Veja
Pelo que se sabe hoje, quem é Marcos Valério?
Serraglio É um cidadão muito esperto. Ele viu
que poderia ser útil e se aproximou do PT para atuar de uma forma que ele
já conhecia. Valério era especialista em procurar fornecedores de
governos e recolher dinheiro para partidos. É um corrupto. Veja
Existe alguma chance de Marcos Valério sair impune?
Serraglio Não. Ele vai ser indiciado por corrupção,
lavagem de dinheiro, fraude em licitação, sonegação
fiscal, evasão de divisas. São inúmeros os seus crimes...
Veja E quanto a Delúbio
Soares? Serraglio Será indiciado por corrupção,
falsidade ideológica, tráfico de influência... Veja
José Dirceu? Serraglio Corrupção.
Veja Corrupção?
Serraglio Corrupção.
Veja Mas Dirceu vive dizendo que não
existem provas contra ele. Serraglio Prova não é
só documento. Há muitos testemunhos contra ele. Nenhuma das negociações
escusas com os partidos se concluiu sem a anuência de Dirceu. A grande maioria
dos membros do Congresso Nacional sabe como as coisas aconteciam. Nós víamos
isso aqui. Quando Roberto Jefferson denunciou o mensalão, ninguém
ficou surpreso. Além disso, não podemos esquecer que a ex-mulher
de Dirceu recebeu empréstimo e emprego de um banco, o BMG, que foi beneficiado
pelo governo em contratos com aposentados. Veja
Como a CPI vai provar que os empréstimos ao PT são
fajutos? Serraglio Eles nunca foram contabilizados. Ou
melhor, só foram contabilizados depois de descobertos, no fim do ano passado.
Além disso, as garantias são insuficientes, em desacordo com as
exigências praticadas no mercado, as renovações eram sistemáticas
e, o que é fundamental, os empréstimos nunca foram cobrados. Ora,
empréstimo que não é pago nem é cobrado não
é empréstimo, é doação. Por fim, a CPI descobriu
que o dinheiro começou a jorrar do valerioduto antes de os bancos credores
começarem a liberar os recursos dos supostos empréstimos. É
tudo montagem. Veja Quem
pagou o mensalão? Serraglio Foi o PT, com esses
empréstimos forjados, cuja origem ainda desconhecemos, e o dinheiro desviado
do Banco do Brasil pela Visanet. Veja
Há meia dúzia de bancos que não entregaram
dados confiáveis à CPI. Como uma CPI pode ser exitosa se não
tem força sequer para conseguir que meia dúzia de bancos entreguem
documentos idôneos e confiáveis? Serraglio
Todos esses bancos nos procuraram para afirmar que entregarão os documentos.
Há uma deficiência técnica no sistema que eles prometem sanar.
Não vamos concluir a CPI sem esses dados. Se necessário, vamos ao
Banco Central apreender, fazer o que for necessário. Veja
Depois dessa CPI, dessa crise de corrupção, alguma
coisa vai mudar na política do Brasil? Ou caixa dois e compra de parlamentares
continuarão existindo? Serraglio É triste,
mas, em tese, tudo isso pode voltar a acontecer. Mas acho que não será
mais nesse nível. Hoje, há muitos olhos vigiando o que os políticos
fazem. Quem não perceber isso se dará mal. |