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O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO Norman Mailer Tradução: : Marcos Aarão Reis e Valéria Rodrigues Record 206 páginas 20 reais |
O pastor ou padre ou rabino têm à disposição uma variedade de instrumentos homiléticos (de homilética, a arte de pregar sermões religiosos) para preparar suas pregações. Um dos melhores é a Bíblia do Intérprete (a minha tem doze volumes). Nela, o estudioso encontra o texto bíblico em duas versões, uma clássica e outra moderna. Logo abaixo vem uma exegese, ou seja, esclarecimentos sobre o texto. E, no final, comentários relacionando o contexto com as necessidades humanas do dia-a-dia.
A façanha de Norman Mailer, em seu trigésimo livro, não é somente ter conseguido escrever O Evangelho Segundo o Filho na primeira pessoa, como se fora o próprio Jesus Cristo o autor, mas transcrever suas palavras já aclaradas pelas luzes da exegese homilética. Suas fontes primárias são os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos (principalmente), Lucas e João, as quatro biografias bíblicas de Jesus Cristo. Transparecem a todo instante a origem e o conhecimento judaicos de Mailer, quando faz citações do Antigo Testamento. Seu personagem central é, afinal, um judeu também. Nisso o livro é diferente das produções romanceadas de José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e de Frei Betto, Entre Todos os Homens, ambas na terceira pessoa. O Evangelho Segundo o Filho não é um romance, com ações e personagens fictícios. É uma novela (definida no Aurélio como "narração, usualmente curta, ordenada e completa, de fatos via de regra verossímeis") fiel às quatro biografias do Novo Testamento.
Nem sempre uma
exegese segue o padrão mais de acordo com a tradição. A
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, por exemplo,
sofreu restrições de setores da CNBB porque seus
comentários estariam afinados com a teologia da
libertação. Cineastas também fizeram exegeses
próprias, como o Pier Paolo Pasolini de O Evangelho
Segundo São Mateus. Mas o Espírito Santo está
ortodoxamente presente no livro de Norman Mailer, bem
como o nascimento virginal de Cristo, seus milagres e sua
ressurreição
seu lado divino. Seu lado
humano também
cansaço, dúvidas, fome,
medo, tentação. O livro tem muito pouco com que
assustar o leitor cristão. O autor esmerou-se na
preparação, lendo largamente a literatura do judaísmo
antigo e do primeiro século, bem como os textos
produzidos pelas assim chamadas seitas apócrifas de
Jesus. Ele incorporou e honrou essas tradições.
A Tradução:
merece elogios. Texto ágil, frases curtas de fácil
leitura, sem anglicismos. Quatro exemplos: "Os
fariseus diriam que eu era demônio, e daí? Meu poder
trouxera de volta à vida um morto já meio
apodrecido" (pág. 126). "Eu não me dispunha a
construir igrejas, mas a conduzir os pecadores à
salvação" (pág. 137). "Os narigudos costumam
ser inteligentes" (pág. 185). "Penso na
esperança que se oculta na face dos pobres" (pág.
204). É livro para ler numa sentada só. Certamente, uma
forma inusitada de ler Mateus, Marcos, Lucas, João e
por que não?
Mailer.
Jaime Wright*
*O
reverendo Jaime Wright foi coordenador do projeto
"Brasil: Nunca Mais". É presidente da
Fundação Samuel.
Infantis
Depois de uma época em que os best-sellers da área infanto-juvenil foram os livros-brinquedo, estão de volta os livros que servem para ler e despertam a criança para esse hábito saudável.
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O PINTOR, A CIDADE E O MAR Monika Feth Ilustrações: Antoni Boratínski Brinque-Book 32 páginas 14 reais |
Numa história
simples, e usando uma linguagem envolvente e poética,
esse livro de Monika Feth, uma craque no gênero, aborda
vários temas complexos
a
angústia da criação artística, a necessidade de
realizar os próprios sonhos, o envelhecimento, a morte.
Para crianças um pouco mais crescidas, é aquele tipo de
obra que dá o que pensar. Um bom livro, tanto para
crianças como para adultos, não é aquele que fornece
respostas, mas o que deixa perguntas no ar. Com sua trama
arrebatadora e instigante, O Pintor, a Cidade e o
Mar fornece munição para que as crianças
bombardeiem os pais com dezenas de questões depois de
sua leitura. Trata-se de um dos melhores lançamentos do
gênero nos últimos tempos.
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O DIABO DOS NÚMEROS Hans Magnus Enzensberger Tradução: : Sérgio Tellaroli Companhia das Letras 266 páginas 29 reais |
Este é para aquele garoto na faixa de 10 anos que todo ano leva bomba em matemática. Para desmistificar essa matéria tão complicada, ninguém melhor do que o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger, que desenvolveu o raciocínio abstrato em aulas de filosofia na Sorbonne de Paris. O livro narra doze sonhos de um garoto chamado Robert, com quem o leitor se identifica de imediato. Esses sonhos são assombrados por um diabinho vermelho e esperto de nome Teplotaxl, que é um gênio da matemática. O segredo do livro é que ele foge de números e fórmulas, fazendo com que a criança entenda o raciocínio por trás de cada problema. É o mesmo princípio de dois clássicos do gênero "matemática popular", No Mundo dos Números, de Isaac Asimov, e O Homem que Calculava, de Malba Tahan.
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O TERNO TANTO FAZ COMO TANTO FEZ
Sylvia Plath Tradução: : Lia Wyler Ilustrações: Rotraut Susanne Berner Editora Rocco 42 páginas 12,50 reais |
Em O Terno Tanto Faz como Tanto Fez, uma deliciosa incursão pela literatura infantil, a poeta americana Sylvia Plath toma como ponto de partida o grande drama dos caçulas: herdar as roupas usadas à exaustão pelos irmãos mais velhos. A trama é engenhosa, bem-humorada e não se preocupa em veicular conselhos aborrecidos. O jogo lúdico com as palavras, como só uma poeta é capaz de fazer, é outro elemento de atração da leitura. Apesar de sofisticado, este que é o único livro infantil de Sylvia Plath pode ser entendido até por crianças bem pequenas. Se é possível extrair uma moral desta historinha cativante, ela é a mais otimista possível, para os filhos e para os pais: a de que nem sempre abrir o berreiro ou ficar emburrado no quarto é a melhor maneira de uma criança realizar os próprios desejos.
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COMO VIVER PARA SEMPRE Collin Thompson Tradução: Gilda de Aquino Brinque-Book 32 páginas 19 reais |
Para despertar na
criança o amor à leitura, nada como uma biblioteca
onde, depois que todos vão embora, as estantes se
transformam em ruas de uma cidade, e os livros são casas
habitadas por personagens fascinantes. Esse é o cenário
de Como Viver para Sempre
e
não é o único encanto do livro. Sua narrativa em forma
de fábula recupera algo dos antigos contos de viagens do
passado. As ilustrações, feitas pelo próprio Collin
Thompson, são belíssimas, e o texto lida com uma
questão aparentemente complicada, mas que faz parte do
imaginário de várias histórias infantis famosas
a
da eternidade. O desejo de nunca envelhecer surge em
histórias como Peter Pan
onde os personagens, desejando continuar crianças,
migram para a terra do nunca
e
ganha um tratamento original em Como Viver para
Sempre. A mensagem que aparece no final do livro é
otimista, ainda que agradavelmente estranha.
Neuza Sanches
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Fernando Henrique Cardoso Presidente da República "O livro revela a riqueza da trajetóriade um pensamento crítico de si mesmo, que é dialético no melhor sentido da palavra." |
| AUTO-SUBVERSÃO
Albert O. Hirschman |
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A CANÇÃO NO TEMPO - 85 ANOS DE MÚSICAS BRASILEIRAS Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello Editora 34 366 páginas 33 reais |
Nunca a história
da MPB foi contada de forma tão original e divertida
como neste livro. Amparados numa pesquisa que durou onze
anos, feita em arquivos, livros e depoimentos, os autores
relatam como nasceram as músicas brasileiras mais
importantes e de maior sucesso no período de 1901 a 1957
(um segundo volume, a ser lançado, estenderá o
mapeamento até 1985). A maioria dos 267 verbetes contém
histórias saborosas que, ao mesmo tempo, vão traçando
o perfil e a biografia dos grandes compositores e
intérpretes. A primeira canção abordada é Ô Abre
Alas, de Chiquinha Gonzaga. Informa-se que ela
antecipou em vinte anos o surgimento da música
carnavalesca. A última canção do livro é A Volta
do Boêmio, segundo os autores também precursora de
um gênero
o brega romântico
que surpreendentemente foi composta por um português,
ex-cantor de fados, Adelino Moreira.
A coleção de revelações e curiosidades contidas no livro é infindável. Descreve-se, por exemplo, como Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil. Foi numa noite de chuva torrencial, onde ele da janela assistia às "fontes murmurantes" que aparecem na letra. "O ritmo cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos", descreveu ele numa entrevista anos depois. Na mesma noite, antes que a chuva passasse e ele pudesse sair para a boemia, Ary ainda teve tempo de compor outra obra-prima, a valsa Três Lágrimas. Já no verbete sobre Casa de Caboclo, música que lançou Gastão Formenti, informa-se que a música consagrou o ditado popular "um é pouco, dois é bom, três é demais". Ao falar sobre Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas, recupera-se uma antiga crônica do poeta Manuel Bandeira, em que ele elege um dos versos da música, "tu pisavas os astros distraída", como o mais bonito da língua portuguesa.
A Canção no Tempo também relata em detalhes as muitas guerras de egos, brigas e compras de parceria que ocorriam por trás dos sucessos. Um dos qüiproquós mais animados contrapôs no final dos anos 30 o cantor Orlando Silva e a cantora Heloísa Helena. Ambos se diziam responsáveis por ter convencido o compositor João de Barro, o Braguinha, a colocar uma letra no choro Carinhoso, de Pixinguinha, criando assim uma das mais memoráveis canções da MPB. Tempos depois, o próprio Braguinha tratou de elucidar a questão: a versão contada por Orlando Silva para o episódio era totalmente fantasiosa, fruto de pura megalomania. Com casos bem pesquisados e bem narrados, A Canção no Tempo consuma a proeza de ser quase tão agradável quanto as composições cuja história descreve.
Okky de Souza
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Samuel Rosa, vocalista da banda Skank "Gostei do tom humano do texto, que não usa a linguagem de cronista esportivo nem de craque arrogante. Como cruzeirense desde menino, adorei a leitura." |
| LEMBRANÇAS,
OPINIÕES, REFLEXÕES SOBRE FUTEBOL Tostão |
Culinária

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O MUNDO DO WHISKY Jim Murray Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura e Luiz Roberto Mendes Gonçalves Ática 224 páginas 49 reais |
O autor é um dos
maiores especialistas em uísque do mundo. Leva a vida
que os amantes do néctar escocês pediram a Deus
visita destilarias, participa de sessões de degustação
e viaja pelo mundo fazendo palestras pagas a peso de
ouro. Seu livro reúne um volume de informações
impressionante. Murray se orgulha de já ter visitado
todas as destilarias de uísque da Escócia e a maioria
das 150 espalhadas pelo mundo e que são citadas em sua
obra. Algumas ficam em países que pouca gente imagina
que produzam uísque, como Paquistão, Índia, Nova
Zelândia e República Checa. Basicamente, o livro conta
como são os uísques de cada destilaria, sua
fabricação, os ingredientes e o resultado final. Tudo
num texto bem-humorado, embora nem sempre as piadas
resistam à Tradução: . Murray é um crítico
impiedoso, que não teme separar os bons scotches
daqueles que considera terríveis, mesmo que carreguem no
rótulo marcas conhecidas. Os leitores mais conservadores
irão estranhar apenas sua admiração exagerada pelos
bourbons americanos
como se sabe, para os
escoceses, eles não passam de aguardente barata.
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AS FRUTAS DE JORGE AMADO Paloma Jorge Amado Companhia das Letras 207 páginas 48 reais |
Depois de reunir numa edição as receitas citadas nos livros de seu pai, o romancista Jorge Amado, Paloma volta a buscar inspiração no quintal da própria casa. Desta vez, pinçou as frutas citadas na obra de Amado. Quem espera um livro de receitas encontra uma volumosa confusão que mistura trechos curtos ou copiosos dos livros, reminiscências de infância, passagens da vida de Amado, reflexões transcendentais sobre as cores e sabores das frutas e descrições de frutas sem nenhuma receita acoplada. Tudo em tom de assumida autocelebração familiar e descarada ambição monetária. Lançamento exclusivo para leitores fanáticos pelo escritor. Afinal, a quem mais interessa que ele começa o dia tomando um suco de lima-da-pérsia?
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COLEÇÃO RECEITAS CRIATIVAS Peixes, Frangos, Saladas e Tortas & Bolos Tradução: Margarida Dorfman Black Melhoramentos 64 páginas 9,90 reais cada um |
São quatro
livrinhos, cada um cobrindo o assunto que lhe dá título
e com fotos muito apetitosas. Todos conseguem a proeza de
apresentar receitas originais, com toques de
sofisticação, mas muito simples de preparar. Exemplos:
salada de caranguejo e melão, peito de frango empanado
com ervas e muffins (pãezinhos) de maçã e framboesa.
Ao lado dessas boas idéias figuram receitas clássicas e
até fora de moda, mas sempre deliciosas, como frango
cordon bleu e lagosta a thermidor, além de pratos
recomendados para festas e jantares especiais. Pelo
preço, os livros oferecem muito, embora às vezes
apresentem problemas de adaptação para a mesa
brasileira
comuns à maioria dos
volumes de culinária traduzidos para o português. Ao
relacionar as várias qualidades de frango, por exemplo,
o texto se debruça sobre o tipo de Bresse, "criado
na França e ideal para as receitas originárias da
Borgonha". O açougueiro da esquina certamente não
saberá do que se trata.
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DOS COMES E BEBES DO ESPIRITO
SANTO A Culinária Capixaba no Hotel Ilha do Boi Editora Senac 122 páginas 65 reais |
Este é o segundo
livro de uma série com a qual o Senac pretende mapear a
culinária brasileira
o
primeiro era dedicado à Bahia. As receitas típicas de
cada região são testadas e adaptadas pelos instrutores
e alunos das escolas de cozinha que o órgão mantém
pelo país. Uma delas funciona no hotel Ilha do Boi, em
Vitória. O restaurante do hotel não é grande coisa,
mas o livro que de lá saiu é muito bom. A culinária
capixaba, embora pouco divulgada fora do Espírito Santo,
tem pratos originais e muito saborosos, especialmente com
peixes e frutos do mar. Os principais são a moqueca
capixaba (que difere da baiana por trocar o
azeite-de-dendê e o leite de coco pela tintura de
urucum) e a torta capixaba, um prato portentoso que
combina bacalhau, caranguejo, ostra, mexilhão, camarão,
palmito e uma infinidade de temperos. Não é um prato
fácil, mas vale o esforço e a receita contida no livro
é bem explicada. Outras preparações trazem títulos
curiosos como galinha de mulher parida. O capítulo dos
doces e bebidas caseiras também traz receitas e
fotografias sedutoras. A presença de receitas de sotaque
italiano e alemão no livro é justificada no texto de
introdução, escrito por dois antropólogos que a pedido
do Senac fizeram uma pesquisa sobre a culinária
capixaba. Driblando-se na leitura as tiradas poéticas, o
texto traz valiosas informações históricas na área da
gastronomia.
Okky de Souza
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Moacyr Scliar, escritor "Trata-se de uma excursão muito culta, bem-humorada e bem informada pelo mundo dos livros tema que eu adoro." |
| UMA
HISTÓRIA DA LEITURA, de Alberto Manguel |
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O BOM SOLDADO Ford Madox Ford Tradução: Duda Machado Editora 34 464 páginas 19 reais |
No álbum de família da moderna literatura em inglês, Ford Madox Ford ocupa um lugar curioso. Nascido em 1873, estava ligado, nas primeiras décadas do século XX, a escritores mais velhos como Joseph Conrad. Por temperamento, no entanto, sentia-se bem entre os jovens. Pound, Eliot, Joyce: todos, ao estrear, contaram com sua ajuda. Era um agitador cultural e, segundo D.H. Lawrence, "o único tio dos talentos novos".
Dos autores citados acima, todos são famosos no Brasil. Menos Ford. Por isso deve ser saudado o lançamento de O Bom Soldado. Trata-se de sua obra-prima e, para Graham Greene, um dos melhores romances já escritos em inglês.
À primeira vista, a trama é banal. Há dois casais de amigos, um inglês (Leonora e Edward Ashburnham), outro americano (Florence e John Dowell). São casamentos sem sexo, que acabam degenerando em adultério. Nada que romances baratos não tenham mostrado mil vezes. Ocorre que a narração de Ford é extremamente manhosa. À medida que a história flui, fatos novos vão mudando o que se julgava saber. O próprio narrador, John Dowell, mostra-se inseguro no que diz: usa a frase "Eu não sei" mais de cinqüenta vezes. Para muitos críticos ele é o exemplo acabado do narrador não confiável.
Outra dificuldade está na cronologia. Ford usa uma técnica de "deslocamento no tempo". Por meio dela, faz a narrativa saltar entre passado e presente. Os deslocamentos são tão complexos que o próprio Ford chegou a confundir datas. As edições inglesas trazem notas ao texto que ajudam o leitor com tais confusões. Pena que tenham sido suprimidas no livro brasileiro.
O Bom Soldado é ainda um belo estudo de época e também um reflexo da conturbada vida sentimental de Ford. "Pus nesse livro tudo que sabia", disse ele. Não é pouco.
Carlos Graieb
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O AMANTE DE LADY CHATTERLEY D.H. Lawrence Tradução: Glória Regina Loreto Sampaio Graal 397 páginas 22 reais |
A nova Tradução: do clássico O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, é um evento editorial. Desde os anos 60, uma edição completa e bem cuidada do livro, sem trechos expurgados, não surgia no Brasil. Fora isso, porém, o que pode interessar nesse romance de 1928, escrito por um inglês nascido em 1885? É preciso lembrar alguns fatos. "O que faz bem para uns é veneno para outros", diz o adágio popular. O Amante de Lady Chatterley ficou 32 anos na clandestinidade. De 1928 a 1960 foi proibido na Inglaterra por ser considerado imoral, com seus trechos eróticos em "linguagem chula". Mas talvez houvesse outras razões. Quem sabe o grande risco não estava no relacionamento sexual e afetivo entre pessoas de diferentes classes sociais?
Lady Chatterley é uma mulher casada desde os 23 anos com Clifford, aristocrata com a metade inferior do corpo paralisada. A vida a dois, antes do acidente, durou apenas um mês. Depois de Clifford passar dois anos em tratamento, eles se mudam para sua mansão e iniciam a vida doméstica. O livro conta a história dessa mulher que, mesmo envolvida com o casamento, não consegue abafar a inquietação. Ela pensava poder viver de acordo com os princípios do marido, talvez até se sujeitar a um amante que desse um filho a quem não podia ter herdeiro. Mas o desejo se impõe e Lady Chatterley desperta, surpreende-se e revoluciona sua vida ao lado de um guarda-caça. Engravida e vai viver com ele.
O texto é provocativo: a descrição dos encontros dos amantes, seus diálogos e pensamentos sobre sexo, é clara, sem rodeios. Sim, essa linguagem é mais conhecida e aceitável nos encontros íntimos do que na literatura. Na década de 30 ela poderia, realmente, chocar e ser considerada pornográfica. Aliás, mesmo nos anos 60 causaria indignação aos mais zelosos da moral. Mas hoje, em meio às manifestações eróticas e pornográficas que explodem por todos os lados, o texto não choca mais. Ao contrário, permite-nos apreciar a beleza do erotismo. Pois o sexo não é visto somente como um pobre encontro de corpos. Não há frieza nos relatos, mas paixão. Nada mais humano do que sexo tratado dessa forma.
O impacto do livro, hoje, não está exatamente na linguagem sexual. Temas muito mais atuais do que o leitor pode esperar marcam a história: o casamento, as relações extraconjugais, a "natureza" feminina, o desejo de poder, a maternidade, o sexo no casamento, a solidão humana. Sobretudo essa solidão, tão bem expressa nas descrições de paisagens que vão, pouco a pouco, tomando a forma dos personagens, e vice-versa. Essa solidão que resiste aos relacionamentos. Que resiste ao sexo.
Rosely Sayão*
*Rosely
Sayão é psicóloga
e autora de Sexo É Sexo
Etiqueta
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CÓDIGO DO BOM-TOM J.I. Roquette Companhia das Letras 400 páginas 20,50 reais |
| O CORTESÃO Baldassare Castiglione Tradução: Carlos Nilson Moulin Louzada Martins Fontes 354 páginas 27,50 reais |
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São dois
lançamentos sobre boas maneiras. O primeiro é uma
obra-prima, o segundo não passa de uma curiosidade
histórica. Ensinar que, ao contrário do que reza a
lenda, as aparências não enganam é a idéia
fundamental de O Cortesão, uma jóia do
humanismo renascentista, lançado em 1528. Diplomata, com
direito a um retrato pintado por Rafael Sanzio, e hoje
nome de rua em Paris, Castiglione apresenta as regras da
sociabilidade moderna inaugurada por volta do século XV.
Na Idade Média rural e obscurantista, comer com as
mãos, arrotar em público e trancafiar as mulheres eram
fatos corriqueiros tanto em castelos nobres como em
choupanas camponesas. Mas tudo isso se torna sinônimo de
grosseria e ignorância na alta roda do novo mundo,
época que promovia a aventura das grandes navegações,
desenvolvia o comércio e recuperava a cultura dos gregos
e dos romanos. O personagem ideal desses novos tempos, o
Cortesão, prima pelo refinamento: é um aristocrata que
esbanja graça, talento e virtude
até os atributos físicos passaram a ser mais
valorizados nessa época.
Castiglione ensina
que as boas maneiras não se compram nem se aprendem
nascem junto com a educação de uma pessoa. Sua fórmula
para o ideal de elegância não admite a ostentação. Ao
contrário, ele defende "uma displicência que
oculte a arte e demonstre que o que se faz e diz é feito
sem esforço e quase sem pensar. É disso, creio eu, que
deriva em boa parte a graça. A arte verdadeira é aquela
que não pareça ser arte; e em outra coisa não há de
se esforçar, senão em escondê-la, porque, se é
descoberta, perde todo o crédito e torna o homem pouco
estimado". Outro cuidado refere-se à convivência
amistosa entre os sexos. Num mundo marcado por uma agenda
social feita de banquetes, jogos de salão, danças e
tertúlias literárias, a presença da figura feminina, a
Cortesã, não é somente previsível, como necessária.
De acordo com Castiglione, a Cortesã, bela, graciosa e
culta, era merecedora do convívio social sem que isso
pudesse causar nenhuma mácula em sua reputação.
Se O Cortesão tem a grandeza de um tratado filosófico disfarçado de manual de boas maneiras, diante dela o Código do Bom-Tom torna-se uma obra de auto-ajuda do século passado, escrita para popularizar noções elementares de etiqueta e higiene. O livro, que arrebanhou muitos leitores entre a novíssima nobreza brasileira da corte de Pedro II, lembra, entre outras coisas, que os bailes não são feitos para que um cavalheiro se divirta. Servem, antes, para fazer valer a vontade da anfitriã. Se ela, por acaso, pedir que ele dance com moças "abandonadas", ou seja, desprovidas de formosura ou fortuna, ele deve fazê-lo de bom grado. Conhecendo os costumes de seu público, Roquette vocifera também contra quem enfia o dedo no nariz, espirra em público ou rói as unhas.
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DEPOIS DAQUELA VIAGEM Valéria Piassa Polizzi Editora Ática 280 páginas 14,90 reais |
Exceto por um
detalhe crucial
ter o vírus da Aids
a
paulistana Valéria Polizzi, de 26 anos, é uma moça
"normal", como ela mesma se define. Seu drama
começou aos 16 anos, quando contraiu o HIV com o
primeiro namorado. Misto de livro de memórias juvenis e
cartilha preventiva contra o contágio, Depois Daquela
Viagem é um relato corajoso e tocante. Sua principal
virtude é desmistificar de uma vez por todas a Aids como
sinônimo de promiscuidade, uma doença restrita a gays
ou a viciados em drogas injetáveis. Escrito em tom
coloquial, como quem conversa com um amigo de infância,
o livro é uma espécie de versão feminina do
best-seller Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens
Paiva, que há quinze anos trazia a público a história
do acidente que o deixou paraplégico. Na história de
Valéria, que tem dignidade de não revelar a identidade
do namorado, não foram poucos os percalços trazidos
pela doença. De cara, aos 18 anos, quando soube ser
portadora do HIV, teve de enfrentar o choque da novidade,
além da dor de seus pais. Então veio a angústia sobre
o vestibular e o medo de não viver o suficiente para
conseguir um diploma. O HIV bateu com força no corpo
franzino de Valéria. Hoje, com a doença controlada pelo
novo coquetel de drogas contra o vírus, ela pratica
esporte e faz planos para o futuro.
Angela Pimenta
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Gugu Liberato, apresentador de TV "Gostei deste livro sobre vidas passadas porque faz as pessoas refletirem muito sobre as amizades e os acontecimentos" |
| MUITAS
VIDAS, MUITOS MESTRES, de Brian Weiss |
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MAO II Don DeLillo Editora Rocco Tradução: Edson R. Braga 260 páginas 26 reais |
O escritor americano Don DeLillo é voraz. Falando de publicidade e música pop, fanáticos e terroristas, tecnologia e consumo, quer digerir todo o caos do fim de século, com seus detritos e benesses, produzindo aquilo que um crítico já definiu como "perfeito enlace entre ficção e crítica cultural". Mao II, que acaba de chegar às livrarias, não é exceção. É o décimo romance do autor e o quarto a sair no Brasil (os outros são Os Nomes, Libra e Ruído Branco).
O título vem de uma série de gravuras do artista plástico Andy Warhol mostrando o líder chinês Mao Tsé-tung. Com freqüência, a obra de Warhol é vista apenas como um comentário cínico à cultura de massa. Para DeLillo, é uma metáfora mais poderosa. Ele provavelmente concordaria com a declaração de Warhol em uma de suas entrevistas: "Tudo que fiz tem relação com a morte". Mao II, além de falar da morte em seus aspectos mais violentos, reflete sobre um tema caro ao pensamento moderno: a morte do indivíduo em seu confronto com o coletivo. O livro começa com a descrição de um evento bizarro: num grande estádio, reúnem-se 13.000 jovens para um casamento coletivo sob a bênção do reverendo Moon. "O futuro pertence às multidões", avisa DeLillo.
Mao II é ainda um romance sobre o papel do escritor. Seu protagonista é Bill Gray, ficcionista que, como J.D. Salinger ou Thomas Pynchon, vive recluso, afastado da indústria cultural para manter a integridade de sua obra. Aos poucos, porém, Gray põe em dúvida sua escolha. Sobretudo quando percebe que, superexpostos na mídia, são lunáticos e não artistas os novos "forjadores da sensibilidade e do pensamento". Serei refém ou terrorista? Eis a alternativa que o humor negro de DeLillo propõe.
Com talento incontestável para a narração, DeLillo só derrapa em Mao II quando abandona as imagens para argumentar, pontificando sobre isto ou aquilo. Aí seu livro é de amargar. No resto do tempo, é o que sempre foi: um estilista brilhante, de quem autores como Paul Auster e Martin Amis já se confessaram fãs.
Foi-se o tempo, porém, em que DeLillo era "escritor para escritores". Continua sofisticado, com "queda para o obscuro", como ele mesmo diz. Mas sua obra atrai cada vez mais leitores. Seu último romance, Underworld (Submundo em português), virou best-seller. É o livro do Natal nos EUA.
Carlos Graieb
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Iole de Freitas, escultora
"O texto me impressionou pela abordagem que faz da arte moderna brasileira, acrescentando idéias à obra de Lasar Segall e Amílcar de Castro" |
| A
FORMA DIFÍCIL, de Rodrigo Naves |
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1876 Gore Vidal Tradução: Rubens Figueiredo Editora Rocco 468 páginas 34 reais |
Os Estados Unidos comemoraram, em 1876, o primeiro centenário de sua independência. Aquele foi mesmo um ano especial na história do Tio Sam. Foi o ano em que a eleição presidencial acabou se transformando numa das experiências políticas mais significativas do país que acabara de sair da guerra civil. Com menos da metade do território atual, mas já com uma poderosa ferrovia rasgando-lhe as entranhas, a nação ianque encontrava-se dividida entre dois candidatos reformistas: o republicano Rutherford Hayes e o democrata Samuel Tilden. Numa das disputas eleitorais mais corruptas dos Estados Unidos, um deles substituiria o legendário Ulysses Grant, herói da Guerra de Secessão. Ele, que era do Partido Republicano, ocupava a Casa Branca havia oito anos. Sua administração, em dois mandatos consecutivos, estava envolvida em tanta corrupção que o caminho parecia mesmo aberto a Tilden. (Isso é História.)
Assim, parecia não
fazer muito sentido o editor do poderoso Herald
contratar, a preço de ouro, o brilhante jornalista
Charlie Schermerhorn Schuyler, para, com sua pena ferina
e precisa, dar o golpe de misericórdia na
administração Grant, facilitando ainda mais a chegada
do candidato democrata ao poder. Mas é exatamente essa a
proposta que Schuyler recebe assim que, vindo de Paris,
desembarca em Nova York
cidade em que nascera e da qual estava distante havia 35
anos. Falido, ele trouxera na bagagem a filha Emma e a
intenção de casá-la o mais rápido possível com um
emergente qualquer da próspera sociedade nova-iorquina.
(Isso é ficção.)
Partindo dessas
duas situações, o escritor americano Gore Vidal compõe
1876. Trata-se de um de seus romances mais
atraentes. Lançado nos EUA, em 1976 (ano do
bicentenário), só agora chega às livrarias
brasileiras. A narração, feita pelo personagem
Schuyler, é sarcástica e envolvente. O objetivo de
Schuyler, na vida, não é fazer uma denúncia moralista
da corrupção
e sim juntar-se a ela,
para recompor sua fortuna. 1876 ora é pura
crônica política, ora ensaio literário, muitas vezes
venenoso colunismo social. Lá pelo fim da história, o
protagonista-narrador diz a si mesmo: "Parece que
estou escrevendo um livro de máximas". E ainda bem
que está. Seria penoso
sobretudo para o leitor brasileiro
ler apenas o burocrático desenrolar da batalha
legislativa que acabaria, polemicamente, levando o
republicano Rutherford Hayes à Casa Branca.
Hamilton dos Santos
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Cristiana Arcangeli, empresária
"Todo empresário deveria ler. É um livro muito importante no processo de seleção de recursos humanos" |
| INTELIGÊNCIA
EMOCIONAL, de Daniel Goleman |
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CALUNGA Jorge de Lima Editora Civilização Brasileira 142 páginas 17 reais |
Ao lado de nomes
como Olavo Bilac e José de Alencar, o alagoano Jorge de
Lima (1893-1953) forma no time dos "proscritos"
da literatura brasileira. É um autor tão castigado pela
crítica posterior que, mesmo quem nunca leu, julga que
seja ruim. Embora autores como Wilson Martins, em História
da Inteligência Brasileira, tenham apresentado Lima
sob luz desfavorável, foram sobretudo os concretos
exímios coveiros de reputações literárias
que cuidaram de enterrá-lo. Ainda nos anos 70 pareciam
ter jogado a derradeira pá de cal sobre sua obra.
"Jamais consegui levar a cabo a leitura de Invenção
de Orfeu", escreveu Augusto de Campos a respeito
da obra-prima do autor. E acrescentava que o livro
incomoda "pela inconsistência de organização e
falta de rigor".
Diante das vaias, não deixa de ser uma surpresa o súbito retorno de Jorge de Lima neste final de 1997. Depois de décadas fora de catálogo, ele volta a circular, na edição revisada de sua Poesia Completa (Nova Aguilar; 902 páginas; R$ 73,00) e também nos quatro romances que a Civilização Brasileira relança: Calunga e Guerra Dentro do Beco (304 páginas; 24 reais), já à venda, além de O Anjo e A Mulher Obscura, prometidos para janeiro.
Por que ler Jorge de Lima? Porque se trata de um autor intrigante. Os menos apressados em seguir cortejos fúnebres sempre tiveram cautela com ele. Referindo-se ao mesmo Invenção de Orfeu, Murilo Mendes afirmava, em 1952: "O trabalho de exegese terá que ser lentamente feito, através dos anos, por equipes de críticos que o abordem com amor, ciência e intuição". O problema é justamente esse. Ainda não apareceu tal leitor ideal, capaz de decifrar o mundaréu de imagens daqueles 9.000 versos. Como diz o crítico Davi Arrigucci Jr., Jorge de Lima continua sendo uma pedra no sapato dos leitores sérios de poesia. "Só depois da investigação miúda que ainda está por vir, saberemos se ele foi um autor secundário ou está entre os grandes."
Apesar da importância de Invenção de Orfeu, a poesia de Jorge de Lima não se resume a essa obra. Como poucos ele variou de fases. Começou parnasiano, flertou com o modernismo em suas vertentes nacionais ("cantar a pátria") ou estrangeiras (surrealismo), enveredou pela mística. Também aqui a crítica não chega ao consenso. Religioso ou carola? Tempo e Eternidade, livro escrito em parceria com Murilo Mendes, beira o caricato em suas exaltações religiosas. Um poeta que buscou a vanguarda ou um tradicionalista empedernido? Seus textos mais populares são da fase modernista, como Essa Negra Fulô, com seu tom coloquial e ritmos alegres. Ou será que a realização mais perfeita do poeta, que nunca quis deixar as formas clássicas, está no Livro de Sonetos?
Quanto à prosa de
Jorge de Lima, ela é normalmente incluída no rol da
ficção de 30, com seus temas regionalistas, suas
preocupações políticas e espirituais. O livro que
melhor se enquadra nessa descrição é Calunga.
Na linha de obras como Vidas Secas, de Graciliano
Ramos, ou Seara Vermelha, de Jorge Amado, o livro
denuncia o coronelismo, a pobreza e o abandono do
trabalhador nordestino. Mas não se trata de um romance
típico da escola
não carrega no tom de
denúncia e não busca o exótico. Sombrio, e com alta
densidade poética, ele tem um subtexto bíblico que não
se repete em outros autores do período. O final é
manobrado com grande maestria por Jorge de Lima, que
transforma seu herói, inesperadamente, em uma espécie
de Caim cujos filhos
os miseráveis de Alagoas
seriam a raça esquecida, obra de
má argila espalhada pelo mundo.
A prova de que
Jorge de Lima não foi um escritor totalmente acomodado
aos padrões da geração de 30 está em Guerra Dentro
do Beco, seu último romance. O cenário é, agora, o
Rio de Janeiro. Os personagens são artistas que, na
década de 40, enfrentam os dilemas da II Guerra Mundial.
Esse livro põe a nu as preocupações católicas do
autor e demonstra que o tema da Queda
a
expulsão do Paraíso e o percurso do homem na Terra
está no coração de sua obra ficcional. Tomado em
conjunto com O Anjo e A Mulher Obscura, o
livro tem muito a dizer sobre a atmosfera cultural do
Brasil em meados do século e é um documento importante
sobre o movimento de renovação do cristianismo que
ocorreu naquele período. Ainda que jamais venha a fazer
parte da grande tradição do romance brasileiro, a obra
ficcional de Jorge de Lima, que não se acomoda aos
cânones de nenhuma escola, é mais que uma curiosidade,
e merece ser lida.
Carlos Graieb
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Gabriel, o Pensador, rapper carioca "Gosto muito do humor inteligente de Chico, e o livro me divertiu quando eu estava precisando" |
| O
ANALISTA, de Chico Anysio |
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O QUE É VIDA? Erwin Schrödinger Tradução: Jesus de Paula Assis e Vera Yukie Kuwajima de Paula Assis Editora Unesp/Cambridge 192 páginas 22 reais |
Nas primeiras décadas deste século, a física vivia momentos de glória. Um terremoto científico arrasador jogara por terra os fundamentos do classicismo de Isaac Newton e dois modelos disputavam a tapas a primazia intelectual da época que se inaugurava. De um lado, a poderosa teoria da relatividade, com seu lutador titânico, Albert Einstein. De outro, os pais da mecânica quântica, engenhosa e eficiente teoria sobre a natureza íntima da matéria. O físico austríaco Erwin Schrödinger, ganhador do Nobel de 1933, estava entre eles. Os leigos só se deram conta da potência desse duelo intelectual quando, ao final da II Guerra Mundial, o estrondo de duas bombas, Little Boy e Fat Man, transformou em poeira as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Mas houve muito mais. Nessa época, Schrödinger, que não participou do esforço de guerra, lançou o desafio dos desafios: construir uma ciência do tudo. Estudioso de filosofia e um apaixonado pela teoria darwinista desde que leu A Origem das Espécies, Schrödinger ousou, em 1943, proferir uma série de palestras sobre o tema "O que é vida?", depois convertidas no livro homônimo que só agora é editado no Brasil. A tarefa ambiciosa: usar o conhecimento proporcionado pela física quântica para explicar como acontecem as mutações na cadeia de DNA. Queria apenas construir uma ponte entre os dois edifícios científicos mais grandiosos de nossa época. Para os admiradores da história da ciência, O que É Vida? é um presentão. Ainda mais completo porque mostra o tamanho da inquietude do gênio em dois ensaios que acompanham a obra principal, Mente e Matéria e Fragmentos Autobiográficos. Um alerta, porém, aos que chutaram em todas as questões na prova de física do vestibular. O que É Vida? tem equações demais para certos estômagos.
Laura Capriglione
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Evaldo Cabral de Mello, historiador "É uma análise excepcional da mentalidade das classes dirigentes alemãs entre Bismarck e Hitler" |
| OS
ALEMÃES, de Norbert Elias |
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A GUERRA DAS IMAGINAÇÕES Doc Comparato Editora Rocco 284 páginas 24 reais |
Acostumado a
adaptar obras literárias para cinema e televisão
caso da minissérie O Tempo e o Vento, baseada em
Érico Veríssimo
, o roteirista e
dramaturgo carioca Doc Comparato de certo modo recorreu a
essa experiência para escrever A Guerra das
Imaginações, seu primeiro romance. A matéria-prima
da adaptação foi a História. Embora se baseie em fatos
reais, ocorridos em fins do século XV e início do XVI,
o livro não é um romance histórico
no posfácio, Comparato assume as liberdades, as
"adaptações" que lhe convieram enquanto
ficcionista. A trama corre em duas direções. A primeira
trata dos bastidores do curto papado de Pio III
("ínfimos dez dias", esclarece Comparato), com
a conseqüente ascensão do cruel Júlio II. A outra
aborda a suposta descoberta do paraíso terrestre
localizado no Brasil!
"em sítio recôndito, mas porventura
acessível", nas palavras de Sérgio Buarque de
Holanda, cujo livro Visão do Paraíso (1958) é
apontado por Comparato como o ponto de partida de seu
romance. Que segue fluente, numa demonstração de que
seu autor domina o ofício de contar histórias.
Rinaldo Gama
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Gustavo Kuerten, tenista "Gostei muito da história porque o cara está buscando coisas novas, alcançando seus objetivos. Especialmente neste ano, me identifiquei com isso" |
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ALQUIMISTA, de Paulo Coelho |
Copyright © 1997, Abril
S.A. |