THEREZA COLLOR

De musa do impeachment a primeira-namorada,
a importância de ser Thereza

Karina Pastore

Foto: J.R.Duran

Thereza irrompeu no imaginário nacional com um rosto feito para se sonhar com o céu, pernas desenhadas para o pecado e o signo dos escolhidos pelos deuses para se divertir com as ironias do destino. Foi numa audiência seriíssima sobre assunto de governo que a moça adentrou o auditório de um hotel em São Paulo, acompanhando o marido, Pedro Collor. Acusador do irmão presidente, Pedro apresentou um atestado de sanidade mental para provar que não estava "emocionalmente perturbado", como afirmava sua própria mãe. Mas a platéia, emocionalmente perturbada, nem sequer olhou para o papel. Como num conto de Nelson Rodrigues, todos só faziam espiar a cunhada, embrulhada em um tailleur xadrez com a saia algumas polegadas acima do suportável por coronárias masculinas. À saída, jornalistas, deputados e circunstantes se acotovelavam. "A cunhada", ofegavam, "viste as coxas da cunhada?" Maria Thereza Lyra Collor de Mello virou a musa do impeachment, a bela das Alagoas, a cunhadinha do Brasil.

Isso foi há cinco anos. Pedro morreu de um câncer fulminante, a República de Alagoas virou fumaça, mas Thereza continua sendo cada vez mais Thereza. Ela nunca foi militante feminista ou, Deus a livre, sem-terra. Nunca posou nua (não por falta de convites, é claro) nem dançou o tchan. Há mulheres com pernas mais bonitas do que as suas, imagina-se. Mas ela é Thereza, e isso é fato de alta significância. Se não, por que alguém daria bola para uma coleção de jóias criadas por ela? Quem compraria 22..000 exemplares de seu kit de emagrecimento, à base de sucos e sopas, em apenas três meses? A 165 reais cada um?

A construção de Thereza, a musa, fez-se a golpes duros dos fados. Nasceu filha de João Lyra, milionário alagoano, dono de engenhos na terra e fazenda no Texas. O pai, truculento, foi acusado de mandar matar o amante da mãe, um sargento da polícia, em 1991. O processo foi arquivado, mas Solange Lyra vive até hoje na Espanha, em exílio voluntário. A filha do patriarca casou-se com Pedro Collor em 1980, acabou cunhada de um presidente e depois foi arrastada para a guerra político-familiar. Ainda musa do impeachment, Thereza teve de brigar com o marido para fazer o anúncio de um frigorífico. Muita coisa mudou. Dona de seu nariz, ela hoje anuncia sandálias de borracha sem dar satisfação a ninguém. Como garota-propaganda embolsa um cachê de 150.000 reais, féria de top model internacional.

Thereza é notícia, mas irrita-se (ou, pelo menos, faz-se de irritada) com a curiosidade das pessoas sobre sua vida particular. "Será que não vão me deixar em paz, meu Deus?", reclama. Desde a morte de Pedro, criaram para ela mais namorados que os de Catarina da Rússia. Namoros de verdade, porém, foram poucos. Um com o empresário gaúcho Alexandre Grendene, o Grande Gatsby de Punta del Este. Nada que se compare ao mais recente e mais improvável possível, com o filho do presidente, Paulo Henrique Cardoso. O romance presidencial, contrariando todos os palpites, parece coisa séria. O casal vive na ponte aérea RioMaceió. Há algumas semanas, PHC foi apresentado aos filhos de Thereza, Fernando Affonso, de 13 anos, e Victor Affonso, 11 anos. Foi aprovado. É cada vez maior a importância de ser Thereza.




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