O gosto pela história
cresce entre os leitores.
Três lançamentos um clássico,
um dicionário
e uma coletânea de testemunhos de época
vêm
satisfazer esse interesse renovado
O cronista Ivan Lessa observou
que a cada quinze anos o Brasil esquece o que aconteceu nos
últimos quinze anos. A produção historiográfica
recente deseja contrariar essa tirada. O gosto pela história
vai se firmando no país. A prova mais eloqüente
é o sucesso de 1808, livro em que o jornalista
Laurentino Gomes reconstitui a aventura de dom João
VI na então colônia portuguesa e que já
vendeu perto de meio milhão de exemplares. Na trilha
do interesse renovado dos leitores pelo passado de seu país,
três novas obras acabam de chegar às livrarias.
Cumprem funções essenciais da historiografia:
relembrar, revisar, interpretar os fatos. Historia do Brazil
recupera o texto pioneiro de frei Vicente do Salvador,
escrito no século XVII. Dicionário do Brasil
Joanino é uma obra de referência indispensável
e propõe novas interpretações
sobre o período. Por fim, a antologia Brasil
A História Contada por Quem Viu traz um painel
vigoroso e acessível da história nacional, com
base nos depoimentos de quem a vivenciou e construiu. O leitor
que deseja entender o Brasil estará bem servido com
esses títulos.
O primeiro crítico
dos trópicos
Escrito no século
XVII por frei Vicente do Salvador,
o pioneiro Historia do Brazil ganha uma reedição
cuidadosa
Leonardo
Coutinho
Se
a carta de Pero Vaz de Caminha é a certidão
de nascimento do Brasil, o livro Historia do Brazil
(Versal; 592 páginas em dois volumes; 212 reais)
é o documento de identidade. Escrito entre os
anos de 1626 e 1630 pelo frade franciscano Vicente do
Salvador, o texto é considerado a primeira abordagem
histórica do país, o que dá ao
seu autor o título de pai da historiografia brasileira.
Em ordem cronológica, o livro apresenta um relato
dos 130 anos da colônia. Uma nova versão
da obra acaba de ser lançada, com cuidadosa edição
de Maria Lêda Oliveira, pesquisadora pernambucana
da Universidade Nova de Lisboa. A publicação
tem especial importância quando se considera que
foram poucas as edições integrais da obra.
Os códices do frade ficaram esquecidos por mais
de dois séculos em arquivos brasileiros e portugueses,
até a obra ganhar a primeira edição,
no século XIX, a cargo do historiador João
Capistrano de Abreu que lançou uma nova
versão comentada do livro em 1918. Depois de
Capistrano, a Historia só ganharia mais
uma edição, em 1965, a cargo do historiador
Venâncio Wille-ke, que, como Vicente do Salvador,
era um frade franciscano.
Vicente do
Salvador foi dos primeiros a atacar o descaso dos portugueses
pelo interior da colônia. Os colonizadores contentavam-se,
dizia, em "andar arranhando ao longo do mar como
caranguejos". O historiador é também
um crítico da ganância mercantilista dos
portugueses. Condenava as ambições de
enriquecimento rápido, com o objetivo de transferir
a fortuna para Portugal, prática que era incentivada
pela coroa. Como se vê, frei Vicente do Salvador
não foi apenas o primeiro historiador do Brasil:
também foi um dos mais perceptivos.
Reprodução/Keiju
Kobayashi
CARANGUEJOS
COLONIAIS A chegada dos portugueses:
eles deram pouca
atenção ao interior
Um guia para
os tempos do rei
Um painel do
Brasil de dom João VI, na forma de dicionário
Jerônimo Teixeira
"Era
no tempo do rei." Assim começa Memórias
de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio
de Almeida, um dos mais engraçados romances brasileiros
do século XIX. A referência é a
dom João VI, que aportou na então colônia
em 1808, fugindo da invasão de Portugal pelas
tropas de Napoleão. O público original
de Memórias de um Sargento de Milícias
lançado em 1854, quando dom Pedro
II, neto de dom João, era o imperador
teria viva em sua memória afetiva o Rio de Janeiro
da corte exilada. Para o leitor atual que desejar alguma
familiaridade com o tempo do rei, há um novo
instrumento, prático e competente: o Dicionário
do Brasil Joanino (Objetiva; 476 páginas;
89,90 reais). Organizado pelos historiadores Ronaldo
Vainfas que já coordenara o Dicionário
do Brasil Colonial e o Dicionário do Brasil
Imperial e Lúcia Bastos Pereira das
Neves, o livro oferece um vasto panorama da história
brasileira de 1808 a 1821.
Com 150 verbetes,
o dicionário apresenta os protagonistas da história
estão lá os perfis biográficos
de dom João VI e de sua polêmica rainha,
Carlota Joaquina e temas relacionados ao cotidiano
da corte e à vida urbana do Rio de Janeiro. Aspectos
relativamente pouco discutidos pela historiografia também
comparecem. É o caso das guerras indígenas
que ainda se travavam no início do século
XIX em maio de 1808, dom João assinou
uma carta régia decretando a "guerra justa"
contra os botocudos, povo dos chamados "sertões
do leste", nos atuais estados de Espírito
Santo e Minas Gerais. "Os verbetes não são
apenas descritivos, mas analíticos. Apresentam
os fatos e os interpretam", afirma Lúcia
Bastos. O Dicionário contrapõe-se
a uma tradição historiográfica,
inspirada por liberais e republicanos dos dois lados
do Atlântico, que caricaturizou dom João
VI como um monarca atoleimado e glutão. "Ele
não foi esse bobão. Dom João VI
soube conduzir a política nas condições
possíveis de um império que estava em
crise e já não contava com o poderio que
teve no século XVI", diz Lúcia Bastos.
A vinda para o Brasil, sobretudo, foi a seu modo um
lance ousado para um monarca europeu foi o expediente
com que o rei português passou a perna no poderoso
Napoleão.
Palacio
do Itamaraty
IMPÉRIO
EM CRISE O rei português
dom João VI:
em guerra com os botocudos
Testemunhas
oculares
Uma coletânea
organizada pelo historiador Jorge Caldeira revisa toda
a história brasileira a partir de depoimentos
de época
Mary Del Priore
"Meninos,
eu vi": a expressão consagrada no poema
I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, define
que, antes da ciência, é o poder do olhar
que se impõe. Há décadas, o grande
historiador francês Lucien Febvre convidou os
pesquisadores a multiplicar estudos sobre o que chamou
de "suportes do sensível em diversas épocas".
Um deles era a visão. Jorge Caldeira acolheu
o chamado da mais clássica historiografia, atendendo,
igualmente, o leitor interessado no passado do seu país.
Sua antologia Brasil A História
Contada por Quem Viu (Mameluco; 656 páginas;
59 reais) é impecável. Reúne documentos
e testemunhos na forma de escritos, manuscritos ou impressos,
e transcrições de registros audiovisuais.
Com a acuidade de um ourives, Caldeira escolheu as histórias
mais relevantes e as maneiras de contar mais significativas.
Garimpou até documentação inédita,
como é o caso da narrativa sobre a Guerra dos
Emboabas, nas Minas Gerais do século XVIII. Em
ordem cronológica, cada parte do livro se abre
sobre uma interpretação das condições
econômicas, políticas e sociais do período.
Pequenas ementas introduzem o leitor ao texto, localizando
o autor e as circunstâncias em que o material
foi produzido.
Nos primórdios
da colonização, destacam-se os clássicos
de Pero Vaz de Caminha e do governador Mem de Sá,
entre muitos viajantes estrangeiros. No século
XVII, sobressaem narrativas do padre jesuíta
Jerônimo Rodrigues, dos holandeses que ocuparam
a Bahia e o Recife e os cronistas clássicos:
Vieira, Antonil e frei Vicente do Salvador. Já
no século XVIII, a documentação
é marcada pela preocupação com
o ouro e os impostos: depoimentos de bandeirantes ombreiam
com os de autoridades portuguesas e há versões
variadas sobre os conflitos e revoltas, dos Mascates
à Inconfidência Mineira. Com o aparecimento
da imprensa, no século XIX, multiplicam-se as
experiências pessoais em textos. Os documentos
contemplam os grandes momentos da história, mas
também aqueles mais discretos, que a historiografia
contemporânea elege como fundamentais: o cotidiano
nas cidades e sertões, a vida dos escravos, as
práticas de religiosidade ou as relações
afetivas. Moldado pela indústria cultural e pela
expansão da leitura, o texto no século
XX torna-se breve, vai direto ao ponto. O leitor vai
se deliciar com a chegada dos imigrantes japoneses,
o velório de Machado de Assis ou as primeiras
crônicas jornalísticas sobre o futebol.
De Vargas ao golpe de 1964, documentos apontam a complexidade
do dia-a-dia: da inauguração da Transamazônica
às greves do ABC, da doença de Tancredo
à denúncia que derrubou Collor.
Pedagógico
e erudito ao mesmo tempo, Caldeira nos convida a uma
viagem no tempo através de várias visões.
Visões que nos ajudam a conhecer a história,
mas também a compreender os sistemas de valores
nas quais foram produzidas. Visões que nos incentivam
a nos enxergar a nós mesmos, não como
simples espectadores, mas como atores desta mesma história.
VISÕES
MÚLTIPLAS O trabalho escravo
no traço de Debret: documentos
que revelam o cotidiano de cidades e sertões
Em primeira
mão
Trechos de quatro
dos 173 textos reunidos em
Brasil A História Contada por Quem
Viu
Biblioteca
Municipal Mário de Andrade
"Golpeia
o prisioneiro na cabeça, de modo que lhe saltam
os miolos. Imeditamente as mulheres levam o morto, arrastam-no
para o fogo. (...) Depois de esfolado, toma-o um homem
e corta-lhe as pernas acima dos joelhos, e os braços
junto ao corpo. (...) As vísceras são
dadas às mulheres. (...) O miolo do crânio,
a língua e tudo o que podem aproveitar comem
as crianças." Ritual de antropofagia
indígena descrito pelo alemão Hans Staden, no século XVI
Minc/
Sphan/ Pro-menor/ Museu C. Maia
"No Brasil
predomina a escravidão negra e os brasileiros
recuam com algo semelhante ao horror diante dos serviços
manuais. (...) Interrogando-se um jovem nacional de
família respeitável e em má situação
financeira sobre por que não aprende uma profissão,
há dez probabilidades contra uma de ele perguntar
se o interlocutor está querendo insultá-lo!
Trabalhar! Trabalhar!, gritou um deles.
Para isso temos os negros. " Thomas Ewbank, viajante americano, em 1846
"Vi quando
meu pai levantou de pijama, passou pelo corredor, foi
até o gabinete e voltou. O revólver sempre
esteve na mesinha dele. (...) Alguém me segurou
pelos ombros e disse: Alzira, seu pai! Eu saí
correndo feito uma doida e me joguei sobre o corpo dele.
Ele ainda estava vivo e tive a impressão de que
esboçava um sorriso. Olhei para o médico
que estava ao lado, e ele me fez sinal de que não
havia solução." Alzira Vargas, relatando a morte do pai, Getúlio
Vargas, em 1954
Luciano
Andrade
"Foi uma violência
estúpida, inútil e imbecil. (...) Amanhã,
ao amanhecer, os brasileiros vão ler os jornais,
vão ver as metralhadoras e os cães impedindo
que brasileiros pacíficos exercitem um direito
que está na Carta Universal dos Direitos Humanos,
da qual o Brasil é signatário. Nós
não temos armas. (...) Os cães ladram,
mas a caravana passa."
Discurso do deputado Ulysses Guimarães
contra a ditadura, em 1978, depois que policiais com
cães tentaram impedir uma manifestação
eleitoral