Em Sete Vidas,
Will Smith renova com o diretor Gabriele Muccino uma parceria calculada para
levar a platéia às lágrimas e dar a ele a oportunidade
de exercitar seu talento dramático
Isabela
Boscov
Everett
Colection/Grupo Keystone
UM
INSTANTE PERFEITO Smith e Rosario, que
encabeça uma lista misteriosa com sete nomes: atores que deixam a sensação
de que ainda têm muito a mostrar
Em seu início de carreira,
Will Smith impressionou os não muitos espectadores
que viram Seis Graus de Separação com
um desempenho dramático extraordinário
o qual, nestes quinze anos desde então, ele poucas
vezes se interessou em revisitar. Pesam aí a facilidade
que Smith demonstra para escolher material cômico ou
de ação que o mantenha no posto de astro mais
consistente do cinema americano hoje, em bilheteria e popularidade,
e a recepção pouco calorosa às suas tentativas
passadas de se envolver em filmes mais densos, como Ali.
Há dois anos, porém, Smith encontrou o meio-termo
que lhe agrada na pessoa do cineasta italiano Gabriele Muccino.
À Procura da Felicidade, em que Muccino o dirigiu
no papel de um pai que, largado sozinho com o filho pequeno,
tenta driblar a má sorte, deu a Smith a oportunidade
de exercitar sua flexibilidade sem alienar seu público.
Agora, ator e diretor repetem a parceria em Sete Vidas(Seven Pounds, Estados Unidos, 2008), que estréia
nesta sexta-feira no país, arriscando-se em uma história
alguns tons mais sombria que a anterior.
No filme, Smith é
Ben Thomas, um auditor do imposto de renda movido por razões que só
no final serão explicadas, mas que desde o começo se intuem complicadas.
Ben carrega consigo uma lista de sete pessoas, e as submete a testes, por assim
dizer. O diretor de um asilo de velhos, por exemplo, é inquirido sobre
sua situação financeira, e também acerca da evolução
de sua leucemia. Sobre um cego que trabalha como operador de telemarketing (Woody
Harrelson), ele despeja insultos cruéis, à espera de uma reação.
De toda a lista, a pessoa a que ele dedica mais tempo e curiosidade é Emily
(Rosario Dawson), uma tipógrafa que sofre de insuficiência cardíaca.
Ben a procura no hospital e em casa, bisbilhota sua vida, observa-a de perto e
a distância, telefona com hora marcada ou a visita de improviso. A certa
altura, o teste acaba e um relacionamento começa no qual a missão
de Ben, seja ela qual for, vai interferir.
O título original de Sete
Vidas, "sete libras", é uma referência
à célebre passagem de O Mercador de Veneza,
de William Shakespeare, em que o personagem Shylock exige de
um devedor que lhe pague com uma libra da própria carne.
Significa, portanto, a cobrança dura e desproporcional
de uma dívida. No filme, fica claro que Ben é
que está cobrando de si mesmo um preço alto por
um erro cometido. E não há dúvida também
de que o objetivo é pôr a platéia para chorar
ao que ela corresponde em peso, numa reação
quase que fisiológica. Muccino avança além
do necessário na manipulação, mas ganha
pontos pelo ótimo partido que tira de Rosario Dawson
e por expor um pouco mais das inflexões dramáticas
de Will Smith. O "um pouco", aqui, corre não
por conta do diretor, mas do próprio ator: se a impressão
é verdadeira ou não, só outros filmes poderão
dizer, mas Smith é talvez um caso único de astro
que intriga não tanto pelo que já mostrou como
pela promessa do que ainda tem a mostrar.