Em Marley
& Eu, adaptado do best-seller de John Grogan, o homem é o melhor
amigo do cão um labrador alegre e amoroso, mas de hábitos
destruidores e temperamento incontrolável
Isabela
Boscov
Divulgação
ELE,
ELA & MARLEY Wilson e Jennifer, com
o seu "cãozinho de liquidação": não por
acaso, ele era o mais barato da ninhada
Marley & Eu(Marley & Me, Estados Unidos, 2008), a versão
para o cinema do sucesso editorial do jornalista americano
John Grogan sobre a vida movimentada que seu cão Marley
lhe proporcionou, é um programa familiar que tem também
esse jeito amigável e meio bagunçado dos labradores.
Não é difícil identificar os momentos
em que um puxão mais determinado na guia teria impedido
o filme de andar a esmo quase todos eles protagonizados
por Owen Wilson, que interpreta Grogan naquele seu registro
costumeiro, entre o bem-humorado e o preguiçoso, e
só parece acordar de verdade nas cenas que divide com
o inestimável Alan Arkin, que faz seu chefe. Quando
é Jennifer Aniston quem está no comando, no
papel da sensata e generosa Jenny, a mulher de John, o ritmo
se torna mais decidido e o propósito da história,
mais claro: o de ser uma espécie de manifesto sobre
a afeição incondicional. Não se está
falando aqui apenas da proverbial lealdade dos cães
a seus donos. O desastrado Marley, com sua capacidade infinita
para estorvar, testou a mão dupla desse relacionamento
de todas as maneiras possíveis durante os treze anos
em que viveu com os Grogan. A conclusão a que o filme,
que estréia neste dia 25 no país, leva com muita
graça (assim como o livro) é que Marley era,
sim, uma dor de cabeça. Mas era uma dor de cabeça
que os Grogan não trocariam por nada.
Na
história, que segue bem de perto o livro, o recém-casado John teme
que Jenny queira começar uma família de imediato. Para aplacar os
instintos maternos que ele suspeita estarem aflorando, pensa numa solução
aparentemente mais simples: dar-lhe um filhote de labrador. John e Jenny não
ouvem o alarme tocar quando, no canil, a criadora lhes diz que aquele cãozinho
assanhado que logo se atirou sobre eles está saindo por um preço
especial 200 dólares, em vez dos 275 de praxe. "Que graça,
um filhote de liquidação", anima-se Jenny. O desconto de 75
dólares vai virar um prejuízo incalculável com móveis
arranhados, estofados eviscerados, paredes mastigadas, objetos quebrados, embaraços
com a vizinhança e até uma corrente de ouro engolida no exato momento
em que saía da caixa da joalheria (num ótimo lance de escalação,
os "atores" que fazem Marley têm um apetite monstruoso, ao menos
em cena).
O roteiro não exatamente
original, mas ainda assim prestativo, traça um bom paralelo entre a convivência
dos Grogan com Marley e os acertos e negociações exigidos por outra
relação um tantinho mais complicada a deles mesmos. Com dois
filhos ainda em fraldas em casa, Jenny estoura e, por algumas horas, quer se livrar
do cão; mais provavelmente gostaria de ter mandado John passear naquele
instante, mas as conseqüências teriam sido mais drásticas. Da
mesma forma que o livro e a coluna em um jornal de Miami que primeiro fez a reputação
de Grogan, na qual Marley era personagem assíduo, o filme fala a esses
sentimentos básicos de leitores e espectadores sobre imperfeições,
espontaneidade, sobre se encantar e depois perder a paciência com quem se
ama, e também sobre o dom inexplicável que as mascotes, até
as incontroláveis como Marley, têm de saber o momento em que seu
dono mais precisa de amparo. Trata, em especial, da contingência fundamental
da vida em família: a necessidade de que todos sobrevivam uns aos outros
e aprendam a apreciar-se pelas qualidades e também pelos defeitos.
Nesse aspecto, o trabalho do diretor
David Frankel se destaca. Conhecido até aqui pela mordacidade
de O Diabo Veste Prada e do seriado Entourage,
ele anima o filme com uma alegria e uma afabilidade que somam
muito ao seu saldo final sem, no entanto, fazer do labrador
um bicho fofo, o que, de acordo com o relato de Grogan, ele
nunca passou perto de ser. Quando, próximo do desfecho,
Marley já está velho e cansado, as três
crianças dos Grogan é que aprenderão, por
meio dele, a compreender que existe doença, idade e um
fim. Tanta coisa, argumenta Marley & Eu, em troca
de tão pouco alguma paciência, algum carinho
e uns sacos de ração. Ou muitos, no caso desse
grandalhão.