Edição 1834 . 24 de dezembro de 2003

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LIVROS

A Bem-Amada, de Thomas Hardy (tradução de Luís Bueno e Patrícia Cardoso; Códex; 272 páginas; 35 reais) – Embora seja um dos grandes nomes da literatura inglesa, o romancista e poeta Thomas Hardy (1840-1928) é desconhecido do público brasileiro. Poucos livros do autor foram traduzidos no país até hoje – e a maioria está fora de catálogo. O lançamento de A Bem-Amada ajuda a preencher essa lacuna. Publicado em 1897, o livro exibe as principais marcas de Hardy. Ele era um escritor à frente de seu tempo: com ironia refinada, questionava os ditames morais da sociedade vitoriana, tocando em temas tão incômodos para a época como a questão da liberdade sexual. Hardy foi a fundo nisso e escandalizou a crítica com os romances Tess e Judas, o Obscuro, graças aos quais passou a ser visto como um autor obsceno e degenerado. Para além do aspecto polêmico, no entanto, seus romances falam de inquietações existenciais profundas, como os limites tênues entre o instinto e a vontade consciente no ser humano. A Bem-Amada é uma espécie de ataque à instituição do casamento. No centro da história está um escultor obcecado pela busca da mulher ideal. Em diferentes fases da vida, da juventude à velhice, o personagem identifica essa musa em mulheres de uma mesma família.

Fábulas, de La Fontaine (vários tradutores; Landy; 630 páginas; 55 reais cada volume) – Escritas no século XVII, as Fábulas do francês Jean de la Fontaine são um tesouro da literatura universal. Baseado em fontes que remontam à Antiguidade, como as fábulas de Esopo, La Fontaine criou dezenas de narrativas curtas e alegóricas, que transmitem preceitos morais. Essa edição caprichada reúne, em dois volumes, mais de 200 fábulas. Seu maior mérito é recuperar traduções clássicas dos versos de La Fontaine. São do poeta português Bocage, por exemplo, as versões de A Cigarra e a Formiga e A Raposa e as Uvas, entre outras. O brasileiro Machado de Assis comparece com a tradução da fábula Os Animais Enfermos da Peste. As ilustrações em preto-e-branco, do francês Gustavo Doré (1833-1888), também são clássicas. Leia trecho.

Histórias da Pré-História, de Alberto Moravia (tradução de Nilson Moulin; 34; 240 páginas; 25 reais) – Uma das figuras mais importantes da literatura italiana no século XX, Alberto Moravia (1907-1990) escreveu contos e romances nos quais sobressai uma visão ácida sobre o modo de vida da burguesia européia. Histórias da Pré-História traz outra face de Moravia: a do autor de fábulas para lá de bem-humoradas. Na verdade, é mais apropriado classificar os 24 textos reunidos no livro de "antifábulas", já que as historietas contêm algo de anárquico – Moravia, vale lembrar, era um antimoralista convicto. Numa delas, o escritor conta como um unicórnio se transformou em rinoceronte. Em outra, fala sobre um bicho-preguiça que atua como bombeiro. A vida ociosa de Adão e Eva no paraíso é também motivo de sátira. Em tempo: trata-se de um lançamento mais adequado para adolescentes do que para crianças, pois o humor de Moravia às vezes se revela um tanto picante. Leia trecho.

A Companhia, de Robert Littell (tradução de Alves Calado; Record; 768 páginas; 70 reais) – O americano Robert Littell construiu sua reputação nos anos 1970, com romances de espionagem que tinham a Guerra Fria como mote. Nos anos 1990, diante do fim do conflito, craques do gênero como o inglês John Le Carré preferiram buscar outros temas. Littell, pelo contrário, permaneceu fiel às origens. Mesmo tratando de um período histórico superado, suas histórias continuam envolventes. A Companhia, seu 13º romance, é um exemplo disso. O livro acompanha a trajetória de três espiões da Cia dos anos 1950 aos 1990. A trama é fictícia, mas por meio dela Littell passa em revista a atuação da agência de inteligência americana em momentos cruciais da história recente, como a crise dos mísseis cubanos e a queda do Muro de Berlim. Leia trecho.

 
Kafka: inspiração nos sonhos  

Sonhos, de Franz Kafka (tradução de Ricardo F. Henrique; Iluminuras; 158 páginas; 33 reais) – Com obras como A Metamorfose e O Processo, o escritor checo Franz Kafka (1883-1924) inscreveu seu nome entre os maiores da literatura modernista. O universo de seus livros é freqüentemente descrito como onírico, e não sem razão. Esse lançamento é uma amostra de quanto os sonhos foram uma preocupação real – e, sem dúvida, uma fonte inspiradora – do escritor. Trata-se de uma antologia de relatos de sonho registrados por Kafka em diários e cartas a amigos. Percebem-se nesses relatos, de caráter privado, vários pontos de contato com sua obra ficcional, como a presença opressiva do pai. "O impulso de representar minha vida onírica deslocou todo o resto para um plano secundário", anota Kafka em seu diário. Em carta a Milena Jesenská, uma de suas paixões, ele revela: "Na noite passada cometi um assassinato por você, um sonho louco, uma noite ruim. Não sei maiores detalhes". Leia trecho.

O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (tradução de Renata Maria Parreira Cordeiro e Eliane Gurjão Silveira Alambert; Landy; 432 páginas; 50 reais) – Já existiam cinco traduções dessa obra-prima do romantismo inglês no Brasil, mas essa nova edição é um primor, uma bela aquisição para qualquer biblioteca de clássicos. Ela traz quadros cronológicos do período, quadros genealógicos da família Brontë, perfis da autora – que morreu em 1848, aos 30 anos – e um apanhado de comentários críticos desde a época do lançamento do livro até hoje. Com sua atmosfera lúgubre, O Morro dos Ventos Uivantes é uma história de amor atormentado, mas também uma espécie de romance metafísico sobre o homem em confronto com os "poderes eternos". "Um dos mais belos livros da literatura de todos os tempos", dizia o francês Georges Bataille em 1957, enquanto o crítico americano Harold Bloom sentenciou, em 2002: "Uma obra de uma grandiosidade solitária". Leia trecho.

Especiarias e Ervas Aromáticas, de Jean-Marie Pelt (tradução de André Telles; Jorge Zahar; 224 páginas; 33 reais) – As especiarias são um item do cardápio humano ao menos desde a Antiguidade. Nesse tratado sobre o tema, o autor – um reputado botânico francês – examina a importância do comércio das especiarias ao longo da história e explica as origens e propriedades de cada um dos condimentos. Vindos do Oriente, produtos como a canela e a noz-moscada foram durante muito tempo uma mercadoria estratégica, a ponto de seu comércio impulsionar as descobertas marítimas dos séculos XV e XVI. Ao recontar essa trajetória, Jean-Marie Pelt traz à luz fatos curiosos. Na Idade Média, uma das utilidades das especiarias era disfarçar o gosto das carnes, que, em virtude das dificuldades ligadas à sua conservação, muitas vezes se estragavam. Outro exemplo: na França absolutista, a pimenta-do-reino era a moeda corrente que os cidadãos com pendências nos tribunais usavam para pagar propinas aos juízes. No final do livro, vem a parte gastronômica em si: uma seleção de dezessete receitas. Leia trecho.

 
Divulgação
Obra de Matisse: arte em verbetes  

Estilos, Escolas & Movimentos, de Amy Dempsey (tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura; Cosac & Naify; 304 páginas; 149 reais) – Esse manual ilustrado é um ótimo guia para quem se interessa por arte moderna e contemporânea. A historiadora americana Amy Dempsey apresenta 300 verbetes que cobrem os estilos, escolas e movimentos artísticos mais influentes do fim do século XIX aos dias de hoje. As descrições são sucintas e claras – e vêm sempre acompanhadas de imagens das obras mais representativas de cada tema. Do fauvismo do francês Henri Matisse ao cubismo do espanhol Pablo Picasso, não falta nenhuma das principais tendências da arte moderna. Mas o livro vai muito além disso. Ele oferece verbetes substanciosos sobre temas aos quais a maioria das obras do gênero costuma dedicar umas poucas linhas, como é o caso do raionismo russo. Por meio dessa obra é possível se versar em temas que soam complicados aos ouvidos leigos, como as diferenças entre o impressionismo, o neo-impressionismo e o pós-impressionismo. Leia trecho.

 

 
 
 
 
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