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Especial
A
fé antes e depois de Cristo

João
Gabriel de Lima
Jesus
dividiu a história humana em antes e depois dele. A força
dessa delimitação, mesmo para a parte da humanidade
que não vê nela a mão divina, é aceita
por todos, e não apenas pelos 2 bilhões de cristãos,
ou um terço da humanidade. Dois mil anos depois, os sinais
materiais da existência em carne e osso de Jesus aparecem
mais claros nas análises de historiadores e nas escavações
arqueológicas. Discute-se menos agora se Jesus existiu mesmo.
O prodígio
maior do pregador que viveu na Palestina, cujo fascínio aumenta
com a passagem do tempo, é o fato cada vez mais aceito por
estudiosos de todas as religiões de que, além de lançar
as bases morais e éticas da civilização ocidental,
Jesus reinventou a fé. Essa é a chave para entender
Sua permanência e a aceitação de Sua doutrina
fora da cristandade.
A
fé surgiu como um evento único, uma etapa crucial
da humanização que deu impulso evolutivo aos povos
pré-históricos que a desenvolveram. A fé foi
uma vantagem comparativa na competição pelos recursos
escassos da pré-história. Ela criou a cooperação,
favoreceu a coesão dos clãs e, principalmente, deu-lhes
a noção de transcendência, de futuro e, portanto,
de planejamento. Por eras, até que Jesus começasse
a pregar, os homens expressaram sua fé quase da mesma maneira.
Os deuses, e bem mais tarde o Deus único do judaísmo,
eram figuras máximas da autoridade. Para agradar a eles,
seus adoradores passavam por cima de todas as regras de convivência.
Os deuses gregos eram mesquinhos, vingativos, adúlteros e
assassinos. As divindades egípcias podiam dizimar as colheitas
apenas porque os sacerdotes tiveram um deslize no instante de fazer-lhes
a oferenda, imolando o animal errado. Nada expressa melhor esse
período religioso do que a história do Velho Testamento
em que Deus, como prova de lealdade, determina ao patriarca Abraão
que mate o próprio filho, Isaac. Antes do golpe fatal, um
anjo segura a mão do patriarca. Deus dera-se por satisfeito.
Como prova de amor a Ele, Abraão foi tão longe que
esteve a ponto de matar o próprio filho. Jesus inverteu essa
lógica milenar com um ensinamento simples: amar a Deus é
amar ao próximo.
Depois
de Jesus, Deus passou a ser o Deus da misericórdia, da compaixão
e do perdão. Nenhuma filosofia ou religião que o precedeu
foi tão clara em estabelecer esses preceitos. Por isso a
ruptura operada por Jesus separou a humanidade de seu passado de
submissão a deuses cruéis e inaugurou uma nova era,
que dura até hoje, quando se comemoram 2003 anos de seu nascimento.
Ao fazer isso, Jesus influenciou fortemente todas as religiões
de Seu tempo e as que viriam a se organizar, como o islamismo, criado
seis séculos depois Dele. Para Maomé e os praticantes
do islamismo, Jesus foi um dos grandes profetas da humanidade, e
como tal é reverenciado pelos muçulmanos. É
um desafio para historiadores, teólogos, antropólogos
e outros estudiosos explicar como Jesus e seus seguidores conseguiram
dar uma guinada tão profunda nos rumos da humanidade e fundar
uma fé distinta de tudo o que existira antes. Atualmente
se aceita que nos 3.000 anos que precederam
a chegada de Jesus o mundo passou por um empuxo civilizatório
movido a comércio e melhoria dos meios de transporte marítimos
e o estabelecimento de rotas terrestres. Com a troca de mercadorias
veio a troca frenética de idéias que permitiram a
criação de uma base comum de convivência
a aritmética, o calendário, a realeza, o clero e os
infalíveis sistemas de impostos. Os textos sagrados também
começaram a se deixar influenciar uns pelos outros. Nessa
área, a mais revolucionária invenção
antes de Cristo foi o monoteísmo, ou seja, a veneração
de um único deus, sistema criado por Zoroastro, na Pérsia,
e adotado pelo judaísmo.
A
pregação de Jesus, segundo muitos historiadores, compilou
o que havia de mais moderno sobrenadando na civilização
antiga, do monoteísmo e da observância de regras do
judaísmo ao humanismo do grego Platão e até
o pacifismo e a tolerância ensinados pelos textos dos Vedas
da Índia. No livro As Religiões da Pré-História,
o etnólogo francês André Leroi-Gourhan mostra
que as religiões tiveram todas o mesmo berço, a caverna
gelada dos homens pré-históricos em plena era glacial.
Depois elas foram se diferenciando em liturgias e doutrinas diversas.
Jesus teria sido, na visão dele, a força que reunificou
os inúmeros impulsos religiosos em torno de Sua palavra.
Fosse apenas isso, e o cristianismo seria já uma belíssima
e avançada filosofia para o seu tempo. Mas foram outros componentes
inéditos da fé cristã e o choque que eles provocaram
no mundo o verdadeiro milagre da religião colocada de pé
por Jesus. Sua expansão foi tão forte, rápida
e misteriosa quanto o próprio surgimento da fé na
pré-história.
Em
sua obra clássica Declínio e Queda do Império
Romano, o historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794)
defende a tese de que o cristianismo foi o fator interno determinante
para a decadência da maior potência da Antiguidade.
O fator externo foram os cercos constantes das hordas bárbaras
vindas do norte da Europa e da Ásia. Gibbon diz que a aceitação
dos ensinamentos do cristianismo, especialmente a pregação
pacifista ("ofereça a outra face"), teria amolecido as legiões
romanas. Se ajudou a demolir um império global, o cristianismo
teria ajudado a criar muitos outros. Em A Ética Protestante
e o Espírito do Capitalismo, o sociólogo alemão
Max Weber (1864-1920) mostra como os princípios do cristianismo
em sua vertente protestante nortearam a construção
da potência hegemônica do mundo atual, os Estados Unidos.
Na interpretação de Weber, para se mostrarem dignos
da graça divina, os capitalistas ingleses e americanos, principalmente,
demonstravam sua fé seguindo a ética do trabalho propugnada
nos evangelhos e nas epístolas do apóstolo Paulo.
Jesus fez isso tudo sem ter deixado uma única linha escrita,
sem montar exércitos nem acumular riquezas e sem ter se afastado
mais que algumas centenas de quilômetros da cidade de Nazaré,
na Palestina, onde foi criado. Para os historiadores, é quase
inexplicável o fato de a mensagem de Jesus ter sobrevivido
a seu tempo e avançado dois milênios pregando a paz
a guerreiros, ensinando o desapego material aos ricos e a tolerância
a monarcas incontrastáveis. Para os cristãos, isso
é sinal da origem divina de sua igreja.
Com reportagem de
Natália Viana Rodrigues
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