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Lições do barroco
"O barroco
brasileiro, muito bem representado
no Petit Palais de Paris, foi o nosso primeiro
ensaio de assimilação cultural"
Neste
final de outono europeu há nas ruas parisienses um
cartaz que afaga o amor-próprio brasileiro. Tem cores
douradas que combinam com as folhas das árvores amareladas
pelos primeiros frios: retrata um anjo da Igreja de Nossa
Senhora do Carmo, em Ouro Preto. O anjo, junto com outras
obras de Aleijadinho e do barroco brasileiro, compõe
o cartaz oficial da exposição do museu do
Petit Palais intitulada Brasil
Barroco Entre Céu e Terra.
Nosso barroco
está muito bem representado no Petit Palais. Mas
não está sozinho por aqui. Há, também
em Paris, uma exposição de menor porte de
obras barrocas hispano-americanas oriundas de Quito e,
em Turim, abriu-se uma exposição sobre a
arquitetura barroca italiana. Os críticos fazem
ainda um paralelo com a exposição da obra
arquitetônica de Francesco Borromini, em Lugano,
Suíça, terra natal do artista barroco, que
festeja o quarto centenário de seu nascimento.
Ilustração
Alê Setti
No
mesmo registro comparativo, a exposição
do Petit Palais podia ter apontado a influência
da arte asiática no barroco brasileiro, patente
até para o olho desarmado do curioso, na obra de
frei Agostinho da Piedade (1580-1661), cujas imagens (Santa
Mônica,
patrimônio histórico da Bahia, e Menino
Jesus,
Monastério de São Bento, Olinda) exprimem
uma placidez budística situada a léguas
do sentimento ibérico.
Decerto, assinalou-se
o que é impossível avaliar em Paris e, talvez,
constitua o aspecto mais genuinamente criativo dessa nossa
arte. Ou seja na opinião quase unânime dos
entendidos , a arquitetura barroca brasileira, cuja obra-prima
é a Igreja de São Francisco de Assis (Ouro
Preto), concebida por Aleijadinho. Ainda aqui, a exposição
abre pistas não exploradas. Qual a parte que Aleijadinho
deve à tradição arquitetônica
propriamente familiar e portuguesa, transmitida por seus
dois mestres, seu tio Antônio Francisco Pombal e seu
pai, Manuel Francisco Lisboa, importantes arquitetos em
Minas? Os traços comuns com o barroco existente em
Portugal, nos Açores, na Madeira se esboçam
imediatamente aos olhos dos brasileiros que já viajaram
por essas diferentes paragens. Viajar, ver, comparar. Essas
são as palavras-chaves para entender o alcance da
exposição parisiense, do barroco setecentista
brasileiro e do gênio de Aleijadinho.
No final da década
de 1750, quando Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho,
entrava nos seus 20 anos, Minas Gerais era o centro do
Brasil. Mais ainda, Minas Gerais estava inventando o Brasil
e os brasileiros, um país e um povo que até
então não tinham conhecimento de sua própria
existência. Vinte anos mais tarde, duas gerações
já haviam tido consciência da nova realidade
geográfica e cultural. Atraídos pelo ímã
do ouro, os criadores dos confins gaúchos, os paulistas,
os fluminenses, os baianos, os pernambucanos, os sertanejos
do São Francisco, os curraleiros do Maranhão
afluíam para Minas. Toda essa gente de fala portuguesa
até então dispersa pela América do
Sul mal tinha notícia uma da outra e, sobretudo,
nunca se tinha visto junto. Nos anos 1776-1785, trabalhando
em Vila Rica, Sabará, São João del
Rei, transitando pela área, Aleijadinho cruzou
com artesãos chegados das capitanias mais distantes,
conversou e também aprendeu com eles.
No prefácio
do belo catálogo da exposição do
Petit Palais, o presidente Fernando Henrique Cardoso,
retomando uma definição de Mário
de Andrade sobre a obra de Aleijadinho ("a solução
brasileira da colônia"), nota que o barroco foi
o nosso primeiro ensaio de assimilação cultural.
A afirmação é verdadeira no seu sentido
mais completo e definitivo. O barroco transfigura uma
cultura heterogênea, de dimensão continental,
que, pela primeira vez, descobre seu destino comum no
contexto da arte universal. Neste fim de século,
às vésperas dos 500 anos do Descobrimento,
essa é a mensagem mais profunda da exposição
de Paris.
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