Edição 1 625 - 24/11/1999

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Lições do barroco

"O barroco brasileiro, muito bem representado
no Petit Palais de Paris, foi o nosso primeiro
ensaio de assimilação cultural"

Neste final de outono europeu há nas ruas parisienses um cartaz que afaga o amor-próprio brasileiro. Tem cores douradas que combinam com as folhas das árvores amareladas pelos primeiros frios: retrata um anjo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto. O anjo, junto com outras obras de Aleijadinho e do barroco brasileiro, compõe o cartaz oficial da exposição do museu do Petit Palais intitulada Brasil Barroco – Entre Céu e Terra.

 

Nosso barroco está muito bem representado no Petit Palais. Mas não está sozinho por aqui. Há, também em Paris, uma exposição de menor porte de obras barrocas hispano-americanas oriundas de Quito e, em Turim, abriu-se uma exposição sobre a arquitetura barroca italiana. Os críticos fazem ainda um paralelo com a exposição da obra arquitetônica de Francesco Borromini, em Lugano, Suíça, terra natal do artista barroco, que festeja o quarto centenário de seu nascimento.

Ilustração Alê Setti
No mesmo registro comparativo, a exposição do Petit Palais podia ter apontado a influência da arte asiática no barroco brasileiro, patente até para o olho desarmado do curioso, na obra de frei Agostinho da Piedade (1580-1661), cujas imagens (Santa Mônica, patrimônio histórico da Bahia, e Menino Jesus, Monastério de São Bento, Olinda) exprimem uma placidez budística situada a léguas do sentimento ibérico.

Decerto, assinalou-se o que é impossível avaliar em Paris e, talvez, constitua o aspecto mais genuinamente criativo dessa nossa arte. Ou seja – na opinião quase unânime dos entendidos – , a arquitetura barroca brasileira, cuja obra-prima é a Igreja de São Francisco de Assis (Ouro Preto), concebida por Aleijadinho. Ainda aqui, a exposição abre pistas não exploradas. Qual a parte que Aleijadinho deve à tradição arquitetônica propriamente familiar e portuguesa, transmitida por seus dois mestres, seu tio Antônio Francisco Pombal e seu pai, Manuel Francisco Lisboa, importantes arquitetos em Minas? Os traços comuns com o barroco existente em Portugal, nos Açores, na Madeira se esboçam imediatamente aos olhos dos brasileiros que já viajaram por essas diferentes paragens. Viajar, ver, comparar. Essas são as palavras-chaves para entender o alcance da exposição parisiense, do barroco setecentista brasileiro e do gênio de Aleijadinho.

 

No final da década de 1750, quando Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, entrava nos seus 20 anos, Minas Gerais era o centro do Brasil. Mais ainda, Minas Gerais estava inventando o Brasil e os brasileiros, um país e um povo que até então não tinham conhecimento de sua própria existência. Vinte anos mais tarde, duas gerações já haviam tido consciência da nova realidade geográfica e cultural. Atraídos pelo ímã do ouro, os criadores dos confins gaúchos, os paulistas, os fluminenses, os baianos, os pernambucanos, os sertanejos do São Francisco, os curraleiros do Maranhão afluíam para Minas. Toda essa gente de fala portuguesa até então dispersa pela América do Sul mal tinha notícia uma da outra e, sobretudo, nunca se tinha visto junto. Nos anos 1776-1785, trabalhando em Vila Rica, Sabará, São João del Rei, transitando pela área, Aleijadinho cruzou com artesãos chegados das capitanias mais distantes, conversou e também aprendeu com eles.

No prefácio do belo catálogo da exposição do Petit Palais, o presidente Fernando Henrique Cardoso, retomando uma definição de Mário de Andrade sobre a obra de Aleijadinho ("a solução brasileira da colônia"), nota que o barroco foi o nosso primeiro ensaio de assimilação cultural. A afirmação é verdadeira no seu sentido mais completo e definitivo. O barroco transfigura uma cultura heterogênea, de dimensão continental, que, pela primeira vez, descobre seu destino comum no contexto da arte universal. Neste fim de século, às vésperas dos 500 anos do Descobrimento, essa é a mensagem mais profunda da exposição de Paris.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)