Edição 1 625 - 24/11/1999

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Vovô queria matar o bom velhinho

Alguns fatos e umas tantas especulações sobre uma
família muito conhecida dos brasileiros

"E o velho?" Essa era a pergunta que estava em todas as bocas. "Que fazer do velho?" Os conspiradores que às vésperas do 15 de novembro de 1889, fez agora 110 anos, preparavam-se para o golpe da proclamação da República, preocupavam-se com a figura provecta, paternal, respeitada pelas famílias e venerada pelos simples que era o imperador dom Pedro II. A questão de que fim lhe dar surgiu, entre outras ocasiões, numa reunião fechada do Clube Militar, comandada por seu presidente, Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Exilá-lo, eis a solução que parecia mais conveniente. Mas e se ele se recusasse a partir? Um dos oficiais presentes propôs: nesse caso, que fosse fuzilado. Benjamin Constant reagiu com ironia: "Oh, o senhor é sanguinário...", e emendou com um sermão. Dom Pedro II era um patrício muito digno, disse, e merecia ser tratado com consideração.

O nome do "sanguinário" em questão, o oficial que queria fuzilar o imperador, começa com os nomes Manuel Joaquim Inácio. Sua patente era de alferes, como eram chamados os tenentes na época – era conhecido como alferes Joaquim Inácio. Isso diz algo ao leitor ou à leitora? Talvez não, então avancemos: o nome que vem em seguida é Batista. Manuel Joaquim Inácio Batista. Ainda nada? Então vamos ao nome completo: Manuel Joaquim Inácio Batista Cardoso. Repita-se: Cardoso. Isso tem que dizer algo ao leitor (a). É Cardoso, como em Fernando Henrique Cardoso! Sim, o leitor (a) adivinhou. O alferes Joaquim Inácio, conspirador incurável, integrante do grupo mais fanático de republicanos do Exército, é o avô paterno do presidente Fernando Henrique Cardoso. Agora já se tem toda a dimensão do escândalo. Vovô queria matar o bom velhinho!

O episódio em que Joaquim Inácio sugere o fuzilamento do imperador está contado num livro que acaba de chegar às livrarias, a biografia de Benjamin Constant de autoria do historiador Renato Lemos (Benjamin Constant, Vida e História, Topbooks). E se a tese do avô do atual presidente tivesse prevalecido? Os radicais da objetividade são contra o "se", na História – a História é o que foi, não o que poderia ter sido. Mas o "se", além de excitar a imaginação, tem sua utilidade. Ao aventar o que poderia ter sido, ajuda a compreender o que foi. Se dom Pedro II tivesse sido fuzilado, para começar, dificilmente se manteria a aura – ou a mentira – de portadores de uma História mansa e pacífica que nos persegue. Acrescentaríamos a nosso passado episódio parecido com o do México, único país americano a ter em seu território uma cabeça coroada, além do Brasil, e que se livrou dela pelo método sonhado por vovô Joaquim Inácio ao fuzilar (em 1867) o imperador Maximiliano, o intruso com o qual os franceses haviam tentado uma aposta por aquelas bandas.

Se dom Pedro II tivesse sido fuzilado, além disso, as chances de a monarquia ganhar novo fôlego e durar bem mais do que durou seriam grandes. Teríamos, com 65 anos de avanço, a edição do fenômeno Getúlio Vargas, aquele que, ao sair da vida, prolongou-se na História. Com o suicídio, Vargas não só garantiu a legenda de mártir, como criou as condições para que os seguidores se mantivessem no poder. Não. Definitivamente, ao pôr a prêmio a cabeça alheia, o alferes Joaquim Inácio não estava com a própria no lugar. À causa que defendia não interessava oferecer um cadáver ao adversário, e ainda mais um cadáver como aquele, o do monarca que, no decorrer de meio século, fora um símbolo da pátria. Se exilá-lo já foi doloroso, matá-lo seria como matar a pátria.

Joaquim Inácio é citado cinco vezes, no livro de Renato Lemos, todas no papel de incendiário. Um relatório sobre a disciplina no Exército, em outubro de 1889, afirmava que ele e o capitão Menna Barreto, ambos "sempre exaltados", acabavam por contagiar os colegas. Apesar da pouca idade – 29 anos –, ele fez parte do núcleo duro da conspiração. Coube-lhe, uma vez desfechado o golpe, a ele, ao major Sólon Ribeiro e a um terceiro oficial, levar ao imperador a ordem de banimento. Há uma gravura famosa em que a cena é reconstituída. Ufa! O imperador aceitou a ordem. Não foi preciso tomar medida mais drástica. Senão, o neto Fernando Henrique seria o neto do regicida.

Não é novidade que o avô Joaquim Inácio, um avô que, diga-se de passagem, o neto não conheceu (o primeiro morreu em 1924, sete anos antes de o segundo nascer), quis fuzilar o imperador. O próprio Fernando Henrique já se referiu a isso, em entrevistas. O livro de Lemos apenas traz o episódio de volta. Que concluir do fato de o atual presidente ter tido tal avô? Haveria pontos comuns entre um e outro? Por um lado, Fernando Henrique leva vantagem. Entre seus defeitos não consta, até onde é possível discernir, a sanha assassina. Quanto ao julgamento pelo critério do "se", o presidente é uma incógnita. E se tivesse rompido com o PFL? Se tivesse desprezado o FMI? Tivesse nomeado José Serra para a Fazenda? O avô resulta derrotado, à luz do "se". Quanto ao neto... façam suas apostas, senhores.