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Vovô queria matar o bom velhinho
Alguns fatos e umas tantas especulações
sobre uma
família muito conhecida dos brasileiros
"E o velho?" Essa era a pergunta que estava
em todas as bocas. "Que fazer do velho?" Os conspiradores
que às vésperas do 15 de novembro de 1889,
fez agora 110 anos, preparavam-se para o golpe da proclamação
da República, preocupavam-se com a figura provecta,
paternal, respeitada pelas famílias e venerada pelos
simples que era o imperador dom Pedro II. A questão
de que fim lhe dar surgiu, entre outras ocasiões,
numa reunião fechada do Clube Militar, comandada
por seu presidente, Benjamin Constant Botelho de Magalhães.
Exilá-lo, eis a solução que parecia
mais conveniente. Mas e se ele se recusasse a partir? Um
dos oficiais presentes propôs: nesse caso, que fosse
fuzilado. Benjamin Constant reagiu com ironia: "Oh, o senhor
é sanguinário...", e emendou com um sermão.
Dom Pedro II era um patrício muito digno, disse,
e merecia ser tratado com consideração.
O nome do "sanguinário" em questão, o oficial
que queria fuzilar o imperador, começa com os nomes
Manuel Joaquim Inácio. Sua patente era de alferes,
como eram chamados os tenentes na época era conhecido
como alferes Joaquim Inácio. Isso diz algo ao leitor
ou à leitora? Talvez não, então avancemos:
o nome que vem em seguida é Batista. Manuel Joaquim
Inácio Batista. Ainda nada? Então vamos ao
nome completo: Manuel Joaquim Inácio Batista Cardoso.
Repita-se: Cardoso. Isso tem que dizer algo ao leitor (a).
É Cardoso, como em Fernando Henrique Cardoso! Sim,
o leitor (a) adivinhou. O alferes Joaquim Inácio,
conspirador incurável, integrante do grupo mais fanático
de republicanos do Exército, é o avô
paterno do presidente Fernando Henrique Cardoso. Agora já
se tem toda a dimensão do escândalo. Vovô
queria matar o bom velhinho!
O episódio em que Joaquim Inácio sugere o
fuzilamento do imperador está contado num livro que
acaba de chegar às livrarias, a biografia de Benjamin
Constant de autoria do historiador Renato Lemos (Benjamin
Constant, Vida e História, Topbooks). E se a
tese do avô do atual presidente tivesse prevalecido?
Os radicais da objetividade são contra o "se", na
História a História é o que
foi, não o que poderia ter sido. Mas o "se", além
de excitar a imaginação, tem sua utilidade.
Ao aventar o que poderia ter sido, ajuda a compreender o
que foi. Se dom Pedro II tivesse sido fuzilado, para começar,
dificilmente se manteria a aura ou a mentira
de portadores de uma História mansa e pacífica
que nos persegue. Acrescentaríamos a nosso passado
episódio parecido com o do México, único
país americano a ter em seu território uma
cabeça coroada, além do Brasil, e que se livrou
dela pelo método sonhado por vovô Joaquim Inácio
ao fuzilar (em 1867) o imperador Maximiliano, o intruso
com o qual os franceses haviam tentado uma aposta por aquelas
bandas.
Se dom Pedro II tivesse sido fuzilado, além disso,
as chances de a monarquia ganhar novo fôlego e durar
bem mais do que durou seriam grandes. Teríamos, com
65 anos de avanço, a edição do fenômeno
Getúlio Vargas, aquele que, ao sair da vida, prolongou-se
na História. Com o suicídio, Vargas não
só garantiu a legenda de mártir, como criou
as condições para que os seguidores se mantivessem
no poder. Não. Definitivamente, ao pôr a prêmio
a cabeça alheia, o alferes Joaquim Inácio
não estava com a própria no lugar. À
causa que defendia não interessava oferecer um cadáver
ao adversário, e ainda mais um cadáver como
aquele, o do monarca que, no decorrer de meio século,
fora um símbolo da pátria. Se exilá-lo
já foi doloroso, matá-lo seria como matar
a pátria.
Joaquim Inácio é citado cinco vezes, no livro
de Renato Lemos, todas no papel de incendiário. Um
relatório sobre a disciplina no Exército,
em outubro de 1889, afirmava que ele e o capitão
Menna Barreto, ambos "sempre exaltados", acabavam por contagiar
os colegas. Apesar da pouca idade 29 anos , ele fez
parte do núcleo duro da conspiração.
Coube-lhe, uma vez desfechado o golpe, a ele, ao major Sólon
Ribeiro e a um terceiro oficial, levar ao imperador a ordem
de banimento. Há uma gravura famosa em que a cena
é reconstituída. Ufa! O imperador aceitou
a ordem. Não foi preciso tomar medida mais drástica.
Senão, o neto Fernando Henrique seria o neto do regicida.
Não é novidade que o avô Joaquim Inácio,
um avô que, diga-se de passagem, o neto não
conheceu (o primeiro morreu em 1924, sete anos antes de
o segundo nascer), quis fuzilar o imperador. O próprio
Fernando Henrique já se referiu a isso, em entrevistas.
O livro de Lemos apenas traz o episódio de volta.
Que concluir do fato de o atual presidente ter tido tal
avô? Haveria pontos comuns entre um e outro? Por um
lado, Fernando Henrique leva vantagem. Entre seus defeitos
não consta, até onde é possível
discernir, a sanha assassina. Quanto ao julgamento pelo
critério do "se", o presidente é uma incógnita.
E se tivesse rompido com o PFL? Se tivesse desprezado o
FMI? Tivesse nomeado José Serra para a Fazenda? O
avô resulta derrotado, à luz do "se". Quanto
ao neto... façam suas apostas, senhores.
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