Edição 1 625 - 24/11/1999

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Matar ou morrer

Um filme que disseca o modo de vida americano

Isabela Boscov

Em A Eleição (Election, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, não há crimes graves, só pequenas contravenções. Mas o filme é muito instrutivo para quem deseja entender por que tragédias como aquela provocada pelo estudante Mateus da Costa Meira num cinema paulistano são hoje tão corriqueiras nos Estados Unidos. O cenário dessa comédia afiada é dos mais banais: uma escola interiorana, onde uma aluna ambiciosa concorre sozinha à presidência do grêmio estudantil. Aplicada, empertigada e indisfarçavelmente neurótica, a jovem Tracy Flick (Reese Witherspoon) personifica os piores pesadelos do mais querido dos professores do colégio, o senhor McAllister (Matthew Broderick). Explica-se: ele é um desses sujeitos que gostam do que fazem. Não se incomoda em ganhar um salário modesto e dirigir um carro baratinho. Para Tracy, como para boa parte dos americanos, tal resignação é incompreensível – quando não desprezível. Sentindo-se inferiorizado pela aluna, o professor trata de arrumar um rival para ela na eleição. E, com esse gesto, desencadeia uma série de confusões que vão deixar vítimas inesperadas, entre as quais ele próprio.

Apesar de A Eleição ser apenas o segundo longa-metragem do diretor Alexander Payne, ele demonstra que vai fazer uma bela carreira dissecando as bizarrices da sociedade americana. Em sua primeira fita, a comédia Ruth em Questão, uma viciada em drogas grávida pela quinta vez virava objeto de disputa entre grupos pró e contra o aborto. Agora, ele amplia o seu retrato, transformando a escola provinciana da fita num palco em que todos os valores se digladiam. É uma crítica corrosiva à ideologia do sucesso a qualquer preço. Mas não apenas isso. O cineasta faz questão de mostrar que também aqueles que não "chegaram lá" não perdem a chance de se vingar pisando nos que estão mais por baixo ainda. Para alguns especialistas, essa competitividade extrema é o estopim dos massacres que têm aterrorizado as escolas americanas. Como é esperto e tem imaginação, porém, o diretor não quer saber de aborrecer a platéia com sermões. Com senso de humor atilado, ele soma reviravolta atrás de reviravolta e cria ótimas cenas – como a do rapaz bem-intencionado que na mesma oração agradece a Deus pela boa saúde e pela caminhonete nova.