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Matar ou morrer
Um filme que disseca o modo de vida
americano
Isabela Boscov
Em A Eleição (Election, Estados Unidos,
1999), que estréia nesta sexta-feira em São
Paulo, não há crimes graves, só pequenas
contravenções. Mas o filme é muito
instrutivo para quem deseja entender por que tragédias
como aquela provocada pelo estudante Mateus da Costa Meira
num cinema paulistano são hoje tão corriqueiras
nos Estados Unidos. O cenário dessa comédia
afiada é dos mais banais: uma escola interiorana,
onde uma aluna ambiciosa concorre sozinha à presidência
do grêmio estudantil. Aplicada, empertigada e indisfarçavelmente
neurótica, a jovem Tracy Flick (Reese Witherspoon)
personifica os piores pesadelos do mais querido dos professores
do colégio, o senhor McAllister (Matthew Broderick).
Explica-se: ele é um desses sujeitos que gostam
do que fazem. Não se incomoda em ganhar um salário
modesto e dirigir um carro baratinho. Para Tracy, como
para boa parte dos americanos, tal resignação
é incompreensível quando não desprezível.
Sentindo-se inferiorizado pela aluna, o professor trata
de arrumar um rival para ela na eleição.
E, com esse gesto, desencadeia uma série de confusões
que vão deixar vítimas inesperadas, entre
as quais ele próprio.
Apesar de A Eleição ser apenas o segundo
longa-metragem do diretor Alexander Payne, ele demonstra
que vai fazer uma bela carreira dissecando as bizarrices
da sociedade americana. Em sua primeira fita, a comédia
Ruth em Questão, uma viciada em drogas grávida
pela quinta vez virava objeto de disputa entre grupos
pró e contra o aborto. Agora, ele amplia o seu
retrato, transformando a escola provinciana da fita num
palco em que todos os valores se digladiam. É uma
crítica corrosiva à ideologia do sucesso
a qualquer preço. Mas não apenas isso. O
cineasta faz questão de mostrar que também
aqueles que não "chegaram lá" não
perdem a chance de se vingar pisando nos que estão
mais por baixo ainda. Para alguns especialistas, essa
competitividade extrema é o estopim dos massacres
que têm aterrorizado as escolas americanas. Como
é esperto e tem imaginação, porém,
o diretor não quer saber de aborrecer a platéia
com sermões. Com senso de humor atilado, ele soma
reviravolta atrás de reviravolta e cria ótimas
cenas como a do rapaz bem-intencionado que na mesma
oração agradece a Deus pela boa saúde
e pela caminhonete nova.
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