Edição 1 625 - 24/11/1999

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O mundo sem fio

O PC é quase esquecido na última Comdex,
a feira tecnológica mais influente do mercado

Manoel Fernandes


Playstation 2: recursos de DVD são a grande atração

Nas duas últimas décadas, os visitantes da Comdex, a maior feira internacional de produtos de tecnologia, nos Estados Unidos, acostumaram-se a fazer reverência ao computador pessoal, o PC. Transformado em sucesso de público nos anos 80 por Steve Jobs, da Apple, o computador manteve a supremacia em todas as feiras do gênero espalhadas pelo mundo. A Comdex sempre entronizou o produto, que mudou a forma de fazer negócios e criou uma indústria bilionária. Mas na semana passada, em Las Vegas, os 2.000 expositores e os dirigentes das maiores empresas de tecnologia tinham outro foco. "Essa plataforma está morta", exagerou Bob Young, presidente da Red Hat, que distribuiu produtos sob a bandeira Linux, o sistema operacional que é a mais nova sensação do momento no mundo dos computadores. Bill Gates, fundador da Microsoft, dono de uma bilionária conta corrente montada com o êxito dos computadores pessoais, passou parte de sua apresentação na Comdex divertindo a platéia com aparelhinhos portáteis – e não com PCs. Alguns especialistas dizem que em dez anos nos Estados Unidos, e algum tempo mais tarde no resto do mundo, os PCs serão máquinas obsoletas. Ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que no próximo século placas de vídeo, memória e equipamentos de última geração não serão tão vitais para ter acesso à internet.

i-opener: jeito de computador, mas o negócio é internet


Foram suficientes algumas horas, na Comdex, para que o objeto que mais representava o futuro há dez anos se transformasse em algo que lembra o passado. Os 200.000 visitantes da feira serpenteavam entre os estandes de exposição das empresas de PCs e as novidades de internet e wireless, a comunicação sem fio. Até dirigentes de empresas, sinônimos dessa indústria, como Carly Fiorina, chefona da Hewlett-Packard, fabricante de impressoras, preferiram falar mais sobre internet e menos sobre PCs. O anúncio mais importante da HP não foi uma nova impressora, mas o projeto em conjunto com a Swatch para desenvolver um relógio de pulso capaz de acessar a rede. O lado irônico dessa Comdex, a última do milênio, é que no futuro ela poderá ser vista como a primeira de uma nova era, em que os PCs começaram a ceder espaço no mercado para aparelhos menores, mais baratos e mais simples de usar.

Pelo que ocorreu em Las Vegas, é prematuro decretar a aposentadoria do PC. Ele ainda terá bons anos de trabalho. O que se viu é que o modelo atual está sendo revisto e agora a opção é pela simplicidade e pela objetividade. As vendas continuam em ascensão tanto nos Estados Unidos quanto nos países emergentes, como o Brasil. Em 1997 existiam em funcionamento em todo o planeta 360 milhões de PCs. Em 2000 esse número será de 579 milhões. A taxa de penetração dos computadores nos lares americanos, no topo do ranking (veja gráfico), ainda é de 54%. Bill Gates, por exemplo, sonha com o dia em que cada casa nos Estados Unidos terá um PC, de preferência conectado à internet. Em 1946, quando o primeiro computador foi projetado, o Eniac, poucos acreditavam que aquela máquina gigantesca um dia chegaria aos quartos e salas das casas ao redor do mundo. Anos depois também se acreditava que o PC nunca perderia importância. Essa avaliação estava incorreta.


i-phone: segunda geração
de telefonia pela rede

O futuro da economia digital chama-se wireless. É a comunicação feita pelo ar entre pontos distintos e com base no protocolo TCP/IP, que faz os computadores "conversar" entre si na internet. O que é isso? Imagine um telefone celular que acessa a internet, recebe mensagens pelo correio eletrônico, controla a distância outras máquinas e é capaz de transmitir os dados a uma velocidade quarenta vezes maior que a dos modems existentes hoje no mercado. A empresa finlandesa Nokia promete oferecer esse produto em dois anos. A propaganda já pode ser vista na televisão. Nela, Pelé, o atleta do século, conversa com seu empresário dentro de um trem. Na Comdex, o setor de telefonia foi o que mais apresentou novidades. Desde aparelhos para conversas a baixo custo pela internet até celulares de última geração. A Ericsson, da Suécia, mostrou o celular capaz de executar músicas no padrão MP3, com qualidade de CD. A Samsung também lançou modelo semelhante, mas ambos só estarão disponíveis no final do próximo ano.

No mundo pós-PC e da comunicação sem fio, os celulares serão os grandes astros e com eles empresas que estão fora dos Estados Unidos. Os americanos correm o risco de perder a hegemonia no setor tecnológico. Os países escandinavos, como a Suécia e a Finlândia, podem assumir essa liderança. "Entre os americanos há a falsa impressão de que eles também irão liderar a era pós-PC. Essa liderança está reservada para o Japão", declarou, em tom ufanista, o presidente mundial da Sony, Nobuyuki Idei, em sua entrevista na Comdex. A própria Sony se encarregou de atrair a atenção dos futuros consumidores ao apresentar uma nova versão de seu Playstation com recursos de DVD, mais veloz que as anteriores.

O que essa revolução está provocando é uma mudança de paradigma em relação ao computador. Os produtos que nascem dentro do novo conceito continuarão sendo computadores na essência, em que um conjunto de informações é processado por um chip que está lá para essa função. O que muda é o visual e os recursos que as novas máquinas irão oferecer e sua ligação com a internet. Nesse universo, a velha caixa plástica fica sem sentido e perde completamente sua funcionalidade. O mundo do wireless segue uma tendência iniciada pelo ex-presidente da Sony Akio Morita, a miniaturização. Se posso ter um celular que faz tudo e pesa poucos gramas, por que irei continuar sentado em frente de uma tela? Essa é a pergunta a que os atuais PCs não sabem responder.

 

Crise no reino encantado

A harmonia entre os adeptos do sistema operacional Linux, uma espécie de Shangri-lá da alta tecnologia, está ameaçada. Antes, o objetivo comum era derrotar o bicho-papão Bill Gates, que pretendia controlar o mundo com seu brinquedo favorito, o Windows. Os "mocinhos" do Linux, o sistema operacional gratuito, ainda estão longe de fazer cócegas no império de Gates, mas começaram a brigar entre si. Irmão contra irmão. O estopim foi o anúncio da Corel, na semana passada, na Comdex, de que vai cobrar 60 dólares pela versão do programa gráfico Corel Draw para Linux. De um lado com as tábuas da lei na mão estão os entusiastas do programa criado pelo finlandês Linus Torvalds, em 1991, e os milhares de pessoas que o ajudaram pela internet. Do outro, os bons capitalistas que descobriram mais uma fonte de lucros com a venda de produtos e serviços baseados em Linux. O expoente desse grupo é a empresa Red Hat, cujas ações dispararam na Bolsa de Nova York.

O Linux nasceu para combater o Windows e sua essência é a gratuidade. Pela lógica de Torvalds, ninguém poderia controlá-lo e todos seriam donos. Para alcançar esse objetivo, o código-fonte, a alma dos programas para computador, foi liberado e ganhou a rede. Essa medida transformou o Linux em um ícone do espírito livre da internet, mas ele ainda está distante de superar a Microsoft ou até mesmo a Apple. Nas grandes empresas, é adotado em computadores envolvidos em novos projetos. As áreas críticas continuam usando Windows e outros sistemas operacionais.

A maior vantagem do Linux é a funcionalidade e a série de produtos gratuitos disponíveis. Empresas como a Oracle lançam sempre uma versão gratuita de seus produtos. Quando os grandes clientes adotarem o sistema, a previsão é de que o poder do dinheiro vai corromper a pureza inicial da idéia. "Vender Linux não é pecado", afirma o gerente da Conectiva, Maruen Said, a empresa brasileira que comercializa por 88 reais versões em português e espanhol.