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O mundo sem fio
O PC é
quase esquecido na última Comdex,
a
feira tecnológica mais influente do mercado
Manoel Fernandes
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Playstation
2: recursos de DVD
são a grande atração
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Nas
duas últimas décadas, os visitantes da Comdex,
a maior feira internacional de produtos de tecnologia, nos
Estados Unidos, acostumaram-se a fazer reverência
ao computador pessoal, o PC. Transformado em sucesso de
público nos anos 80 por Steve Jobs, da Apple, o computador
manteve a supremacia em todas as feiras do gênero
espalhadas pelo mundo. A Comdex sempre entronizou o produto,
que mudou a forma de fazer negócios e criou uma indústria
bilionária. Mas na semana passada, em Las Vegas,
os 2.000
expositores e os dirigentes das maiores empresas de tecnologia
tinham outro foco. "Essa plataforma está morta",
exagerou Bob Young, presidente da Red Hat, que distribuiu
produtos sob a bandeira Linux, o sistema operacional que
é a mais nova sensação do momento no
mundo dos computadores. Bill Gates, fundador da Microsoft,
dono de uma bilionária conta corrente montada com
o êxito dos computadores pessoais, passou parte de
sua apresentação na Comdex divertindo a platéia
com aparelhinhos portáteis e não com PCs.
Alguns especialistas dizem que em dez anos nos Estados Unidos,
e algum tempo mais tarde no resto do mundo, os PCs serão
máquinas obsoletas. Ninguém sabe ao certo.
O que se sabe é que no próximo século
placas de vídeo, memória e equipamentos de
última geração não serão
tão vitais para ter acesso à internet.
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i-opener:
jeito de computador, mas o negócio é
internet
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Foram suficientes
algumas horas, na Comdex, para que o objeto que mais representava
o futuro há dez anos se transformasse em algo que
lembra o passado. Os 200.000
visitantes da feira serpenteavam entre os estandes de exposição
das empresas de PCs e as novidades de internet e wireless,
a comunicação sem fio. Até dirigentes
de empresas, sinônimos dessa indústria, como
Carly Fiorina, chefona da Hewlett-Packard, fabricante de
impressoras, preferiram falar mais sobre internet e menos
sobre PCs. O anúncio mais importante da HP não
foi uma nova impressora, mas o projeto em conjunto com a
Swatch para desenvolver um relógio de pulso capaz
de acessar a rede. O lado irônico dessa Comdex, a
última do milênio, é que no futuro ela
poderá ser vista como a primeira de uma nova era,
em que os PCs começaram a ceder espaço no
mercado para aparelhos menores, mais baratos e mais simples
de usar.
Pelo que
ocorreu em Las Vegas, é prematuro decretar a aposentadoria
do PC. Ele ainda terá bons anos de trabalho. O
que se viu é que o modelo atual está sendo
revisto e agora a opção é pela simplicidade
e pela objetividade. As vendas continuam em ascensão
tanto nos Estados Unidos quanto nos países emergentes,
como o Brasil. Em 1997 existiam em funcionamento em todo
o planeta 360 milhões de PCs. Em 2000 esse número
será de 579 milhões. A taxa de penetração
dos computadores nos lares americanos, no topo do ranking
(veja
gráfico),
ainda é de 54%. Bill Gates, por exemplo, sonha
com o dia em que cada casa nos Estados Unidos terá
um PC, de preferência conectado à internet.
Em 1946, quando o primeiro computador foi projetado, o
Eniac, poucos acreditavam que aquela máquina gigantesca
um dia chegaria aos quartos e salas das casas ao redor
do mundo. Anos depois também se acreditava que
o PC nunca perderia importância. Essa avaliação
estava incorreta.
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i-phone:
segunda geração
de
telefonia pela rede
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O futuro
da economia digital chama-se wireless.
É a comunicação feita pelo ar entre
pontos distintos e com base no protocolo TCP/IP, que faz
os computadores "conversar" entre si na internet. O que
é isso? Imagine um telefone celular que acessa
a internet, recebe mensagens pelo correio eletrônico,
controla a distância outras máquinas e é
capaz de transmitir os dados a uma velocidade quarenta
vezes maior que a dos modems existentes hoje no mercado.
A empresa finlandesa Nokia promete oferecer esse produto
em dois anos. A propaganda já pode ser vista na
televisão. Nela, Pelé, o atleta do século,
conversa com seu empresário dentro de um trem.
Na Comdex, o setor de telefonia foi o que mais apresentou
novidades. Desde aparelhos para conversas a baixo custo
pela internet até celulares de última geração.
A Ericsson, da Suécia, mostrou o celular capaz
de executar músicas no padrão MP3, com qualidade
de CD. A Samsung também lançou modelo semelhante,
mas ambos só estarão disponíveis
no final do próximo ano.
No
mundo pós-PC e da comunicação sem
fio, os celulares serão os grandes astros e com
eles empresas que estão fora dos Estados Unidos.
Os americanos correm o risco de perder a hegemonia no
setor tecnológico. Os países escandinavos,
como a Suécia e a Finlândia, podem assumir
essa liderança. "Entre os americanos há
a falsa impressão de que eles também irão
liderar a era pós-PC. Essa liderança está
reservada para o Japão", declarou, em tom ufanista,
o presidente mundial da Sony, Nobuyuki Idei, em sua entrevista
na Comdex. A própria Sony se encarregou de atrair
a atenção dos futuros consumidores ao apresentar
uma nova versão de seu Playstation com recursos
de DVD, mais veloz que as anteriores.
O que essa
revolução está provocando é
uma mudança de paradigma em relação
ao computador. Os produtos que nascem dentro do novo conceito
continuarão sendo computadores na essência,
em que um conjunto de informações é
processado por um chip que está lá para
essa função. O que muda é o visual
e os recursos que as novas máquinas irão
oferecer e sua ligação com a internet. Nesse
universo, a velha caixa plástica fica sem sentido
e perde completamente sua funcionalidade. O mundo do wireless
segue uma tendência iniciada pelo ex-presidente
da Sony Akio Morita, a miniaturização. Se
posso ter um celular que faz tudo e pesa poucos gramas,
por que irei continuar sentado em frente de uma tela?
Essa é a pergunta a que os atuais PCs não
sabem responder.
A harmonia
entre os adeptos do sistema operacional Linux, uma
espécie de Shangri-lá da alta tecnologia,
está ameaçada. Antes, o objetivo comum
era derrotar o bicho-papão Bill Gates, que
pretendia controlar o mundo com seu brinquedo favorito,
o Windows. Os "mocinhos" do Linux, o sistema operacional
gratuito, ainda estão longe de fazer cócegas
no império de Gates, mas começaram a
brigar entre si. Irmão contra irmão.
O estopim foi o anúncio da Corel, na semana
passada, na Comdex, de que vai cobrar 60 dólares
pela versão do programa gráfico Corel
Draw para Linux. De um lado com as tábuas da
lei na mão estão os entusiastas do programa
criado pelo finlandês Linus Torvalds, em 1991,
e os milhares de pessoas que o ajudaram pela internet.
Do outro, os bons capitalistas que descobriram mais
uma fonte de lucros com a venda de produtos e serviços
baseados em Linux. O expoente desse grupo é
a empresa Red Hat, cujas ações dispararam
na Bolsa de Nova York.
O Linux
nasceu para combater o Windows e sua essência
é a gratuidade. Pela lógica de Torvalds,
ninguém poderia controlá-lo e todos
seriam donos. Para alcançar esse objetivo,
o código-fonte, a alma dos programas para computador,
foi liberado e ganhou a rede. Essa medida transformou
o Linux em um ícone do espírito livre
da internet, mas ele ainda está distante de
superar a Microsoft ou até mesmo a Apple. Nas
grandes empresas, é adotado em computadores
envolvidos em novos projetos. As áreas críticas
continuam usando Windows e outros sistemas operacionais.
A
maior vantagem do Linux é a funcionalidade e
a série de produtos gratuitos disponíveis.
Empresas como a Oracle lançam sempre uma versão
gratuita de seus produtos. Quando os grandes clientes
adotarem o sistema, a previsão é de que
o poder do dinheiro vai corromper a pureza inicial da
idéia. "Vender Linux não é pecado",
afirma o gerente da Conectiva, Maruen Said, a empresa
brasileira que comercializa por 88 reais versões
em português e espanhol.
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