Edição 1 625 - 24/11/1999

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Gigante adormecido

Altamira, o maior município do mundo,
quer entrar para o Guinness

Klester Cavalcanti, de Altamira

 
Janduari Simões
Rua vazia de Altamira: luz elétrica
chegou só no ano passado


O maior município do mundo fica no Brasil e busca reconhecimento internacional: quer entrar para o Guinness – O Livro dos Recordes. Para tanto, a prefeitura de Altamira, uma imensa fatia de terra encravada no Pará, enviou ofício à sede da editora em Londres e dela recebeu resposta de que o pedido está sendo considerado e, se aprovado, será incluído na edição de 2001. A notícia está causando alvoroço no município, que ocupa a impressionante área de 161.445 quilômetros quadrados, um tantinho de nada menor do que três países europeus – Portugal, Holanda e Bélgica – somados. Quer dizer, o alvoroço possível entre seus 75.000 habitantes. Sim, porque Altamira detém também um recorde nacional: o de menor densidade demográfica. Enquanto a média do país é de dezoito habitantes por quilômetro quadrado, lá esse número é 0,4. O comércio local é pífio, a indústria, inexistente, e a arrecadação de impostos cobre meros 10% do orçamento mensal de 1 milhão de reais. Os governos federal (75%) e estadual (15%) cobrem o resto.


Altamira tem terra fértil, onde se produzem todo ano 30.000 toneladas de cacau, 8 000 de pimenta-do-reino e 8.000 de café, que rendem 90 milhões de reais. As madeireiras escondem o jogo, mas estima-se que embolsem entre 7 e 10 milhões de reais a cada ano. Tirando isso, e o caudaloso Rio Xingu, pouca coisa resta no município. Emancipado em 1911, o gigante adormecido sacudiu a modorra no início da década de 70, com a inauguração da Rodovia Transamazônica, monstrengo de 1.520 quilômetros que nunca foi asfaltado. "Todos esperavam que a estrada trouxesse o progresso, mas só trouxe mais problemas", lamenta o historiador Ubirajara Marques, 73 anos, autor do livro Altamira e Sua História. A população saltou de 10.000 para 30 000 habitantes em três anos, sem a contrapartida de investimentos em infra-estrutura e suporte para os recém-chegados, e o desenvolvimento estancou praticamente sem ter começado. Em junho do ano passado, nova sacudida com a chegada da energia da hidrelétrica de Tucuruí. Até agora, tudo continua igual.