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Ciência do fuxico
Pesquisadores correm atrás de
detalhes íntimos de personalidades
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Ludwig van Beethoven
Pesquisadores estão realizando análise do DNA de um tufo
de cabelo para descobrir se ele tinha sífilis. Eles imaginam
que a doença teria causado surdez no compositor. |
Há quase um ano, uma
equipe de estudiosos americanos está tentando descobrir segredos
da vida do célebre compositor alemão Ludwig van Beethoven,
examinando fios de seu cabelo que foram conservados por gerações
até os dias de hoje. Exatos 582 fios de cabelo de Beethoven,
arrematados em 1994 por 7.000 dólares em um leilão
da Sotheby's de Londres, foram entregues a seis geneticistas
da Universidade do Arizona. Os testes estão em fase de conclusão
e seus resultados devem ser publicados em um livro nos Estados
Unidos no próximo ano. O que se pretende descobrir com a pesquisa?
Principalmente se Beethoven sofria de sífilis. O estudo dos
fios de cabelo do genial criador das sinfonias e da ópera
Fidélio é apenas mais um exemplo da nova corrente de
pesquisa centrada na busca de detalhes escandalosos da vida
íntima de personalidades históricas. Analisando genes, escritos
e objetos, esses pesquisadores têm conseguido informações
de pouca relevância para o entendimento da obra e do gênio
dos mortos ilustres. Em compensação, estão desencavando um
saboroso material de fuxicos.
A surdez de Beethoven
foi provocada pela sífilis? O compositor Franz Schubert
era homossexual? Adolf Hitler se recusava a fazer exames
médicos de corpo inteiro porque tinha apenas um testículo?
A poeta americana Emily Dickinson alimentou uma paixão homossexual
pela cunhada? São essas algumas das questões de que se ocupam
muitos historiadores. Beethoven é um assunto muito rico
para os fofoqueiros históricos. Sabe-se muito menos de sua
vida pessoal do que da de outros compositores que viveram
antes dele, como Wolfgang Amadeus Mozart. Por razões óbvias,
durante anos Beethoven tentou esconder que era surdo. Acabou
se fechando num processo criativo obsessivo protegido pelo
temperamento irascível. "Detalhes cruciais da vida
dele escaparam a seus biógrafos", diz o médico americano
Alfredo Guevara, um dos responsáveis pelo estudo genético
do tufo de cabelo do compositor. Guevara e o colecionador
americano Ira Brilliant, que assinam a nova biografia, fazem
segredo sobre as revelações a ser trazidas pelo livro, mas
sugerem que elas giram em torno da provável doença venérea
que teria infernizado o compositor.
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Emily Dickinson
Biógrafos reviraram cartas e os esboços com dedicatórias
de alguns poemas para achar as provas de uma paixão
homossexual pela sua cunhada. |
Sabe-se que Beethoven
morreu em Viena, em 26 de março de 1827. Seus médicos registraram
cirrose hepática como causa do óbito. Ao morrer, enfrentava
também uma pneumonia que o colocou de cama por semanas.
Os especialistas acreditam que o exame do material genético
da raiz dos fios de cabelo possa dizer mais sobre a saúde
e o comportamento de Beethoven. Nada que interesse aos amantes
de sua música, já premiados no mês passado com a execução
pública de uma partitura inédita do compositor. Trata-se
de um pequeno movimento para cordas feito em 1817. A peça
tem apenas 23 compassos, mas é sublime por sua raridade.
Mais rara, aliás, do que as amostras de cabelo do compositor.
Além dos fios que pertencem a Guevara e Brilliant, a Biblioteca
do Congresso americano tem 26 cachos do cabelo de Beethoven
em seus cofres. A Universidade de Hartford tem outros tantos
e há várias outras amostras em mãos de colecionadores particulares.
"Há muito pouco
material genético nos fios de cabelo", diz o professor
mineiro Sérgio Danilo Pena, um dos maiores especialistas
em investigações genéticas do Brasil. "O que os pesquisadores
vão poder descobrir com alguma dose de certeza é se ele
sofria de doenças congênitas ou, talvez, se morreu envenenado."
No fundo, o que move certos historiadores é a mesma força
que impulsiona os tablóides sensacionalistas ingleses e
os programas de fofoca na televisão e no rádio brasileiros.
Atualmente há estudos ferventes tentando determinar se o
presidente americano Abraham Lincoln contraiu sífilis de
prostitutas e a transmitiu a sua esposa. Descobertas assim
sobre a vida de Beethoven ou Lincoln não mudam nada para
quem gosta de música clássica ou para quem admira o papel
do grande presidente da História dos Estados Unidos. As
cartas que revelam o racismo de Albert Einstein em relação
a sua primeira esposa, Mileva Maric, uma sérvia que nunca
foi aceita pela família do cientista, não lançam novas luzes
sobre suas descobertas fundamentais para a física. Só mostram
que na vida particular o pai da teoria da relatividade possuía
todos os defeitos dos homens de sua época.
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Adolf Hitler
Prontuários médicos mostram um paciente megalomaníaco
que jamais se despia durante as consultas ou se deixava
radiografar. Talvez pela vergonha de ter sido mutilado.
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São poucos os estudos
assim que, acrescentados ao que já se sabe, ajudam a entender
melhor a História. Um deles é o livro lançado recentemente
pelo médico inglês Richard Gordon, que mostra o relacionamento
do ditador austríaco Adolf Hitler com seu médico particular.
Os prontuários revelam que Hitler não se despia durante
suas consultas ou se deixava radiografar. A interpretação
mais corriqueira é que ele não julgava ninguém digno de
enxergar seu corpo. A verdade pode ser outra. Hitler perdera
um testículo num ferimento sofrido na I Guerra Mundial,
na qual atuou como cabo mensageiro. As pesquisas como a
dos cabelos de Beethoven podem ser curiosas, mas não mais
do que isso. Se indagações assim fossem fundamentais, ninguém
se interessaria pelos dramas do inglês William Shakespeare.
Até hoje, apesar dos esforços dos historiadores e da fantasia
dos roteiristas de Hollywood, pouco se conhece de sua vida.
Os escassos documentos da época mostram que Shakespeare
nasceu em Stratford-upon-Avon, casou-se aos 19 anos, trabalhou
como ator em Londres, teve duas filhas e um filho, que morreu
afogado. Nada se sabe sobre seus amores, doenças ou a causa
de sua morte. Tais lacunas não diminuem um átimo de sua
imortalidade.
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