Edição 1 625 - 24/11/1999

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Ciência do fuxico

Pesquisadores correm atrás de
detalhes íntimos de personalidades

 
Ludwig van Beethoven
Pesquisadores estão realizando análise do DNA de um tufo de cabelo para descobrir se ele tinha sífilis. Eles imaginam que a doença teria causado surdez no compositor.


Há quase um ano, uma equipe de estudiosos americanos está tentando descobrir segredos da vida do célebre compositor alemão Ludwig van Beethoven, examinando fios de seu cabelo que foram conservados por gerações até os dias de hoje. Exatos 582 fios de cabelo de Beethoven, arrematados em 1994 por 7.000 dólares em um leilão da Sotheby's de Londres, foram entregues a seis geneticistas da Universidade do Arizona. Os testes estão em fase de conclusão e seus resultados devem ser publicados em um livro nos Estados Unidos no próximo ano. O que se pretende descobrir com a pesquisa? Principalmente se Beethoven sofria de sífilis. O estudo dos fios de cabelo do genial criador das sinfonias e da ópera Fidélio é apenas mais um exemplo da nova corrente de pesquisa centrada na busca de detalhes escandalosos da vida íntima de personalidades históricas. Analisando genes, escritos e objetos, esses pesquisadores têm conseguido informações de pouca relevância para o entendimento da obra e do gênio dos mortos ilustres. Em compensação, estão desencavando um saboroso material de fuxicos.

A surdez de Beethoven foi provocada pela sífilis? O compositor Franz Schubert era homossexual? Adolf Hitler se recusava a fazer exames médicos de corpo inteiro porque tinha apenas um testículo? A poeta americana Emily Dickinson alimentou uma paixão homossexual pela cunhada? São essas algumas das questões de que se ocupam muitos historiadores. Beethoven é um assunto muito rico para os fofoqueiros históricos. Sabe-se muito menos de sua vida pessoal do que da de outros compositores que viveram antes dele, como Wolfgang Amadeus Mozart. Por razões óbvias, durante anos Beethoven tentou esconder que era surdo. Acabou se fechando num processo criativo obsessivo protegido pelo temperamento irascível. "Detalhes cruciais da vida dele escaparam a seus biógrafos", diz o médico americano Alfredo Guevara, um dos responsáveis pelo estudo genético do tufo de cabelo do compositor. Guevara e o colecionador americano Ira Brilliant, que assinam a nova biografia, fazem segredo sobre as revelações a ser trazidas pelo livro, mas sugerem que elas giram em torno da provável doença venérea que teria infernizado o compositor.


Emily Dickinson
Biógrafos reviraram cartas e os esboços com dedicatórias de alguns poemas para achar as provas de uma paixão homossexual pela sua cunhada.

Sabe-se que Beethoven morreu em Viena, em 26 de março de 1827. Seus médicos registraram cirrose hepática como causa do óbito. Ao morrer, enfrentava também uma pneumonia que o colocou de cama por semanas. Os especialistas acreditam que o exame do material genético da raiz dos fios de cabelo possa dizer mais sobre a saúde e o comportamento de Beethoven. Nada que interesse aos amantes de sua música, já premiados no mês passado com a execução pública de uma partitura inédita do compositor. Trata-se de um pequeno movimento para cordas feito em 1817. A peça tem apenas 23 compassos, mas é sublime por sua raridade. Mais rara, aliás, do que as amostras de cabelo do compositor. Além dos fios que pertencem a Guevara e Brilliant, a Biblioteca do Congresso americano tem 26 cachos do cabelo de Beethoven em seus cofres. A Universidade de Hartford tem outros tantos e há várias outras amostras em mãos de colecionadores particulares.

"Há muito pouco material genético nos fios de cabelo", diz o professor mineiro Sérgio Danilo Pena, um dos maiores especialistas em investigações genéticas do Brasil. "O que os pesquisadores vão poder descobrir com alguma dose de certeza é se ele sofria de doenças congênitas ou, talvez, se morreu envenenado." No fundo, o que move certos historiadores é a mesma força que impulsiona os tablóides sensacionalistas ingleses e os programas de fofoca na televisão e no rádio brasileiros. Atualmente há estudos ferventes tentando determinar se o presidente americano Abraham Lincoln contraiu sífilis de prostitutas e a transmitiu a sua esposa. Descobertas assim sobre a vida de Beethoven ou Lincoln não mudam nada para quem gosta de música clássica ou para quem admira o papel do grande presidente da História dos Estados Unidos. As cartas que revelam o racismo de Albert Einstein em relação a sua primeira esposa, Mileva Maric, uma sérvia que nunca foi aceita pela família do cientista, não lançam novas luzes sobre suas descobertas fundamentais para a física. Só mostram que na vida particular o pai da teoria da relatividade possuía todos os defeitos dos homens de sua época.


Adolf Hitler
Prontuários médicos mostram um paciente megalomaníaco que jamais se despia durante as consultas ou se deixava radiografar. Talvez pela vergonha de ter sido mutilado.

São poucos os estudos assim que, acrescentados ao que já se sabe, ajudam a entender melhor a História. Um deles é o livro lançado recentemente pelo médico inglês Richard Gordon, que mostra o relacionamento do ditador austríaco Adolf Hitler com seu médico particular. Os prontuários revelam que Hitler não se despia durante suas consultas ou se deixava radiografar. A interpretação mais corriqueira é que ele não julgava ninguém digno de enxergar seu corpo. A verdade pode ser outra. Hitler perdera um testículo num ferimento sofrido na I Guerra Mundial, na qual atuou como cabo mensageiro. As pesquisas como a dos cabelos de Beethoven podem ser curiosas, mas não mais do que isso. Se indagações assim fossem fundamentais, ninguém se interessaria pelos dramas do inglês William Shakespeare. Até hoje, apesar dos esforços dos historiadores e da fantasia dos roteiristas de Hollywood, pouco se conhece de sua vida. Os escassos documentos da época mostram que Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon, casou-se aos 19 anos, trabalhou como ator em Londres, teve duas filhas e um filho, que morreu afogado. Nada se sabe sobre seus amores, doenças ou a causa de sua morte. Tais lacunas não diminuem um átimo de sua imortalidade.