Edição 1 625 - 24/11/1999

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Deus é dez

Mas só para o bom aluno de Ciências da Religião

Eliana Assumpção
Campus da PUC-SP:
outra carreira


Ópio do povo, mera superstição, resquício da Idade das Trevas, anacronismo a ser superado pelo avanço tecnológico. O bombardeio intelectual sobre a religião é intenso há quase 300 anos, desde o surgimento do Iluminismo, o movimento filosófico que colocou a razão no centro do universo. Os ataques, no entanto, têm-se revelado infrutíferos: a fé chega ao final deste século como um fenômeno de dimensões extraordinárias, com implicações geopolíticas, sociológicas e mercadológicas. De olho no recrudescimento do sentimento religioso nas sociedades contemporâneas, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, e a Universidade Metodista de Piracicaba estão inaugurando a graduação em Ciências da Religião. Não, não se trata de um nome moderninho e um tanto paradoxal para o empoeirado curso de Teologia, que exige como requisito básico a crença em Deus. Um aluno de Ciências da Religião pode ser agnóstico, cético ou até mesmo católico praticante. Não importam suas convicções, ele é levado a analisar o tema à luz da antropologia e da História. "Ao contrário do que muitas pessoas pensam, religião se discute, sim", explica o filósofo João Décio Passos, coordenador do curso na PUC-SP. No currículo, além de matérias que se debruçam sobre as grandes tradições, entre elas o judaísmo, o hinduísmo, o budismo e o cristianismo, estão previstas disciplinas que dão conta de aspectos menos épicos. Como as relações entre crença e ecologia, entre fé e mídia e entre religião e Ele. Ele, no caso, não é Aquele, e sim o onipresente, onisciente e onipotente mercado.