Ópio do povo, mera superstição,
resquício da Idade das Trevas, anacronismo a ser
superado pelo avanço tecnológico. O bombardeio
intelectual sobre a religião é intenso há
quase 300 anos, desde o surgimento do Iluminismo, o movimento
filosófico que colocou a razão no centro
do universo. Os ataques, no entanto, têm-se revelado
infrutíferos: a fé chega ao final deste
século como um fenômeno de dimensões
extraordinárias, com implicações
geopolíticas, sociológicas e mercadológicas.
De olho no recrudescimento do sentimento religioso nas
sociedades contemporâneas, a Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, PUC-SP, e a Universidade
Metodista de Piracicaba estão inaugurando a graduação
em Ciências da Religião. Não, não
se trata de um nome moderninho e um tanto paradoxal para
o empoeirado curso de Teologia, que exige como requisito
básico a crença em Deus. Um aluno de Ciências
da Religião pode ser agnóstico, cético
ou até mesmo católico praticante. Não
importam suas convicções, ele é levado
a analisar o tema à luz da antropologia e da História.
"Ao contrário do que muitas pessoas pensam, religião
se discute, sim", explica o filósofo João
Décio Passos, coordenador do curso na PUC-SP. No
currículo, além de matérias que se
debruçam sobre as grandes tradições,
entre elas o judaísmo, o hinduísmo, o budismo
e o cristianismo, estão previstas disciplinas que
dão conta de aspectos menos épicos. Como
as relações entre crença e ecologia,
entre fé e mídia e entre religião
e Ele. Ele, no caso, não é Aquele, e sim
o onipresente, onisciente e onipotente mercado.
